A romantização de relacionamentos abusivos em filmes

Existe na literatura sobre violência contra a mulher algo chamado violência objetiva e violência subjetiva...

A violência objetiva é aquela em que o ato final é agredir fisicamente. A violência subjetiva por outro lado, é a chantagem emocional, a ameaça, a violência psicológica, a perseguição, o desrespeito, a manipulação emocional para tentar obter algo, é o bater nos móveis para te assustar ou arremessar coisas na sua direção e demais agressões silenciosas. Em suma, violência subjetiva é o que nos acostumamos a chamar de relacionamento abusivo.

Essa distinção é crucial porque algumas mulheres podem estar em um relacionamento que embora não seja fisicamente violento (violência objetiva), pode ser um relacionamento abusivo, onde existe uma violência subjetiva e sequer se darem conta disso.

A grande questão é que não somos ensinadas a identificar relacionamentos abusivos repletos de violências subjetivas, muito pelo contrário, as mulheres aprendem desde crianças a romantizar comportamentos abusivos em relacionamentos afetivos.

Quando crianças achamos lindo o filme A Bela e a Fera, mas ignoramos a forma que a personagem da Bela é inserida na história na condição do que eu gosto de chamar de centro de reabilitação, digo isso porque no filme ela é apresentada como a única que pode consertar, corrigir o mau comportamento e mudar a fera através do seu amor incondicional, ela é a mulher que vai ensiná-lo a amar e que irá quebrar o feitiço com o seu amor e salvar todos, fazendo o papel de um centro de reabilitação para homens mau comportados.

Se prestarmos atenção, o filme mostra diversos traços de comportamentos abusivos por parte da Fera, como a sua volatilidade e temperamento imprevisível. Alguns exemplos: 

  • Ele grita para tentar intimidar a Bela, bate nos móveis e destrói objetos.
  • Não assume a responsabilidade pelo próprio temperamento explosivo e diz que se ele está sendo grosseiro e violento é porque a Bela não faz o que ele manda.  
  • Ele é controlador e controla onde ela pode ir e quando pode comer, como quando ele diz: “se ela não comer comigo, ela não vai comer nada!” logo no começo do filme.
  • Ele a ameaça e a intimida: ele ameaça quebrar a porta do quarto dela caso ela não o obedeça e desça para jantar com ele. Em outra cena ele quebra vários móveis ao redor dela como se estivesse dizendo: “olha como eu estou com raiva, incontrolável e furioso, saia de perto de mim porquê a próxima coisa em que eu bater pode ser você”.
  • E por último, mas não menos importante: ela é prisioneira dele quase o filme inteiro, inclusive na cena em que eles estão dançando no salão ela ainda é prisioneira. Ele só foi libertá-la pouco depois da dança e a primeira coisa que a personagem fez foi ir atrás do pai (que a Fera a impedia de ver).

A mesma receita é repetida em filmes adolescentes como a saga Crepúsculo. Tirando a parte do cárcere privado, os ingredientes são os mesmos:
Uma fera se apaixona por uma humana disposta a mudá-lo através do amor, novamente servindo de centro de reabilitação, destinada a transformá-lo e tirar o melhor dele, e ele está disposto a deixar de ser um monstro por ela, mas luta constantemente contra a sua própria vontade de matá-la a todo momento.

Depois de adultas continuamos a ser bombardeadas com essa receita desastrosa de bolo, dessa vez filmes mais adultos como 365 Dias trazem os mesmos ingredientes dos outros dois filmes que citei anteriormente (e dessa vez com sequestro além de cárcere privado).

O ponto que estou querendo chegar é que da infância, passando pela adolescência até a idade adulta, mulheres são bombardeadas com essa receita romantizada de um relacionamento abusivo.

Como consequência desenvolvemos uma tolerância a esses desvios de comportamento que a longo prazo torna difícil identificar e reconhecer comportamentos abusivos dentro dos nossos próprios relacionamentos, já que aprendemos a enxergá-los como se fossem comportamentos naturais dos homens, algo a se esperar dentro de um namoro, e assumimos a responsabilidade de ser aquela que vai transformar o homem e ajudá-lo a amadurecer, nos vemos na posição de aturar tudo e qualquer coisa por amor. Queremos ser a Bela que salva a Fera.

Claro, os filmes não são os principais, – nem únicos – vilões dessa história, mas durante a infância e adolescência a mídia possui um papel crucial na formação dos nossos ideais, tudo absorvemos através dela e parte do padrão de comportamento que moldamos para nós durante a infância e adolescência é decorrente do que observamos e assistimos já que estamos assimilando essas informações constantemente de forma acelerada. Depois de adultos reforçamos ou redefinimos o que construímos até então, e ter filmes adultos reforçando padrões de comportamentos abusivos apenas faz o desserviço de naturalizar relacionamentos que não são saudáveis.

-Rejane Leopoldino

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