São muitas respostas para uma única pergunta e Amélia é uma paciente difícil.

Amélia acordou cedo, às 05:30 da manhã ela já havia tomado banho, vestido seu roupão branco, preparado o chá matinal de hortelã e sentado na cadeira de sua escrivaninha em uma infeliz segunda-feira nublada. Ela abre o notebook e fita os seus livros salvos em documentos do Word. Amélia já está mais do que aflita, quatro obras inacabadas e sem a menor previsão de serem concluídas. Pega a xícara, assopra a água quente do chá e dá um gole. Por que não conclui as obras? Não é falta de tempo, disso ela tem certeza, pois dedica-se todas as manhãs à acordar cedo para escrever, contudo, há uma enorme área cinzenta entre acordar para escrever e escrever de fato. Amélia abre um dos arquivos do word, seu primeiro e mais antigo livro está com 127 páginas, quase concluído, o segundo, 43 páginas, o terceiro, 86 páginas, já o quarto, apenas 22. Ela se descontenta com seus livros dia sim dia não, por diversas vezes já chegou a deletar todos eles antes de dormir, mas acordava no meio da madrugada para recuperá-los da lixeira eletrônica. Madrugadas estas em que não voltava a dormir, ficava acordada até nascer os primeiros raios de sol tentando ao máximo dedicar-se à escrever uma linha que fosse, contanto que fosse uma boa linha.

Conversa com o terapeuta, na mesma segunda-feira, algumas horas mais tarde:

“Por que não conclui ao menos um, Amélia?” – pergunta seu terapeuta cruzando as mãos em cima do colo.
Amélia pensa um pouco, suspira pesado se ajeitando na poltrona, começa a morder os lábios inferiores até deixá-los vermelhos. “Não me acho uma escritora boa o suficiente, não acho os livros bons o suficiente.”
O terapeuta descruza as mãos e apoia o cotovelo direito na braçadeira da poltrona, levando a mão ao queixo. “E o que é o suficiente para você?
Amélia não precisou sequer pensar para dar a resposta, na verdade, ela se surpreendeu pelo seu terapeuta ter feito esta pergunta, pois achava a resposta óbvia demais. “Nada menos do que perfeito, que cause espanto, que prenda o leitor, que o faça ler e reler os livros, devorá-los, e se não for pedir muito, que seja considerado um marco da época.” 
O terapeuta não conseguiu esconder o ar de espanto na sua expressão “Não acha que está se cobrando demais?”
Amélia sentiu como se a pergunta fosse um soco na boca do estômago, aliás, um soco teria ferido menos seu ego. “De forma alguma! se eu já não me encanto mais com o que escrevo, como outros vão se encantar?”
O terapeuta raciocinou por alguns segundos, arrumou a armação do óculos e respondeu: “Vamos utilizar uma analogia: depois de alguns anos em um relacionamento, é perfeitamente natural que aos poucos se perca o brilho do primeiro encontro, o fascínio em desbravar outro alguém, sejam seus sentimentos ou seu corpo, esse fascínio se esvai, mas isso não quer dizer que a pessoa se tornou menos interessante, quer dizer apenas que já a conhecemos o suficiente para não nos impressionarmos com facilidade, contudo, essa pessoa será sempre mais interessante para alguém que ainda não a conheça. O mesmo vale para seus livros, não acha? Você pode não estar mais impressionada, mas isso não quer dizer que eles não sejam impressionantes para outros leitores, apenas que você perdeu o fascínio por eles.”
“E o que você sugere que eu faça? Procure algo que ainda me interesse neles?” Amélia respondia debochada, duvidando da capacidade do seu terapeuta em oferecer uma solução.
“Fortaleça o seu relacionamento com seu livro mais antigo, procure pelo o que te motivou a escrevê-lo. Já chega de arranjar amantes, você está namorando um e se relacionando com outros três.” o terapeuta se referia aos outros três livros inacabados que Amélia havia começado antes de terminar o primeiro.
“É pra isso que estou pagando esta hora?”

– Rejane Leopoldino

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