Chaos de la modernité e o amor líquido de Zygmunt Bauman, duas revelações em uma semana conturbada pelas relações sociais.

Refletindo sobre os acontecimentos dessa semana me dei conta de como a internet provoca um mal entendido nas relações sociais.

Comecei a me corresponder com uma colega francesa a pouco tempo pelo Instagram e conversamos frequentemente, porém houve um episódio essa semana que estamos chamando de “Chaos de la modernité ” (caos da modernidade).

Como eu disse, estamos nos correspondendo com frequência e alguns dos amigos dela apareceram para mim como sugestão de “Seguidores”. Inocentemente, eu entrei em um desses perfis do Instagram a fim de ver quem era essa pessoa que participava da vida social da minha colega francesa. Perfil público, olhei fotos, “Stories” e me dei conta de que era o namorado dela. Um belo casal, mas não curti nenhuma foto nem comecei a segui-lo pois seria muito deselegante da minha parte, principalmente por nem sequer conhecê-lo, sai do seu perfil e fui viver minha vida. Pois bem, no dia seguinte, enquanto conversava com essa minha colega ela me perguntou da onde eu conhecia o namorado dela. E eu fiquei intrigada com a pergunta: ora, não o conheço de lugar algum. Então ela me disse que enquanto estava mexendo no celular do seu companheiro observou que eu havia visualizado o Stories dele. Devo dizer que o clima de -essa brasileira está me seguindo e stalkeando todos da minha vida- foi bem tenso e desagradável. Eu não estava “stalkeando” foi uma coincidência moderna uma pessoa muito ligada a ela ter aparecido como sugestão de seguidor no meu perfil e eu olhado as suas fotos na inocência.

Após eu explicar toda a situação e deixá-la segura de que eu NÃO SOU nenhum tipo de psicopata que quer saber de toda a vida dela incluindo a do namorado e do papagaio, começamos a discutir sobre como essa situação moderna é frágil.

Zygmunt Bauman, autor do livro (e aqui deixo uma indicação de leitura) Amor Líquido, investiga de que forma nossas relações tornam-se cada vez mais “flexíveis”, gerando níveis de insegurança sempre maiores. Uma vez que damos prioridade a relacionamentos em “redes”, as quais podem ser tecidas ou desmanchadas com igual facilidade e frequentemente sem que isso envolva nenhum contato além do virtual, não sabemos mais manter laços a longo prazo.

Para Zygmunt, a modernidade líquida em que vivemos traz consigo uma fragilidade dos laços humanos a qual ele chama de “amor líquido”. A insegurança que estimula desejos conflitantes de estreitar e afrouxar laços. Esse livro busca esclarecer de que forma o homem “sem vínculos” se conecta com outros seres humanos.

Em seu primeiro capítulo ele discorre sobre o “apaixonar-se e desapaixonar-se” em meio a tanta fragilidade com que nos conectamos. E assim como Zygmunt fala sobre um trecho que Charles Baudelaire apresentou a seus leitores o Le spleen de Paris, eu o parafraseio:
Que pena. Não fosse por isso, eu gostaria de escrever esse mesmo preâmbulo, ou um parecido, sobre o texto que segue. Mas ele o escreveu e só me resta citá-lo.

O amor pode ser, e frequentemente é, tão atemorizante quanto a morte. Só que ele encobre essa verdade com a comoção do desejo e do excitamento. Faz sentido pensar na diferença entre amor e morte como na que existe entre atração e repulsa. Pensando bem, contudo, não se pode ter tanta certeza disso. As promessas do amor são, via de regra, menos ambíguas do que suas dádivas. Assim, a tentação de apaixonar-se é grande e poderosa, mas também o é a atração de escapar. E o fascínio da procura de uma rosa sem espinhos que nunca está muito longe, e é sempre difícil de resistir. – Zygmunt Bauman

Ele descreveu em poucas palavras como atualmente somos atraídos pelo desejo do que podemos ter sem a responsabilidade de manter. Sentimentos que corremos atrás para nos desfazer com facilidade quando convém ou o “cativar por divertimento”, como descrevemos eu e minha colega francesa na nossa conversa anterior.

