Por que algumas mulheres permanecem em relacionamentos abusivos?

Não é somente uma questão financeira ou de dependência emocional.

Parte da decisão de sair de um relacionamento é baseada no sistema de prós e contras. Algumas pessoas quando estão medindo de deveriam ou não terminar a relação fazem listas pegando uma folha e dividindo ao meio com um risco. Do lado esquerdo, os prós de permanecer, do lado direito, os contras, o lado que tiver mais itens será o escolhido.

Pense que para algumas mulheres os prós (ainda que sejam poucos) de permanecer com um parceiro abusivo e violento podem sobressair os contras (mesmo quando esta lista é grande). Isso porquê quando há muitos contras é um indicativo de que realmente deveríamos ir embora, e terminar um relacionamento demanda ação e atitude que saem da zona de conforto e nos obriga a racionalizar o que seria o melhor para nós.

Quando começamos a racionalizar os motivos que deveríamos sair do relacionamento duas coisas acontecem que retardam e tornam mais difícil tomar a decisão de ir embora.

Primeira: começamos a mensurar qual seria o menor bem possível que eu poderia alcançar dentro do maior mal (problema) existente na minha relação? Isso seria o mesmo que ter muitas esperanças de melhora ou se agarrar às migalhas.

Considere o exemplo a seguir: “Ah, ele bebe muito e a gente briga constantemente por causa disso, mas veja bem, ele bebe, mas pelo menos não é todo dia”. Nesse exemplo o maior mal existente (problema) é a bebida excessiva e o menor bem possível que foi possível obter dentro dessa realidade, é ele não beber todos os dias, embora continue bebendo muito. É esse menor bem possível que permite muitos de nós continuar tendo esperanças de que eventualmente essa pessoa vá parar de beber.

Segunda: iniciamos um processo de neutralização. Neutralizações são tentativas constantes de tornar compreensível ou justificável alguns maus comportamentos, isto é, neutralizar e diminuir a gravidade ou os impactos negativos de algumas ações do nosso parceiro.

As categorias de neutralização são empregadas em diversas áreas de pesquisas, mas Kathleen J. Ferraro trouxe elas para o estudo de violência contra a mulher de forma muito bem elaborada. As categorias de Neutralização são:

1) A ética da aparente salvação que como o próprio nome já diz um bocado, considera que as mulheres condicionam a sua permanência no relacionamento quando se agarram à possibilidade de que seus maridos podem ser curados ou salvos daquilo que os faz serem abusivos ou violentos. 

2) A negação da vítima que é quando as vítimas acreditam que os fatores que levam seus parceiros a serem violentos ou abusivos estão além do controle deles, elas passam a negar a intenção de seus parceiros de machucá-las e assim iniciam um processo de conformismo e negacionismo com episódios violentos dentro da relação.

3) A Negação da lesão e neste caso as mulheres reconhecem que estão machucadas, elas sentem a dor, mas consideram a dor tolerável, mulheres que estão sendo espancadas são capazes de tolerar muitas agressões físicas antes de considerá-las uma lesão grave, normalmente apenas consideram uma lesão grave quando são hospitalizadas.

É difícil para a mulher que está sendo espancada definir o que é uma lesão grave, e o que a diferencia de todas as anteriores que ela sofreu, quando ela começa a ficar condicionada a suportá-las e tolerá-las ao longo do relacionamento.

4) Negação da vitimização: algumas mulheres não se veem como vítimas de violência. Geralmente porque acreditam que fizeram alguma coisa para merecer a agressão ou que se elas tivessem oferecido menos resistência às demandas do parceiro e tivessem sido mais passivas, seus maridos/namorados não teriam sido violentos. Outras vezes por terem participação nas agressões ou seja, em casos de violência mútua.

5) A negação de opções: Algumas mulheres querem deixar seus parceiros, mas não encontram opções para tornar essa decisão viável e poder garantir sua renda, sua moradia ou a educação dos filhos. É o aluguel que a vítima não conseguiria bancar sozinha, a mobília que precisaria ser comprada novamente, é o medo de envolver a família na separação, pois, contar sobre os abusos e agressões para a família pode gerar diversos efeitos, entre eles os pais ou amigos buscarem tirar satisfações com o agressor, ou então a família questionar a sua versão da história, no geral, para mulheres nessas situações permanecer no relacionamento parece uma opção menos pior do que precisar lidar com o estresse da separação, então ainda que essa mulher possua opções disponíveis, ela as nega.

6) O apelo a lealdades mais altas: Você já se encontrou se mantendo em uma situação desagradável pelo bem de algo ou alguém? Então, esse é o caso de muitas mulheres que possuem filhos com o agressor e não querem que a criança cresça com a ausência do pai, ou, por motivos tradicionais ou religiosos, abominam a ideia de divórcio. Essa mulher permanece na relação para se manter leal a algum compromisso que ela considera ser maior do que ela mesma ou a sua necessidade de terminar o relacionamento com o agressor.

A neutralização é uma armadilha, nos faz ter muita esperança, não acreditar no que os olhos veem, se apegar a algo e deixar o próprio bem-estar em segundo plano além de nos deixar em um constante estado de negação.

Dinheiro e dependência emocional não são os únicos motivos para mulheres não abandonarem seus agressores. Tudo começa na tomada de decisão sobre ir ou não embora e o que a vítima está levando em consideração durante esse processo. Quais os prós e os contras? Do que a vítima vai precisar abrir mão, o que ela vai precisar enfrentar, qual será a resposta da família, é uma decisão que vai contra seus princípios e expectativas do que é um casamento? Como ficam os filhos? Será que a relação merece uma segunda chance? E devo dizer, diversas vezes essas chances são dadas. Mais de uma. As neutralizações colaboram para isso e ajudam a perpetuar um ciclo de violência que parece não ter fim.

Esse texto é um olhar de outra perspectiva sobre os motivos para algumas mulheres continuar com seus agressores.

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