#3 O desenvolvimento da mulher na sociedade – A Bíblia cristã

Não sou teóloga, tão pouco religiosa, mas para escrever esse texto abri a bíblia cristã e folheei suas páginas dando a devida atenção a maneira como o sexo feminino é abordado. Estaria eu mentindo se dissesse que a Bíblia, escrita por 40 autores, não possui histórias magníficas no seu velho e novo testamento, de mulheres fortes que lutaram por suas famílias e seus filhos, mas também não podemos fechar nossos olhos para as passagens do mesmo livro cristão que corroboraram por mais de 1600 anos com a submissão feminina. O fato é que as passagens e histórias contadas na Bíblia foram lidas por todo o mundo, e seus ensinamentos ainda em tempos modernos foram tomados como verdades absolutas, muitas vezes sem serem devidamente reinterpretados, disseminando pontos de vistas que hoje são mais do que arcaicos. Negar isso é tentar tapar o sol com a peneira.

Marie de Gournay (1565 – 1645), foi uma filósofa e escritora que aprendeu sozinha o grego e o latim. Em 1622 escreveu “A igualdade entre os homens e as mulheres” e neste texto ressaltou que nenhuma lei natural, civil ou religiosa justificavam a inferioridade em que as mulheres eram tratadas.

Os pais da Igreja (santos padres, teólogos, bispos cristão influentes dos primeiros séculos do cristianismo) que formaram através da sua interpretação as bases das doutrinas das vertentes cristãs acabaram por se apoiar na imagem de um Deus masculino. Eles estavam longe de dizer que uma mulher poderia ocupar os mesmos ofícios de um homem quanto dizer que os homens não eram os representantes de Deus. Os mesmos homens que pretendiam elevar o espírito e aproximá-lo de Deus, o enfraqueciam ao desprezar as mulheres por meio da própria arrogância ao se colocarem no pedestal de serem os únicos representantes da Luz divina.

Criou Deus o homem à sua imagem,
à imagem de Deus o criou;
homem e mulher os criou.
Gênesis 1:27

Adão veio primeiro, e isso já bastou para engrandecer anos depois o ego daqueles que acreditavam que a terra pertencia aos homens não apenas por ordem de chegada, mas pela dita semelhança à imagem de Deus. Os pais da Igreja parecem ter fechado os olhos no que diz respeito a criação divina, pois, homem E mulher foram feitos à sua imagem, e não a mulher à imagem do homem que foi feito à imagem de Deus.

22 Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a levou até ele.
23 Disse então o homem:
“Esta, sim, é osso dos meus ossos
e carne da minha carne!
Ela será chamada mulher,
porque do homem foi tirada.
24 Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne”.
Gênesis 2:22-24

Quando lemos essa passagem “Esta sim é osso dos meus ossos e carne da minha carne!” vemos mais uma vez a afirmativa manifestar a ligação e apoderamento de Eva à Adão, como se fosse ele seu criador, e não Deus.

Quero propor um questionamento: nossa magnífica língua portuguesa, como tantas outras, está sujeita às variantes linguísticas temporais para reinterpretar com outras palavras, sejam elas mais ou menos sutis, as passagens bíblicas. Embora a história contada no livro sagrado permaneça sempre a mesma, teria ela, através dos anos, tido a escolha de palavras mais suavizada conforme os movimentos pelos direitos da mulher ganharam força? Acredito que sim, pois tenho uma bíblia com edição de 1969 que possui passagens com uma escolha de palavras tão duras, que se empregadas hoje, seriam consideradas uma ofensa à todo o sexo feminino, mas não só! teriam versões anteriores a de 1969 (das quais não tenho em mãos) sido ainda mais condescendentes com a inferiorização da mulher? (Isso com certeza vale outro capítulo de estudo). Posso dizer que em tempos modernos, as traduções deste livro ainda o são:

Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, como ao Senhor, pois o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual ele é o Salvador. Assim como a igreja está sujeita a Cristo, também as mulheres estejam em tudo sujeitas a seus maridos.
Efésios 5:22-24

Do mesmo modo, mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, a fim de que, se ele não obedece à palavra, seja ganho sem palavras, pelo procedimento de sua mulher, observando a conduta honesta e respeitosa de vocês.
1 Pedro 3:1-6

A persuasão utilizada para manter as mulheres submissas aos homens se apega exclusivamente ao divino, e na minha particular opinião, não poderia ser esta uma atitude mais covarde. Usar da crença e fé da mulher para justificar a submissão dela ao homem, e romantizar esta barbaridade como sendo equiparável ao elo de ligação da Igreja -vista como um templo de extrema divindade- com Cristo, é nada menos do que apelativo e um uso da má fé para manter um sexo sempre a mercê do outro.

Não vou me prender em demasia sobre todas as passagens que sabotaram a mulheres como indivíduos e ajudaram os homens que já se sentiam superiores, a acreditar que as mulheres eram e assim deveriam continua sendo, a parte mais frágil dentre os sexos. Contudo, vale ressaltar a sujeição das mulheres ao lar, ao tear e a roca e as tarefas domésticas que a Bíblia aborda como tarefas femininas:

Ela faz vestes de linho e as vende,
e fornece cintos aos comerciantes. Reveste-se de força e dignidade;
sorri diante do futuro. Fala com sabedoria
e ensina com amor. Cuida dos negócios de sua casa
e não dá lugar à preguiça.
Provérbios 31:24-27

A bíblia contribuiu e muito para manter a crença de que as mulheres eram a parte mais frágil e que deveriam permanecer reclusas às tarefas manuais e ao lar. Quando se atribui à um sexo determinadas tarefas, outras pessoas passam a replicá-los como tarefas que pertencem só e exclusivamente àquele sexo.