Chegamos ao conceito de “cativar por divertimento” quando olhamos para as relações que são construídas por essa fina “Rede Social”. Nós temos a tendência de passar a melhor impressão de nós mesmos pois nossos defeitos estão resguardados por muros como distância, idioma, falta de familiarização, etc. Então acabamos por cativar naturalmente e sem esforço algumas pessoas com quem nos comunicamos, mas a falta da necessidade de manter a pessoa cativada após um período de tempo transforma essa relação em algo descartável, como se a facilidade de cativar alguém e se desapegar da mesma pessoa estivessem em pé de igualdade na mesma balança, como atitudes fáceis e sem valor emocional. O que uma vez estando na qualidade de cativar pessoalmente, não seria tão simples assim. Estar cara a cara com alguém, fisicamente, fora do mundo virtual é expor seus defeitos sem precisar dizer uma palavra sobre eles, o outro percebe, através da observação do comportamento tudo o que pode ser considerado um defeito. E é daí que surgem as inseguranças, e é por conta das inseguranças que acabamos preferindo nos relacionar através dessas “Redes Sociais” pois essas redes nos dão o anonymat des imperfections (anonimato das imperfeições como descreveu minha colega).

E não apenas isso, ao longo do livro são abordados outros tantos temas como a diferença do parentesco e a afinidade, dificuldade de socialização física e presencial, e relação de amar o próximo e o amor próprio e como nos é negada a dignidade de ser amado.

Amor Líquido é um livro atualizadíssimo e o melhor que li até agora neste ano.

Mas deixando um pouco o amor líquido de lado, eu e minha colega começamos a discutir sobre o anonimato moderno. Comentei com ela sobre a existência de algo na minha faculdade chamado “Spotted”. Spotted, caros leitores é o cúmulo do anonimato universitário. Trata-se de uma página no Facebook da minha faculdade onde, através de um formulário do Google Forms podemos mandar mensagens anônimas para qualquer aluno da Instituição. Qualquer. Aluno. O que mais sai são paqueras, “Fulana do bloco H do curso X, está solteira?” esse é o tipo de mensagem que mais se vê naquela página. Mas sempre tem mensagens carregadas de ódio e a faculdade inteira lê. Quantos casos houveram de pessoas que sofreram críticas e xingamentos anônimos pesados, pessoas que tiveram sua vida pessoal exposta e humilhada de forma agressiva e tiveram a sua vida social dentro do Campus prejudicada? Spoiler: várias. Todos os dias alguém é vítima do ódio anônimo virtual.

Algo similar a isso podemos encontrar no livro e filme “Com amor, Simon.” Onde a escola de um jovem adolescente adota o mesmo tipo de mecanismo de mensagens anônimas que a minha Instituição e a orientação sexual do protagonista é exposta contra a sua vontade.

Essa rede online anônima faz com que o seu usuário transforme a sua covardia em  uma falsa coragem e isso é o que mais temos experimentado nos últimos tempos, como eu disse acima, nossas inseguranças nos fazem perder a capacidade de se relacionar pessoalmente. Pois sejamos honestos, é preciso muita fibra hoje em dia para falar sobre o íntimo e pessoal ou então para tratar das desavenças um com o outro através do diálogo. Sentar frente a frente, falar abertamente, expor as cartas na mesa? É algo muito profundo e nos aconchegamos na segurança do anonimato para fazer críticas. Temos que sair dessa bolha mau inflada onde ficamos socados reprimindo nossas vozes por medo do que o outro tem a dizer. Quantas vezes você deixou algo mal resolvido com alguém por medo de expor seus sentimentos ou opiniões, por receio de expor seu lado da história ou ser mal compreendido? Imaginem só, se a minha colega francesa não tivesse me dado a oportunidade de explicar o mal entendido que ocorreu envolvendo o perfil do Instagram do seu namorado. Ela provavelmente teria parado de se corresponder comigo o que seria algo terrível, desconstruir uma boa relação por banalidades modernas e virtuais.

