E ela foi essa mulher.

Maria, entenda que como mulheres precisamos assumir uma postura firme, não apenas para sermos devidamente respeitadas e valorizadas nesta terra moribunda, não, definitivamente não apenas, mas para estarmos à frente da família quando os homens fraquejarem diante dos próprios demônios. -disse enquanto trançava o cabelo da filha- Eu como mulher sempre precisei durante toda a minha vida engolir comentários sexistas, reafirmar meus valores, minha inteligência e meus ideais perante a sociedade para conseguir o mínimo de respeito, isso me fez uma mulher forte, independente e que não teme os desaforos dessa vida. Mas veja, seu pai nunca precisou engolir estes desaforos, ele cresceu na sombra do próprio pai e em seu convívio social bastava ter um pênis no meio das pernas para conseguir respeito. Quando eu conheci seu pai, ah… ele era tímido, medroso e acanhado, mas sempre teve bom coração. -terminou a trança e fitou os olhos de sua filha pelo reflexo do espelho- Foi após o casamento que eu percebi que ele precisava de uma presença feminina ao seu lado, uma presença que lhe desse forças e mostrasse como bater de frente com a vida, que lhe mostrasse como se reerguer, ter resiliência e levantar a própria voz. Se hoje seu pai é visto como um grande homem é porquê eu estive ao lado dele desde então.

– Rejane Leopoldino

Ser “Alguém” – Crescer e aparecer ou pegue um peixe e o force a subir em uma árvore.

Você está inquieta hoje, o que passa? – perguntou Juan cochichando colocando seus cadernos sobre a mesa da biblioteca, sentando-se ao meu lado após observar minhas pernas que não paravam de balançar e meus dedos fazendo malabares com a caneta. –Estou revoltada, Juan. Revoltada com as injustiça da vida, da sociedade, será que só eu as vejo? – Me debrucei na mesa da biblioteca apoiando meu queixo em cima do livro “O Ócio Criativo” de Domênico De Masi, continuei: olhe para nós, Juan. Estamos bem, não? 20 anos, vida sexual ativa, bebemos quando queremos, transamos quando podemos, somos universitários vindo à biblioteca estudar para as provas… -Falando em provas – Juan me interrompeu -Você teria aí algum resumo de finanças? -Xiu! Não me interrompa!- eu disse um pouco alto demais para uma biblioteca, a bibliotecária me olhou com ar de reprovação por cima dos seus óculos de grau retangulares. –Desculpa…- disse Juan abrindo seus livros na mesa -Enfim, como eu estava dizendo, estamos bem, não? Aparentemente está tudo ótimo, mas eu estava conversando com uma amiga, jovem, bonita, criativa, extremamente criativa, 20 anos e ela me disse que por vezes se sentia fracassada. Veja só, fracassada com 20 anos. Tem tanto jovem foda, Juan, jovens fodas que estão deixando seus talentos de lado para poder se encaixar em um cubo pequeno e mal projetado chamado “ser adulto”. É uma pressão tão grande para se encaixar e ser visto como “Alguém” na sociedade que os jovens estão deixando seus sonhos morrerem apenas para se tornarem operários dessa cidade, sentem-se fracassados por não atenderem às expectativas dessa vida urbana. Tanto potencial, Juan, potencial jogado no lixo. Pegue um jovem cheio de sonhos, coloque-o na sociedade, em dois dias ele sofrerá com a pressão de concluir uma faculdade, arrumar um trabalho que seja considerado por todos “decente”, se for mulher será pressionada a ser mãe. Ele sairá de lá retalhado, sonhos picotados, um desperdício! Ninguém nasce querendo ser advogado, sua faculdade e profissão é definida de acordo com sua classe social que determina se você poderá ou não ter estudo o bastante para entrar em uma faculdade pública como eu e você, ou ter dinheiro o bastante para pagar por uma.  Busca incansável pelo “Ser Alguém”. Sabe, não existe faculdade para alguns sonhos. Me diga, Juan, o dia em que eu me rebelar, o dia em que eu sair por aí sem estabilidade e segurança financeira, só com o meu mochilão, um caderno e uma caneta, o dia em que eu não quiser ter filhos e desejar viver no meio do mato, viajando o mundo do jeito que der, fazendo trabalho voluntário ou pedindo hospedagem em vilas caiçaras, só escrevendo sobre os lugares que visitei. Juan, quando esse dia chegar, você ainda irá me considerar “Alguém”? – perguntei por fim. -Você sempre será “Alguém” para mim, minha amiga, aliás, você só precisa ser alguém para as pessoas certas, as outras ainda não te conhecem.- disse ele

