Samantha

Os gritos da mãe da minha vizinha já haviam se tornado frequentes desde o fim do inverno quando sabe-se lá porquê ela casou-se com um homem mal encarado que cheirava sempre a muita bebida após ficar viúva do seu último marido. Eu estava na sala de estar com meu pai quando a ouvi gritar naquela noite, nos assustamos, ele lia o jornal e eu assistia a televisão, ele abaixou o jornal rapidamente quando o primeiro grito de dor ecoou e eu dei um salto do sofá, trocamos alguns olhares entre nós como quem pergunta em silêncio se iríamos fazer algo a respeito. Quando ameacei levantar-me para bater na porta do vizinho meu pai me dirigiu um -Senta!– como se eu fosse um cachorro que lhe devesse obediência. –Não vamos interferir na vida alheia. Não é da nossa conta- ele disse e voltou a ler seu o jornal. Suspirei e fui até a varanda a fim de poder ver o que se passava naquela casa. Olhei discretamente pela janela do quarto de casal dos meus vizinhos. Me arrependi no mesmo instante, aquele homem apertava os braços de sua mulher e a chacoalhava com força enquanto gritava -Vagabunda!- em seus ouvidos e ela com medo juntava as mãos em frente ao corpo se encolhendo em si mesma. Um outro barulho chamou minha atenção, o som de um molho de chaves. Olhei para o portão da casa ao lado e vi a filha da minha vizinha -Samantha- entrando. Antes de fechar o portão a vi soltando um suspiro pesado, suspiro de quem sabia o que estava acontecendo com sua mãe dentro de casa. Ela ergueu a cabeça olhando para as estrelas no céu como quem buscava alguma fuga, e não achando nenhuma, fechou os olhos e bateu a porta com força fazendo um barulho proposital para anunciar sua chegada. Samantha e eu nos conhecíamos do bairro, era minha amiga, passeávamos de bicicleta junto aos nossos colegas aos fins de semana. Jovem muito quieta, acanhada, riso fácil porém fraco. Eu que estava na varanda da minha residência a assisti se dirigindo para dentro de sua casa em meio a toda aquela gritaria. Será que ela não estava ouvindo o mesmo que eu? Tentei chamar sua atenção. –Samantha! – gritei da varanda com uma voz abafada tentando não fazer escândalo. Ela parou no meio do caminho e olhou para cima em minha direção. –Não entre!- supliquei. Ela se esforçou para esboçar-me um sorriso, levantou sua mão e colocou o dedo indicador nos lábios pedindo silêncio ou que eu guardasse segredo sobre o que estava acontecendo e com uma expressão cansada deu-me as costas e entrou.

– Rejane Leopoldino

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