Escolhe a lã e o linho
e com prazer trabalha com as mãos. Como os navios mercantes,
ela traz de longe as suas provisões. Antes de clarear o dia ela se levanta,
prepara comida para todos os de casa
e dá tarefas às suas servas. […]
Nas mãos segura o fuso
e com os dedos pega a roca. Acolhe os necessitados
e estende as mãos aos pobres.
Provérbios 31:13-20

Certa vez, não muito tempo atrás fui em uma missa e o pastor falava sobre os papéis da mulher no lar. Que o papel da mulher era edificá-la e apoiar seus maridos em suas tomadas de decisões. Que elas como boas esposas deveriam incentivá-los a tornarem-se bons pastores, para que elas se tornassem “mulheres de pastores”. Vejam que ainda hoje o máximo que uma mulher é permitida ascender dentro de alguns cultos é sob a sombra de um homem, que não é seu pai, mas marido. Não poderia ela exercer a atividade pastoral? Ao menos naquele culto, não. Reservavam-se às atividades femininas o canto das canções e o cuidado das crianças menores bem como a organização das missas.

É muito triste para mim ainda me deparar com ideais tão retrógrados sobre o papel da mulher na sociedade e como o cristianismo ajudou (e ainda ajuda) a disseminar ideias de submissão feminina e inferioridade em que as mulheres são tratadas. Mais sobre isso vamos discutir no próximo capítulo deste estudo que sai amanhã à noite. Vejo vocês lá.

– Rejane Leopoldino

#2 O desenvolvimento da mulher na sociedade – Discurso físico e moral

[…] As mulheres que pareciam ser mais fracas por conta de suas funções, que exigiam menos força, foram vistas como inferiores aos homens.
– François Poullain de la Barre

Embora muito tenhamos herdado dos gregos e romanos na nossa cultura ocidental, não foram deles que principiou a fonte da misoginia. Ela de alguma forma já estava lá e apenas foi sendo replicada incessantemente em cada geração que construiu nossa civilização durante séculos.

Então, como de fato podemos supor que nos séculos que nos antecederam, a exclusão das mulheres em atividades não relacionadas à vida doméstica, tais como o exercício de vínculos empregatícios, liberdade financeira, direito de posse, exercício da voz, etc, contribuíram para deixá-las em situação de inferioridade em relação aos homens?

Para responder a essa pergunta me debruço em cima dos escritos deixados por François Poullain de la Barre, mais especificamente, sobre seu texto “Da igualdade entre os dois sexos, discurso físico e moral, onde vemos a importância de se desfazer dos preconceitos” escrito em 1679. Texto esse que nos traz um panorama histórico e elabora um cenário muito próximo à realidade da herança que herdamos e não deixamos de cultivar.


Se voltarmos no tempo, ao começo do mundo, nas primeiras civilizações, poderemos imaginar com facilidade que o relacionamento entre homens e mulheres era muito diferente do que a viria a se tornar anos depois. Homens e mulheres se dedicavam igualmente ao plantio e a caça, aquele que trazia mais fartura à família, claro, seria o mais honrado, e os homens sendo naturalmente mais robustos e mais fortes, possuíam lá alguma vantagem corporal sob as mulheres, uma vez que os incômodos temporários da gravidez as faziam precisar se ausentar das tarefas que exigiam delas maior força física, e quando os bebês nasciam, as mesmas precisavam se dedicar à amamentação e aos cuidados dos filhos. As mães então ficavam dependentes por um breve período dos seus maridos – se é que podemos presumir a existência de um laço matrimonial àquela época – os homens, então, com a ausência das mulheres, passaram a puxar apenas para si as tarefas do exterior.

As mulheres precisavam ficar reclusas em seus lares cuidando dos filhos e do interior. O homem -que era mais livre – saía para a caça e para as atividades exteriores, as mulheres cuidavam e educavam os filhos, realizando apenas tarefas mais simples, que não demandavam muito de sua força física, nem estimulavam o intelecto.

Os primeiros filhos e filhas cresceram, e passaram a não precisar tanto da mãe, a mulher então retoma aos poucos as suas atividades exteriores junto à comunidade, mas como em uma época tão remota não haviam métodos anticoncepcionais e para engravidar basta o sexo, é de se imaginar que as mulheres tinham muitos filhos, uns mal cresciam e outros já estavam a caminho, e quanto mais engravidavam, mais atreladas às tarefas domésticas ficavam. A organização doméstica, ainda que fosse crucial para manter a ordem e disciplina, não era tão nobre quando as demais atividades do exterior.

É fácil imaginar que os filhos seguiram os passos dos pais, da mesma forma que quando somos crianças aprendemos a reproduzir o que observamos. Os filhos homens seguiram os passos dos pais para fora do lar, em direção à liberdade. Já as filhas, reproduziram o comportamento recluso da mãe que se via obrigada a permanecer no lar para educar os filhos. As filhas não pensavam em sair, pois viam em seu pai e seus irmãos alguém que era forte para lidar com o mundo exterior por elas, e que seu lugar era em casa, pois em força física pouco podiam competir, visto que a delicadeza da gravidez poderia atingir-las a qualquer momento.