Algo mal interpretado, ouvido pela metade, fora de contexto, são inúmeras as situações que nos levam a uma interpretação equivocada. Temos o costume de nem dar a chance da réplica da outra parte. Aconteceu uma situação X. Eu entendi isso e ponto final. Não estou interessado em ouvir o que o outro tem a dizer pois formei a minha opinião com base em uma única versão da história. A minha versão. Mas isso não quer dizer que seja a versão certa.

A convicção de que nossas opiniões são toda a verdade, nada além da verdade e sobretudo a única verdade existente, assim como nossa crença de que as verdades dos outros, se diferentes da nossa, são “meras opiniões” é um obstáculo. – Zygmunt Bauman.

Por isso, defendo tanto a necessidade do diálogo claro e limpo. Tudo é muito subentendido quando falamos virtualmente o que nos causa frustrações e muitas vezes é comum resistirmos à conciliação para chegarmos a um acordo. Se não houver confronto, a verdade se esquece e paira no ar. É necessário debater a verdade.

– Rejane Leopoldino

9 comentários em “Chaos de la modernité e o amor líquido de Zygmunt Bauman, duas revelações em uma semana conturbada pelas relações sociais.”

  1. Há muito que se extrair do seu post, mas… Estou em férias.kkkk Não me contive, pq o assunto das relações sociais é um tema excitante, no sentido de que dá muito debate e trocas.
    1.Concordo completamente, que numa relação deve-se debater a verdade, sempre.
    2. Spotted, acho que a rede social mais conhecida surgiu daí. Pelo menos foi isso q percebi no filme.
    3. Não me surpreende essa modernidade, pq ela é, simplesmente, a realidade que existia antes das redes sociais. As redes vieram, em minha opinião, a acelerar e a facilitar o q já existia. Não sei se estou conseguindo me explicar.
    4. Nas redes só apresentam o seu lado positivo, mas na realidade acontece o mesmo.

    Ai, tinha mais que falar, mas não posso continuar…vou sair.kkkk

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  2. Ai, Rejane!

    Só um suspiro já diz muita coisa. Eu leio Bauman há anos e escrevo muito sobre isso.
    O mundo real já é bem triste, mas o virtual consegue superar. Sinto muito toda essa distância que o virtual cria nesse mundo de amores cada vez mais líquidos…
    Sinto falta disso e acho triste ver tanta fuga por essas redes:

    “Estar cara a cara com alguém, fisicamente, fora do mundo virtual é expor seus defeitos sem precisar dizer uma palavra sobre eles, o outro percebe, através da observação do comportamento tudo o que pode ser considerado um defeito. E é daí que surgem as inseguranças, e é por conta das inseguranças que acabamos preferindo nos relacionar através dessas “Redes Sociais” pois essas redes nos dão o anonymat des imperfections (anonimato das imperfeições como descreveu minha colega).”

    Beijos,
    G.

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      1. Compartilhei no facebook porque me tocou por motivos bem particulares. Reflexão incrível, disseste tudo o que eu tenho vontade de dizer e ainda não disse 😉 Luz sempre!

        Curtido por 1 pessoa

  3. Rejane,

    excelente post. Também gosto muito de Bauman. Nessa mesma linha, sugiro o livro “Da Leveza – Rumo a uma civilização sem peso”, de Gilles Lipovetsky. Além de um capítulo sobre relações familiares, de amor/amizade e de trabalho na era da liquidez, da leveza, o autor também tece várias reflexões sobre consumo, economia, design, arte, lifestyle, tecnologia. Ressalto, porém, que o livro não é crítico como o da Bauman…seria mais uma análise. Vale a pena, caso não conheça.

    Um beijo!

    Curtido por 1 pessoa

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