Carne quente e pele vermelha

Você não devia ter me batido no nosso próprio quarto
Passei a não sentir-me segura na cama onde dormíamos.
Passei a temer entrar em casa
E quando entrava sentia-me reprimida e sufocada
O casamento tornou-se um ar denso
Difícil de se respirar

Relutei em deitar-me contigo
Adquiri horror daquele colchão
Eu fugia para a sala
Deitava no sofá
Sentia-me segura longe de você
E com o cachorro ao meu lado

Mas você sentiu minha falta na cama
E foi buscar-me na sala
Me pegou pelos pulsos
Me arrastou para o quarto
Enquanto eu chorando pedia que não fizesse isso
Pedia que me deixasse sozinha
Você dizia que eu era sua mulher
E que aquela cama era o meu lugar
Eu freava com os pés enquanto você me arrastava
Eu tentava me soltar das suas mãos

Segurava nas quinas das paredes e no corrimão da escada
Nosso cachorro começava a rosnar para você
O pobre cão tentou me defender da sua violência
Mas você o via como uma criatura inferior e fraca
Assim como via a mim
Quando ele avançou para te morder
Você o chutou com força para longe
O cachorro encolheu-se em um canto
Chorando de dor
E logo eu seria a próxima

Você conseguia me arrastar para o quarto
Entre tapas que me humilhavam
Me jogou para dentro e trancou a porta
Eu fugia da cama, me escorava na parede
Pedindo para que por favor você não me deitasse lá
Que eu não queria
E que me deixasse sozinha

Mas para você eu era sua “mulher”
E te devia presença
Você me pegou do chão e jogou na cama
Dizia que acabaria logo se eu parasse de chorar
E que eu iria até gostar de ser “mulher” novamente

Se jogou em cima de mim
Mesmo eu pedindo para você parar
Usava sua força para me segurar
E a essa altura eu já estava muito fraca
exausta de tentar lutar contra quem devia ser meu marido

Eu chorava com força enquanto você me virava de costas
Levantava minha saia e afastava minha calcinha
O bastante para ter acesso a mim
Me prendia com suas pernas embaixo de ti
Desisti de lutar quando ouvi seu zíper abrir

Você passou a mão pela minha vagina
Eu não estava molhada para você
Disse que eu era inútil desse jeito
Então cuspiu na minha intimidade
Me violou como mulher e como esposa

E enquanto metia-se em mim
Perguntava se eu estava gostando
Meu choro e lágrimas não te davam a resposta
Não a que você queria ouvir

Você gozou em cinco minutos
Porque gostou da submissão
Da humilhação
Me abandonou na cama
E ofegante se afastou de mim

Porque Mulher para você é isso
Carne quente e pele vermelha


 Infelizmente eu tenho uma mente cruel demais, muito soturna que não me deixa em paz  e me atormenta até que eu escreva sobre o que me causa angústia e medo. Eu tenho medo que uma cena como essa ocorra comigo, com você, com ela, com quem seja da mesma forma que ocorre com milhares de mulheres. 

– Rejane Leopoldino

 

 

 

3 comentários em “Carne quente e pele vermelha”

    1. Mariel!
      Pois então, há sempre um “Q” de verdade em tudo o que escrevo, eu diria que 60% deste poema é fruto de experiências passadas que presenciei e vivi, os outros 40% podem não ser realidade para mim mas é (foi) realidade para algumas mulheres à minha volta. De toda forma, eu gostaria que tudo isso não passasse de uma fantasiosa ficção para várias mulheres.
      Forte Abraço!!

      Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s