As comunidades se tornaram cada vez maiores e a civilização os atingiu. A contínua reprodução de comportamento recluso das mulheres que foi passada de geração em geração em detrimento de uma futura gravidez que podia ou não vir a existir, mas pela qual elas deviam estar preparadas, as impediram de aprender as tarefas do exterior, visto que pertenciam apenas aos homens, elas então, permaneceram na ignorância de seus lares, ignorando o mundo que havia fora das paredes.

O restante desta discussão continuarei no próximo capítulo dessa saga que busca compreender o passado do lento desenvolvimento do sexo feminino na sociedade.

– Rejane Leopoldino

#1 O desenvolvimento da mulher na sociedade – o exercício da voz

Não nos esqueçamos de que as mulheres no Ocidente têm muito a celebrar.

– Mary Beard

Depois de tanto ler e pesquisar a fundo a participação feminina na literatura, filosofia, política e artes plásticas, cheguei a conclusões e me deparei com verdades sobre o passado que me geraram dor física. E como eu escrevo muito melhor do que falo, me parece adequado repassar todo o conhecimento que adquiri sobre a participação feminina na sociedade nestes meses que passei afastada estudando este tema. E eu não poderia deixar vocês sem a recomendação de algum livro, pois, como leitora e como um ser humano que escreve, é mais do que minha obrigação recomendar os livros que muito me abriram os olhos ao longo dessa jornada. Um deles é “Mulheres e Poder” de Mary Beard, um livro enriquecedor que explica o porquê do ódio contra as mulheres que tem voz.

Li diversos livros sobre o desenvolvimento da mulher na sociedade desde antes do nosso Anno domini e sobre como começou a ser moldado e aplicado o movimento de igualdade entre os sexos ainda no século XVI. Mas quanto mais eu leio, mais a história se repete: as mulheres não tinham voz ativa em todas aquelas épocas. Isso me obriga a refletir: quão lento foi o desenvolvimento da voz feminina? E o que motivou essa lentidão?
Bom, visto que muito herdamos dos gregos e romanos, comecemos por eles.

Na Odisseia de Homero, obra escrita a quase 2 milênios, Telêmaco, filho de Ulisses e Penélope, manda sua própria mãe voltar aos aposentos e retomar seu trabalho junto ao tear após Penélope pedir para que o bardo – que tocava as dificuldades vividas pelos heróis gregos ao voltarem para casa – começasse a tocar algo mais alegre. Telêmaco, descontente com o pedido de sua mãe, ordena que ela volte aos seus aposentos e afirma que:

“Discursos são coisas de homens, e meu, mais do que qualquer outro, pois meu é o poder nesta casa”.

Quando Telêmaco manda a própria mãe de volta para seu quarto, a obra de Homero não expressa apenas a soberania masculina sob a mulher, expressa também como os discursos e qualquer atividade relacionada à fala, eram associados apenas aos homens e que o tear e a roca, eram atividades de uma boa dona de casa. Uma forma mais antiga de mandar “calar a boca” e não só, teria partido daí, a antiga crença de que a posse da propriedade pertencia ao homem e somente a ele? “O homem da casa”?

Metamorfoses, obra de Ovídio, poeta romano, datada de aproximadamente 8 d.C, é uma das obras mais famosas e de grande influência da história e da poesia. Ilustres nomes como Shakespeare e até mesmo Picasso se inspiraram em suas obras. É difícil encontrar alguma outra obra que tenha exercido tanta influência nas artes plásticas ou na literatura ao longo de tantos séculos como Metamorfoses de Ovídio.

Contudo, vejam uma das formas em que a presença das mulheres nos contos e poesias eram retratadas. Deixo aqui o mito de Filomela, um dos contos de Ovídio em Metamorfose.
O conto narra o romance de Tereu e Procne, romance esse que acaba quando Tereu apaixona-se por Filomela, irmã de sua esposa. Ao negar entregar-se a Tereu, Filomela é violentada por seu cunhado e ele, para impedir que ela denunciasse o estupro, decide cortar a sua língua, porém, mesmo com a língua cortada, Filomela consegue denunciar a violência vivida para sua irmã Procne, esposa de Tereu, bordando uma mensagem em uma tapeçaria.

Shakespeare retoma essa ideia em Tito Andrônico, obra considerada a mais sangrenta de todas, possui um texto em que a língua da estuprada Lavínia é também cortada.

E Picasso também não fica atrás, esta é sua versão, de 1930, do estupro de Filomela.

Vejam como Ovídio continuou sendo retratado por homens de grande influência séculos depois de sua morte. As obras de Ovídio e Homero eram inspirações, leituras obrigatórias aos pensadores que viriam a seguir. As mensagens subliminares de que mulheres eram seres frágeis, que deveriam ser dominadas e subordinadas, empregadas nos contos destes e de tantos outros livros, reafirmaram através de séculos e gerações que o sexo feminino não possuia os culhões necessários para expressar-se em público e que sua voz estridente deveria permanecer em silêncio. Afirmação essa que foi repetida tantas vezes ao longo dos séculos que passou-se a acreditar que era verdade. Pensem em quantos homens nem tão ilustres que entraram em contato com as obras de Ovídio e Homero, viram em seus textos um comportamento que poderia ser facilmente reproduzido dentro do próprio lar. Comportamento esse que foi repassado ao longo de gerações, fortificando cada vez mais, a ideia de submissão feminina.

Simbolizar o silêncio com o corte da língua, não poderia ser mais apropriado. O discurso e a voz são os símbolos da liberdade de expressão, nossa voz é capaz de exercer influência sob outros, disseminar ideias, propagar conhecimento, quem fala, e acima de tudo quem se expressa bem, conquista um lugar na sociedade, passa a ser reconhecido pela oratória, é visto como um líder, pois líderes precisam ter boa oratória para poder expressar-se e conquistar seguidores.

