Miriam – Mãe.

Acredito que como filhos olhamos para as nossas Mães com um carinho fodido. E aqui eu não crio regra, Mãe não é só quem dá a luz, em muitas famílias é o pai, os tios, os avós… Na minha família foi assim, depois da morte da minha quem vestiu a saia e me criou desde os 6 anos foi meu irmão mais velho que assumiu todas as responsabilidades de uma Mãe para com uma criança. Então, só porque recebi a visita de uma joaninha, este texto será sobre Mães (em especial a minha porque cara, minha Mãe era foda, no melhor dos sentidos, e é muito difícil para mim escrever sobre ela.)


Meu irmão veio primeiro para esse mundo e eu fui fruto de um segundo casamento de Mamãe, tem uma foto muito bonita dela ainda grávida de mim, barrigão, com o umbigo de fora e atrás dela tinha o terreno onde ela estava construindo com as próprias mãos a nossa casa durante a gestação.

Minha Mãe era aquela mulher que botava todo mundo para correr, vestia as calças, batia no peito e falava “Eu vou fazer esta merda”. Ela trabalhava pra caralho para poder me dar tudo, administrava o próprio salão de beleza, fazia seus artesanatos e ainda arrumava tempo para cuidar do lar e me ajudar com as lições de casa enquanto o meu pai era um encostado ou “embuste” como diriam atualmente, “homem” que nunca colocou um leite na mesa. Cara, minha Mãe era foda, uma Mulher “da porra”.

Ela gostava de uma cerveja e um cigarro, todo mundo tem seus vícios. Eu odiava o cheiro e escondia o cigarro dela pela casa, de baixo do sofá, no quintal, dentro da parede… Tem uma foto ótima onde nós duas estamos sentadas em uma mesa de madeira que ficava no quintal, ela segurando um cigarro em uma mão e na outra um copo de cerveja enquanto ta rindo da minha cara emburrada por ela estar fumando.

Mas minha Mãe também era bruta, pensa em uma Mulher nervosa, cruzes. Eu apanhava para um caralho antes mesmo de aprontar alguma coisa, tudo perto dela virava artilharia, aquela Mulher já me bateu com vassoura, com colher de pau, escumadeira, os clássicos cinto e chinelo, até com cabo de energia eu já apanhei. Ela também não levava desaforo para casa, se peitasse minha Mãe ela brigava no meio da rua mesmo, Mulher bem porra louca.

Mas houve uma noite em que eu estava brincando no quintal e ouvi uma gritaria vindo de dentro da casa, entrei correndo e foi então que eu vi meu pai (e não sei o que o motivou a cometer tal ato) batendo e tentando asfixiar minha Mãe no chão na cozinha, montado em cima dela com as mãos em seu pescoço. Eu desesperada tentava apartar a briga, joguei alguns objetos no chão a fim de chamar sua atenção, acho que eram pratos, não me lembro, mas ele não se afastava. Foi então que me meti entre eles, só quando o puxei pelo pulso (com a ridícula força de uma criança) tentando tirar suas mãos do pescoço dela foi que ele parou. Largou eu e minha Mãe no chão da cozinha, cuspiu algumas palavras que não me lembro e saiu de casa com ódio nos olhos. Foi a última vez em que o vi e a primeira vez que eu soube o que era violência doméstica e abandono paternal.

Minha Mãe se ergueu, limpou o rosto, me pegou no colo e disse que “aquele não homem não entra mais aqui”. Chamou meu irmão mais velho e ele deixou a casa onde morava com a namorada para cuidar de nós duas. Minhã Mãe se livrou de tudo o que pertencia ao meu “pai”, deu fim, jogou no cú do mundo. Ela mudou tudo em volta dela. Com a ajuda do meu irmão ela trocou a fechadura, reformou a casa, começou um tratamento pra parar de fumar, fez tudo o que estava ao seu alcance, mudou radicalmente as nossas vidas. Um mês depois ela foi encontrada morta perto de um córrego. Dessa vez quem me pegou no colo foi meu irmão, me afastou daquele lugar, das pessoas tóxicas que nos cercavam e me deu uma nova vida mesmo cheio de defeitos e sem saber como criar uma criança. A partir daí foi ele quem vestiu a saia de Mãe.

A palavra Mãe diz muita coisa e para mim não há palavra mais bonita do que essa. Mãe é quem cuida, é quem bate no peito, quem enfrenta o mundo quando você não pode fazer isso por você mesmo. Mãe é mandar todo mundo para a casa do caralho quando precisa pensar no pequeno(a) em primeiro lugar. Eu tenho certeza que vocês também tem uma pessoa muito foda e guerreira na vida a quem podem chamar de Mãe. Seja o pai, os tios, os avós, os irmãos ou ainda alguém que não tem laço sanguíneo nenhum, mas te acolheu e te criou com muito amor e carinho e fez tudo por você.

Ah sim, estava me esquecendo de explicar a relação da joaninha com esse texto. Pois é, recebi a visita de uma joaninha o que é bem raro tendo em vista que estou no centro de São Paulo e não há muita natureza por aqui. A lembrança mais feliz que eu tenho da minha Mãe é de um dia de manhã quando fomos até o quintal e ele era cheio de plantas, tínhamos até uma horta de alface e em um cantinho havia um ninho cheio de joaninhas, a gente sentou na grama e ficamos brincando com elas, ela pegava as joaninhas e colocava na minha mão, eu ainda com muito medo ficava apavorada com aquelas bolinhas vermelhas andando em mim e ela se divertia muito com o meu pavor, até que eu peguei carinho por elas e não queria sair mais de lá. As memórias de uma criança são muito bagunçadas, mas acredito que essa lembrança tenha sido de poucos dias antes da sua morte.

– Rejane Leopoldino

 

6 comentários em “Miriam – Mãe.”

  1. Rejane,

    Gostei da sua definição de quem é “Mãe”, e fez-me lembrar a mística medieval, Juliana de Norwich (1342-1416), que, no seu livro, Revelações do Amor Divino, deu o apelido de “Mãe” a Deus, para explicar precisamente as qualidades femininas que também os homens podem (e devem ter dentro de si).

    Mãe: “Seja o pai, os tios, os avós, os irmãos ou ainda alguém que não tem laço sanguíneo nenhum, mas te acolheu e te criou com muito amor e carinho e fez tudo por você.”

    Obridago pela coragem na escrita e por lembrar-nos das pessoas que são “mães” nas nossas vidas.

    Abraço maternal,

    Emanuel

    Curtido por 1 pessoa

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