E pensar que não é apenas com Clarice.

Clarice saía do trabalho, sabem? Dia normal, vestes normais, vestido azul escuro na altura do joelho, recatado até, formal, como se diz, necessário vestir-se bem onde trabalha.

Pois então, saía do trabalho, ia à faculdade e não teve tempo de passar em casa para trocar de roupa, reunião do grupo de pesquisa logo cedo, não poderia se atrasar.

Chegava no metrô, estação próxima à sua casa, estação essa sendo uma das mais movimentadas do Centro de São Paulo. É necessário dizer que deve-se tomar muito cuidado no centro, principalmente na região da Sé, embora haja belos patrimônios histórico culturais, grandes arquiteturas e estabelecimentos de respeito, também há muita marginalidade.

Clarice chegava no metrô, havia chovido à alguns minutos atrás, descia a escadaria, muitos bêbados aglomerados dentro da estação para não pegarem chuva, gente mal encarada, gente essa que se aglomerava nos cantos e observava a todos no ambiente como quem procura uma vítima, gente a deitar no chão, a usar drogas. Clarice viu um grupo dividindo o que parecia ser uma seringa. Ambiente fedia a mijo, sensação de insegurança. Apertou um pouco mais a bolsa quando viu uma mulher aparentemente bêbada e desordenada olhar para ela de uma forma ameaçadora. Clarice apertou o passo e seguiu seu caminho, sabia que assim que passasse as catracas estaria mais segura, ou o que pode se chamar de segurança.

Clarice foi em direção às escadas rolantes, infelizmente havia um grupo de homens mal encarados ao lado das duas escadas, como se estivessem a cobrar pedágio pelo uso. Homens sujos, roupas rasgadas, desgranhados. Clarice pensou em contornar e ir pela escada fixa, mas a aglomeração de pessoas no horário de pico a empurrava para a escada rolante. Viu um dos homens que estava na escada rolante a observar, o temeu. Não quis ficar no lado direito da escada, do lado esquerdo poderia andar logo e fugir dos marginais, mas uma senhora de idade, coitada, parou do lado esquerdo um pouco mais à frente impossibilitando as pessoas de andarem. Ela com certeza não fez por mal.

Clarice percebeu assim que entrou na escada rolante um dos homens mal encarados se posicionar logo atrás dela. Sentiu um cheiro horrível, de sujeira, de mijo, álcool, imundice. Todos muito apertados na escada rolante, Clarice inclinava o máximo que podia para frente tentando não encostar nem um fio do seu cabelo no homem que estava atrás dela. Sentiu uma mão levantar a saia do seu vestido e tocar na sua coxa em meio a toda aquela aglomeração, olhou assustada para trás e viu aquele homem marginalizado a olhando com malícia, mostrando dentes podres e soltando um hálito morto em sua direção. Clarice empurrou a mão do homem e abriu caminho entre as pessoas paradas na escada rolante, desceu correndo, empurrando a todos, ouviu alguns xingamentos pela sua atitude.

Correu até as catracas, correu até a plataforma, quando entrou no vagão ficou inquieta, segurando um choro, sentia nojo, sentia-se suja, violada, agoniada, apodrecida, desvirtuada. Encolhia-se encostada nas portas em meio à multidão do vagão. Quando desceu da estação correu até sua faculdade, só conseguia correr para sair de toda aquela zona, desconforto, sufoco. Quando chegou, correu para o banheiro do prédio mais isolado do campus, não havia ninguém, fechou a porta e desabou no choro. Agoniada e desesperada subiu na pia do banheiro, levantou a saia do seu vestido e usou o sabão e a água para lavar sua coxa e suas pernas, sentia-se suja, imunda. Esfregava com força até a pele clara ficar vermelha, queria arrancar aquele pedaço de pele que fazia parte do seu corpo, tinha ódio do local que foi tocado sem consentimento. Odiava aquele pedaço de pele, odiava seu corpo. Ainda chorando desesperada lavava os pés, os braços, o pescoço, o rosto, lavava por inteira com força e não sentia-se limpa, nunca. Tinha raiva do vestido, queria rasgá-lo, incinerá-lo, apertava sua saia com ódio, infelizmente não poderia arrancá-lo do corpo. Tinha ódio do homem, queria cortar a mão dele, arrancá-la, desmembrá-la, dar aos cães mas sentia-se vulnerável, indefesa, pequena, minúscula e fraca.

– Rejane Leopoldino

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