Cortar a língua de Filomela e Lavínia é tirar delas a liberdade de expressão. Uma mulher muda não chamaria atenção, não seria sequer ouvida. E o que era um indivíduo que não se expressava naquela época, senão um animal? Emudecer um indivíduo é o mesmo que deixá-lo à margem da sociedade, ele perde participação civil pois não pode se expressar, e não foi isso que aconteceu por séculos com as mulheres? Dizer que hoje, as mulheres são capazes de se expressar e serem legitimamente ouvidas é reafirmar a conquista de um direito básico que por muito tempo nos foi negado. E ainda há quem diga, hoje, em tempos modernos do século XXI, que as mulheres falam demais. Falamos mesmo? Ou será que muitos estão apenas acostumados com a ideia do silêncio de Filomela?

-Rejane Leopoldino




Participação feminina no mercado de trabalho após a maternidade

Metade das mulheres grávidas são demitidas na volta da licença maternidade. Esse é apenas um dos vários resultados obtidos na pesquisa feita por Cecília Machado e Valdemar Pinho Neto, pesquisadores da FGV – Fundação Getúlio Vargas sobre as Consequências do mercado de trabalho na licença maternidade no cenário brasileiro.

Honestamente, eu não estou surpresa com o resultado principal da pesquisa, ela apenas comprovou o que nós mulheres já sabíamos: se quisermos ter filhos, precisaremos lidar com a incerteza de continuar ou não tendo nossos postos de trabalho para sustentar financeiramente a criança que colocamos no mundo – e tenham certeza que não colocamos sozinhas.

Um breve resumo da pesquisa:

Após 24 meses, quase metade das mulheres que tiram licença-maternidade está fora do mercado de trabalho, este padrão se mantém até 47 meses após a licença. Fora isso, a maioria das saídas do mercado de trabalho se dá sem justa causa e por iniciativa do empregador.

O grau de instrução e educação da mãe também influencia na porcentagem da queda de empregabilidade após a licença maternidade: trabalhadoras com maior escolaridade apresentam queda de emprego de 35% 12 meses após o início da licença, enquanto a queda é de 51% para as mulheres com nível educacional mais baixo. 
Basicamente o raciocínio por trás da diferença entre essas duas porcentagens é de que é mais difícil (ainda que possível) o empregador substituir uma funcionária que em razão de seu nível educacional superior está em cargos mais elevados e de tomada de decisões, do que substituir uma funcionária que ocupa uma posição mais baixa dentro da empresa devido sua pouca instrução, pois é possível encontrar com mais facilidade pessoas que desempenhem as mesmas funções que ela e que possuam o mesmo baixo nível educacional, tornando-a substituível dentro da empresa.

O estudo indica que, no Brasil, a licença-maternidade de 120 dias não é capaz de reter as mães no mercado de trabalho, mostrando que outras políticas (como expansão de creches e pré-escola) podem ser mais eficazes para atingir tal objetivo, especialmente para proteger as mulheres com menor nível educacional.

Pela lei, as trabalhadoras com registro em carteira têm estabilidade no emprego até cinco meses após o parto. Depois desse período, a estabilidade acaba e as mães podem ser demitidas a qualquer momento.

“Em muitos casos, as mulheres não retornam às suas atividades porque não têm com quem deixar os filhos pequenos”

diz Cecilia Machado, professora da FGV

Para o homem, ter um filho não reduz sua participação no mercado de trabalho. Na mesma faixa etária, 92% dos homens com filhos de até 1 ano continuavam trabalhando. Para os homens, a licença paternidade varia de cinco a vinte dias.

– Rejane Leopoldino

Ainda sobre Marie de Gounay e o livro Arqueofeminismo, de Maxime Rovere.

Vejam como a mente de Marie de Gounay (e eu não me canso de falar desta mulher) escritora e filósofa francesa era perspicaz:

Ela escreveu uma carta à rainha regente Ana de Áustria, filha de Felipe III e Margarida de Áustria, esposa de Luís XIII (depois da morte do rei, Ana assumiu o trono francês como regente no período de 1643 a 1651, até quando Luis XIV atinge a maioridade e torna-se rei em sucessão à sua mãe), a incentivando a apoiar a igualdade entre homens e mulheres e servir como exemplo para seu sexo em uma época dominada pelo patriarcado onde as mulheres não tinham suas vozes ouvidas a menos que estivessem sendo apoiadas por outros homens. Uma carta à rainha, ela não poderia ser chamada de menos do que ousada.

Não satisfeita, Marie de Gounay também escreveu o livro “Igualdade entre homens e mulheres” que serve como um tapa na cara de todos aqueles que acreditam na supremacia masculina. Ela não mediu esforços para embasar o seu pensamento igualitário, citando como fontes infinitas mentes antigas de nome ilustre, tais quais Platão e Sócrates que atribuem as mulheres os mesmos direitos, faculdades e funções ou ainda Plutarco, que em seu segundo livro de sua obra “Moralia” defende que a virtude do homem e da mulher são iguais. E ela não para por ai, Erasmo, teólogo e humanista, Poliziano, humanista, dramaturgo e poeta e Agrippa, pensador alemão famoso por argumentar em seu escrito “sobre a nobreza e pré excelência do sexo feminino”, que as mulheres poderiam ser consideradas superiores ao sexo masculino, ela citou todos estes nomes e vários outros, todos se opondo a aqueles que desprezam o sexo feminino, e quando já havia falado sobre as mulheres no campo intelectual, passou a falar da participação feminina na nobreza, criticando a Lei Sálica, que foi um código elaborado no início do século IV e que ainda estava em vigência na alta Idade Média. No século XIV, um artigo desse código foi separado do seu contexto original e empregado por juristas da dinastia real capetiana na França, para justificar a proibição das mulheres a ascenderem ao trono francês.

Após falar sobre a desigualdade sexual na nobreza, e nos campos intelectuais, Marie de Gounay vai de encontro ao debate com a igreja, refutando a ideia que se faz da Escritura de que o homem é dono da mulher, pois estes dois sexos vieram ao mundo como um só e suas únicas diferenças dizem respeito aos órgãos sexuais. Ou quando ela diz que: “Jesus Cristo é chamado filho do homem, embora ele só o seja da mulher” e ainda sobre a religião, ela diz: “Se os homens se vangloriam que Jesus Cristo tenha nascido com seu sexo, respondemos que tinha de ser assim, por um necessário decoro. Se ele tivesse sido do sexo feminino, não poderia ter se misturado às multidões a qualquer hora do dia e da noite a fim de socorrer, converter e salvar o gênero humano […] E ainda que alguém seja tão obtuso a ponto de imaginar que Deus é masculino ou feminino, embora seu nome pareça ter uma ressonância com o masculino, não há a necessidade de escolha de um sexo em detrimento de outro para honrar a encarnação de seu filho, esta pessoa mostra claramente que é tão mal filósofo, como teólogo”.

Deixo expressa aqui minha devoção a esta mulher.

– Rejane Leopoldino

 

 

É por esse motivo que não escrevo mais poemas desde 2016.

Um amigo me perguntou após ler o meu blogue de cabo a rabo, o por que de desde o fim de 2016 eu não ter mais escrito poemas. Bom, aqui escrevo a minha perturbadora resposta mascarada de desabafo.


Pode ser uma novidade para vocês, mas o blogue existe desde dezembro de 2014. vejamos em 2014 eu tinha… 16 anos, estou com 21 agora, é faz tempo. Eu comecei escrevendo poesias, a única categoria do site era: “poemas”, não haviam outras categorias. Eu estaria mentindo se dissesse que as poesias eram boas, mas elas também não eram ruins, eram poesias adolescentes dedicadas aos meus namoradinhos. Vá… eu tinha 16 anos.

Eu continuei por mais dois anos escrevendo minhas poesias no blogue, elas foram melhorando e eu estava orgulhosa do meu progresso, já não eram sobre os namoradinhos, eram muito mais maduras. Até que em 2016, poucos dias depois de eu completar 18 anos, conheci uma jovem moça, que felizmente não me lembro do nome, metida a intelectual, com um ar de superioridade e a falsa maturidade dos seus 22 anos. A conheci dentro de um shopping na livraria da Saraiva onde eu estava sentada em uma das mesas escrevendo alguns versos, esta moça procurava um lugar para sentar pois todas as outras mesas estavam cheias, ela perguntou se poderia se sentar comigo, eu disse que sim e começamos a conversar, ela viu que eu estava escrevendo poesias, perguntou se eu gostaria de ler as poesias dela, eu disse que sim e ela tirou um caderno da sua bolsa e as mostrou para mim. Os poemas de fato eram ótimos, muito bem escritos, lembro de me sentir o patinho feio dos poetas quando ela pediu que eu mostrasse a ela os meus versos.

Quando ela leu o meu caderninho de poemas, não fez comentários sobre o conteúdo do que eu havia escrito, apenas arqueou uma sobrancelha e perguntou quais os tipos de “formas poéticas” que eu mais gostava de utilizar e eu perguntei com muita ingenuidade: “como assim?”. Ela riu da minha cara. Achou ridículo (e ela realmente utilizou esta palavra) eu não saber o que era um poema Dístico, Décima, ou que Sonetos são compostos por exatamente 14 versos. Eu me senti realmente humilhada com a risada dela. Eu só tinha 18 anos, era uma garota sensível que não estava preparada para sofrer deboche e ridicularização de uma pessoa desconhecida e metida a intelectual. Ela disse que os meus poemas seriam melhores se eu escrevesse como ela e começou a reescrever sem nenhum pedido meu ou autorização os meus poemas em uma folha avulsa de seu caderno, corrigindo a forma poética se esnobando para mim, eu me senti humilhada pela crítica negativa aos meus poemas juvenis, tão humilhada que eu não tinha forças na voz para argumentar, só queria sair dali e ir chorar em uma cabine do banheiro feminino.  Ficar sentada naquela mesa enquanto eu a assistia debochar dos meus poemas e “corrigi-los” sem nenhuma autorização, foi uma tortura. Primeiro porque eu permaneci em silêncio, chocada demais com o atrevimento da atitude dela, segundo porque o meu silêncio deu a certeza que ela precisava de que podia me esnobar o quanto quisesse que eu não seria capaz de contra atacar.

Depois de alguns minutos sob aquela tortura, eu tive um lampejo de amor próprio, peguei minhas coisas, me levantei da mesa sem olhar para a cara daquela moça e fui chorar no banheiro. Pelo menos eu saí da mesa com classe e elegância.

Eu estava trancada na cabine do banheiro chorando horrores e com muita raiva, joguei o caderno onde escrevia meus poemas na lixeira e em cima do caderno rasguei vários pedaços de papel higiênico até acabar com o rolo de papel da cabine e lotar a lixeira. Foi uma cena deprimente.

Passei um ano inteiro sem ler poemas, voltei a ler no início de 2018 mas nunca mais consegui escrever nem um versinho que seja. E olha que já tentei diversas vezes. Até hoje me sinto acuada e constrangida em sequer tentar escrever um poema, me parece uma escrita inalcançável, me sinto indigna, envergonhada, ridicularizada como se eles fossem reservados apenas aos seres humanos que sabem aos 18 anos o que é um poema “dístico”, ah, por favor… Não demorou muito para eu sentir vergonha de todos os poemas que eu já havia publicado no blogue, a humilhação que aquele ser humano me submeteu realmente me impactou negativamente e me fez acreditar que eles eram poemas horríveis, capazes de gerar asco, então, a primeira coisa que fiz depois de jogar meu caderno fora, foi ir para casa e deletar quase todos os meus poemas (salvo um ou dois), não queria que ninguém mais visse o que eu havia escrito. Hoje, os meus arquivos de publicações daquele ano no WordPress estão assim:

Capturar

“Desconhecido ou excluído” – frase repetida mais de 30 vezes, um embaixo do outro se referindo a todos os poemas que excluí do blogue.

Para mim, poemas nunca se prenderam às regras gramaticais e a licença poética sempre me pareceu ser muito mais do que apenas uma incorreção da linguagem permitida na poesia. Poesia é liberdade de expressão, o escritor se desprende da normatividade das regras gramaticais em busca de atingir seus objetivos de expressar o que sente. A poesia não é e nem deve ser engessada, dura, construída com cimento sob normas que poucos seres humanos obedecem. Se eu soubesse em 2016 o que sei hoje sobre poesia, com certeza não teria ficado em silêncio enquanto aquele ser humano debochava da minha ingenuidade. Mas não tem jeito, a praga foi jogada. Não consigo mais escrever poemas, sinto pavor em receber uma crítica. A categoria de “poemas” do blogue já não tem nenhuma poesia, apenas textos aleatórios.

– Rejane Leopoldino

 

Arqueofeminismo de Maxime Rovere

 “Tudo o que os homens escreveram sobre as mulheres deve ser suspeito, pois eles são, a um tempo, juiz e parte”.
François Poullain de la Barre (1647-1725)

Há um livro que indico imenso a leitura, ele chama-se “Arqueofeminismo” organizado por Maxime Rovere, livro este que me inspirou a escrever esse texto e com certeza, a escrever outros tantos e que reúne em um volume textos escritos por duas mulheres fabulosas, Marie de Gournay e Olympe de Gouges e que estão entre as maiores intelectuais dos séculos XVII e XVIII, assim como três textos escritos por homens, François Poullain de la Barre, Choderlos de Laclos e Nicolas de Condorcet, que defenderam a presença das mulheres nos campos políticos, intelectuais e da vida pública. Leiam, de verdade.


A história das mulheres na filosofia foi acobertada. Da antiguidade ao início do século XX a sociedade patriarcal européia reservou o estudo das letras e da filosofia aos homens. Esse monopólio da educação esforçou-se muito em manter as mulheres longe dos campos filosóficos, da literatura e até mesmo da política.
O  monopólio patriarcal não obteve sucesso. Ao longo da história, é possível encontrar vestígios de mulheres que contribuíram imenso para os marcos de sua época. São algumas delas: na Grécia, Temista e Hipátia, famosa neoplatônica; no mundo cristão há também Hildegarda de Bingen (1098 – 1179) e Cristina de Pisano (1364 – 1430); no mundo islâmico, Fatima bint al- Muthanna, (século XII) entre tantas outras mulheres, e se essas mulheres (que são exceções na história por terem conseguido se educar), não conseguiram dar uma voz maior aos seus pensamentos, é em parte porque na história da filosofia, a Grande Narrativa, entoa aos nomes de Sócrates, Platão, Descartes, Tomás de Aquino, Kant… como diria Maxime Rovere, ao criticar o patriarcado no campo da filosofia, “continua a ser uma história de homens, feita por homens e para sua própria glória”.

É tentar tapar o sol com a peneira achar que a história da filosofia se desenvolveu durante alguns milênios sem a presença das mulheres. Para ir contra a narrativa que esconde as mulheres que contribuíram no campo da filosofia, é preciso um ardo trabalho arqueológico para que seja possível reequilibrar a maneira como contamos a história da filosofia que recobriu as importantes contribuições trazidas ao pensamento pelas mulheres e pelas questões levantadas por elas.

– Rejane Leopoldino

 

São muitas respostas para uma única pergunta e Amélia é uma paciente difícil.

Amélia acordou cedo, às 05:30 da manhã ela já havia tomado banho, vestido seu roupão branco, preparado o chá matinal de hortelã e sentado na cadeira de sua escrivaninha em uma infeliz segunda-feira nublada. Ela abre o notebook e fita os seus livros salvos em documentos do Word. Amélia já está mais do que aflita, quatro obras inacabadas e sem a menor previsão de serem concluídas. Pega a xícara, assopra a água quente do chá e dá um gole. Por que não conclui as obras? Não é falta de tempo, disso ela tem certeza, pois dedica-se todas as manhãs à acordar cedo para escrever, contudo, há uma enorme área cinzenta entre acordar para escrever e escrever de fato. Amélia abre um dos arquivos do word, seu primeiro e mais antigo livro está com 127 páginas, quase concluído, o segundo, 43 páginas, o terceiro, 86 páginas, já o quarto, apenas 22. Ela se descontenta com seus livros dia sim dia não, por diversas vezes já chegou a deletar todos eles antes de dormir, mas acordava no meio da madrugada para recuperá-los da lixeira eletrônica. Madrugadas estas em que não voltava a dormir, ficava acordada até nascer os primeiros raios de sol tentando ao máximo dedicar-se à escrever uma linha que fosse, contanto que fosse uma boa linha.

Conversa com o terapeuta, na mesma segunda-feira, algumas horas mais tarde:

“Por que não conclui ao menos um, Amélia?” – pergunta seu terapeuta cruzando as mãos em cima do colo.
Amélia pensa um pouco, suspira pesado se ajeitando na poltrona, começa a morder os lábios inferiores até deixá-los vermelhos. “Não me acho uma escritora boa o suficiente, não acho os livros bons o suficiente.”
O terapeuta descruza as mãos e apoia o cotovelo direito na braçadeira da poltrona, levando a mão ao queixo. “E o que é o suficiente para você?
Amélia não precisou sequer pensar para dar a resposta, na verdade, ela se surpreendeu pelo seu terapeuta ter feito esta pergunta, pois achava a resposta óbvia demais. “Nada menos do que perfeito, que cause espanto, que prenda o leitor, que o faça ler e reler os livros, devorá-los, e se não for pedir muito, que seja considerado um marco da época.” 
O terapeuta não conseguiu esconder o ar de espanto na sua expressão “Não acha que está se cobrando demais?”
Amélia sentiu como se a pergunta fosse um soco na boca do estômago, aliás, um soco teria ferido menos seu ego. “De forma alguma! se eu já não me encanto mais com o que escrevo, como outros vão se encantar?”
O terapeuta raciocinou por alguns segundos, arrumou a armação do óculos e respondeu: “Vamos utilizar uma analogia: depois de alguns anos em um relacionamento, é perfeitamente natural que aos poucos se perca o brilho do primeiro encontro, o fascínio em desbravar outro alguém, sejam seus sentimentos ou seu corpo, esse fascínio se esvai, mas isso não quer dizer que a pessoa se tornou menos interessante, quer dizer apenas que já a conhecemos o suficiente para não nos impressionarmos com facilidade, contudo, essa pessoa será sempre mais interessante para alguém que ainda não a conheça. O mesmo vale para seus livros, não acha? Você pode não estar mais impressionada, mas isso não quer dizer que eles não sejam impressionantes para outros leitores, apenas que você perdeu o fascínio por eles.”
“E o que você sugere que eu faça? Procure algo que ainda me interesse neles?” Amélia respondia debochada, duvidando da capacidade do seu terapeuta em oferecer uma solução.
“Fortaleça o seu relacionamento com seu livro mais antigo, procure pelo o que te motivou a escrevê-lo. Já chega de arranjar amantes, você está namorando um e se relacionando com outros três.” o terapeuta se referia aos outros três livros inacabados que Amélia havia começado antes de terminar o primeiro.
“É pra isso que estou pagando esta hora?”

– Rejane Leopoldino

Noivado secreto, casamento ilegal.

Uma repórter americana viaja até um vilarejo rural no Rajastão com sua intérprete para participar de uma cerimônia de noivado que a ajudará a escrever uma reportagem sobre os costumes matrimoniais daquela região. O noivado é de Nulaja, 5 anos, segunda filha de um agricultor a quem vamos chamar de sr. F. Quando Nulaja atingir a puberdade, mais precisamente a menarca, ela se casará com Hathab, que agora tem 10 anos e vem de uma família respeitada.

Em um quarto dentro da casa do sr. F, as esposas do vilarejo e a mãe de Nulaja a estão preparando para o cerimônia. Nulaja não faz ideia do que está acontecendo, ela brinca, corre e sorri para a câmera da repórter até que sua mãe a pega no colo para dar-lhe banho em uma bacia grande com água morna. A mãe de Nulaja tem apenas 19 anos.

Legalmente, as indianas só podem se casar depois dos dezoito anos, então a cerimônia de noivado é feita em sigilo, e acontecerá somente à meia noite, pois caso um policial não subornável apareça, o sr. F. pode ser preso. – como de fato deveria.

A repórter e sua intérprete estão sentadas conversando no chão de pedra do quarto onde Nulaja toma banho rodeada por quatro outras mulheres que fazem seu trabalho em silêncio. A repórter conversa em inglês sobre o quão abominável é o fato de que Nulaja, ainda tão jovem, estar condicionada ao casamento arranjado pela família. A intérprete diz aquele caso, embora seja horrendo não era dos piores: principalmente na àrea rural da India, é comum que as meninas se casem com noivos cinco ou sete anos mais velhos do que elas, mas em outros lugares como no Afeganistão, ou no Iêmen, por exemplo, Nulaja poderia estar se tornando noiva de um homem de 25 anos, para casar-se com ele quando ela tivesse 13 e ele 33, nesses casos, alguns noivos nem sequer respeitam a gauna, (cerimônia de tranferência física de uma noiva para a família do noivo), e estupram a noiva antes da cerimônia de casamento. Eles fazem isso com a desculpa de que querem “provas” de que estarão se casando com uma virgem, revela a intérprete.

As mulheres que estão banhando a criança olham para a repórter quando ela começa a conversar em outra língua, demonstrando claro desconforto com sua presença naquele lugar. A repórter pergunta para a intérprete com uma voz ainda mais baixa, se alguém, mãe ou irmã, já conversou com Nulaja sobre o fato dela estar se tornando noiva. A intérprete  balança negativamente a cabeça e responde que para encorajar a noiva a não se rebelar contra o casamento conforme ela for crescendo e chegando cada vez mais perto do matrimônio (o que poderia causar uma grande vergonha e desonra para a família), as outras mulheres preferem não dizer nada. Conforme ela for crescendo, continua a intérprete, Nulaja irá ouvir com frequência o termo paraya dhan, que significa “riquesa de outro” e se aplica as filhas que ainda moram com os pais.

Para a repórter e a intérprete é difícil resistir ao desejo de salvar Nulaja. Pegar ela no colo quando ninguém estiver olhando e sair correndo do vilarejo numa tentativa de impedir o noivado a todo custo.

A intérprete e a repórter conseguiram conversar com as mulheres do vilarejo enquanto aguardavam a cerimônia de noivado começar. Segundo uma das mulheres, de aproximadamente 52 anos e que aparentava ser a mais velha daquele lugar, a mãe de Nulaja casou-se aos 11 anos com um homem de 18, logo após a sua menarca, e pouco tempo depois deu à luz com 13 anos. Ela teve hemorragia interna após a consumação do casamento e após o parto, mas não tinha educação nem acesso à informação para se cuidar e essa é uma realidade frequente entre as mulheres daquele vilarejo.

  • Muitas meninas, por casarem-se cedo, também sofrem ruptura dos orgãos internos provocada pela relação sexual e morrem devido a hemorragia, este fato é diminuido entre os maridos, dizem que é uma normalidade e por conta disso não levam essas jovens ao hospital.
  • Quando as meninas vão ao hospital em trabalho de parto (se forem à um hospital), as enfermeiras precisam explicar à elas o que está acontecendo. Com 13 anos elas sabem que é um bebê? que uma criança está saindo delas? Nem todas.
  • O Islã não permite relações conjugais antes que a menina esteja fisicamente pronta, mas o Alcorão Sagrado não menciona nenhuma restrição de idade. E sabemos como a interpretação deste livro é subjetiva, varia de pessoa para pessoa.

– Rejane Leopoldino

Brasil e mulheres

Minha avó Arestides teve oito filhos durante os anos de 1930 e lá vai bolinha:
Augusto
Carlos
Maria
Lourdes
Amélia
Adenildo
Miriam
Eliane

Minha mãe Miriam teve dois filhos depois de 1970:
Wagner
Rejane

Wagner nasceu em 1976 e embora tenha sido casado por mais de vinte anos, não teve filhos, mas criou a irmã mais nova.

Rejane nasceu em 1998 e não pensa em ter filhos, ao menos por enquanto, e se tiver que seja apenas um, mas também pode ser um cachorro ou um gato.

Embora não seja um fenômeno exclusivo do Brasil, aqui o tamanho das famílias sofreu uma quedra brusca nas últimas cinco décadas. Famílias ricas, ou pobres que vivem na cidade ou no campo, a maioria delas parecem ter atualmente o consenso de que um ou dois filhos é o suficiente para a constituição de uma família. Cynthia Gorney, repórter da National Geographic que escreveu uma matéria sobre a queda da taxa de natalidade no Brasil, cita alguns fatores que podem ter infuênciado esta queda:
– Mulheres passaram a ter um papel mais expressivo na força de trabalho do país;
– Melhora no nível educacional dos jovens;
– Em 2011, quase 85% da população vivia em áreas urbanas, onde uma família menor é economicamente mais vantajosa;
– Acesso à energia elétrica e tecnologia. Em 1960 o acesso as telenovelas realmente produziram um efeito sobre a taxa de natalidade. No fim das contas, a frase que meu irmão mais velho dizia ouvir dos nossos avós maternos: “nós faziamos filhos porque no meu tempo não tinha televisão” parece ser verdadeira. Nas telenovelas, nove em cada dez personagens tem apenas um filho ou nenhum, o que pode ter influenciado as brasileiras a desejarem uma família menor.
– Também em 1960 as pílulas anticoncepcionais chegaram ao mercado.

Fatores todos estes que influenciaram as mulheres a se prepararem para um planejamento familiar antes de se construir uma família. Durante 1970 e 1980 quando o Brasil voltou a ter grande influência feminista, (depois do voto ter sido conquistado em 1932 durante do governo de Getúlio Vargas, embora somente em 1946 a obrigatoriedade tenha sido extendida para as mulheres) quando termos como o “machismo” passaram a ser frequentes no vocabulário, as mulheres já se encontravam mais cientes de como a violência familiar e doméstica não deveria ser uma realidade natural. Passaram então a assumir o controle da sua vida amorosa com mais poder de decisões na família do que antes.

O sonho de uma mulher no século XXI já não está mais ligado à constituição de uma família, essas mulheres almejam em primeiro lugar uma boa educação, em segundo lugar, idependência financeira e estabilidade profissional e em terceiro lugar uma relação amorosa e quem sabe, casamento. Não entendam mal, criar filhos não sumiu dos desejos modernos, contudo ainda há muitas dificuldades enfrentadas pelas mulheres que estão ativas no mercado de trabalho e desejam um filho, como por exemplo o fato de metade das mulheres grávidas serem demitidas na volta da licença maternidade.

Questões aquisitivas são determinantes para a decisão de se ter ou não filhos, e quantos filhos ter, afinal, quanto custa ter um filho? E não estou a falar apenas do dinheiro.

– Rejane Leopoldino

Referência: Gorney, Cynthia. “Elas têm a força.” National Geographic Brazil, 2011, p. 40+. National Geographic Virtual Libraryhttp://tinyurl.galegroup.com/tinyurl/6oTb39. Accessed 19 July 2019.