– Rejane Leopoldino

Conscience

Sentei com Conscience no 89º Coffee Station. Eu pedi um café, ela nada. Ela me observava despejar um sachê de açúcar no café. Levei a xícara à boca. Não estava doce o suficiente e despejei outro sachê de açúcar na bebida. –Tem ido ao psiquiatra?- ela perguntou, evitei a pergunta e comecei a rasgar em pedacinhos os papéis dos sachês, dei outra golada no café e ela me viu levantando a mão para alcançar mais um pouco de açúcar. Segurou minha mão no ar. -Acho que já está bom de açúcar.- ela disse –O café não adoça.– Eu rebati -Você que está muito amarga.– ela respondeu. Soltou minha mão e apoiou os cotovelos na mesa. Eu me inclinei para frente. -Sabe, Conscience, na semana passada me disseram que sou uma pessoa calma, livre de agitações…- eu disse -Bom, lamento informá-la mas quem te disse isso tirou uma conclusão muito precipitada. Você não é nem um pouco calma, pelo contrário, aí dentro...- apontou com o dedo indicador para a minha cabeça batendo na minha têmpora três vezes –Ah… aí dentro há um circo pegando fogo. Você é apenas contida e nenhuma palavra te definiria melhor: Contida.- Suspirei e me reclinei na cadeira da cafeteria. -Há algo que está te incomodando, querida?- Ela perguntou. -E por que então sou tão “contida”?- perguntei temendo a resposta. –Que pergunta mais retórica, criança. Você cresceu tendo como base o silêncio feminino induzido, quieta e muda como foi criada para ser, apenas agora está aprendendo a falar.- Olhei para Conscience. -Não acha que estou aprendendo a falar de uma forma muito violenta?– perguntei -Acho que você deveria aprender a falar mais com seus amigos e menos comigo.- ela disse. Fechei meus olhos e respirei bem fundo dando um outro gole no café. -Já está me expulsando? É melhor assim, criança, mas antes me responda: como andam suas alucinações?- Quando abri os olhos, Conscience já não estava mais lá.

– Rejane Leopoldino

Covardia – Sim, mana, ele é ridículo.

Eu esperava o elevador quando ouvi saindo de dentro dele a voz de um casal discutindo –Você está com ciúme por nada! Para com isso! – a moça dizia para ele já com a voz desgastada. O elevador chegou no andar, eles não sabiam que eu estava lá. -Quer que eu pare? Beleza então, eu vou parar. – disse com uma voz agressiva. Ele empurrou a porta do elevador com muita força e eu que estava do outro lado a segurei rapidamente por reflexo antes que me atingisse e fiquei a encará-lo como quem pergunta da onde vinha tanta agressividade com uma mulher, eu o vi apertando o braço da companheira como se fosse arrastá-la. Ele fez uma cara de espanto quando me viu. Eu não dava espaço para ele sair do elevador, segurava a porta enquanto meu corpo o impedia de passar. Minha expressão exigia uma explicação a respeito da atitude dele, com certeza dentro daquele transporte férreo ele tinha a ousadia, a coragem de ser altamente repugnante com a mulher que ele achava que tinha como propriedade, mas ao ser confrontado do lado de fora pela minha presença ele ficou miúdo, soltou o braço da moça, encolheu os ombros, a ousadia dele durou até a página dois quando viu que sua companheira não estava sozinha. Ele que antes gritava com ela no elevador, abaixou o tom de voz, abaixou a cabeça olhando para o chão e me pediu “com licença” quase aos sussurros para eu deixá-lo passar. Não me movi. Continuei a encara-lo por mais alguns segundos, primeiro porque ali eu iria ensiná-lo que ele não é o dono de ninguém, segundo que para passar por mim ele teria que abaixar MUITO a bola e ser trinta vezes mais educado do que estava sendo com sua companheira, e terceiro porquê fiquei parada na sua frente sem dizer uma palavra tempo o suficiente para mostrar a ele quem tem de verdade o controle daquela situação. Ele passaria se eu quisesse, não quando ele tivesse vontade, com a minha atitude de não deixá-lo passar eu quis tirar dele (sem dizer uma palavra sequer) a ilusão de controle que ele achava que tinha sobre a companheira, tirei dele a falsa sensação de poder. Quando cansei-me de ensinar bons modos para aquele ser humano ele já parecia um pênis que perdera a ereção, morto, pequeno e sem masculinidade. Dei um passo para trás quando ele entendeu o quão miserável era aos meus olhos e o deixei passar. A moça demorou um pouco mais para sair do elevador. –Desculpa por isso.- Ela disse -Ele é ridículo.– eu apenas concordei.


O nome disso é covardia. Vejam que foi só o meu vizinho ser encurralado por outra mulher (eu) que a masculinidade dele ficou do tamanho de um grão de bico. Talvez menor. Falo a verdade, a melhor expressão que o define naquele momento é a de um pênis sem ereção, pênis sem ereção e encolhido.

Juntem-se, manas. Coragem, não tenham medo, a violência doméstica é pura covardia.

– Rejane Leopoldino

 

 

A Boca Chama – já devem ter ouvido isso dos seus avós.

Quando digo que sinto medo da escrita ou que ela me apavora não me refiro apenas à imersão em si mesmo que torna-se consequência deste ato, me refiro ao medo do carma como uma causalidade que não pode ser evitada.

Escrever sobre relacionamentos abusivos – e quem sabe um dia me encontrar em um novamente.

Escrever sobre assédio – e ser assediada novamente.

Escrever sobre abandono paternal – e meu futuro marido acabar por fazer o mesmo que meu pai.

Escrever sobre violência doméstica – e meu futuro marido me agredir.

Escrever sobre abuso sexual – e quem sabe, no futuro, eu acabe por ser estuprada, mais uma, na longa lista de vítimas.

“A boca chama” e não consigo calar-me pois silenciar esses temas é omitir a história, não apenas minha, mas de muitas pessoas que passaram por isso ou outras situações, quem sabe, ainda piores. Não me considero uma pessoa corajosa por escrever sobre esses assuntos, na verdade, é com muito medo do carma e do que pode acontecer comigo e com aqueles a minha volta que abro o zíper da boca.

– Rejane Leopoldino

Miriam – Mãe.

Acredito que como filhos olhamos para as nossas Mães com um carinho fodido. E aqui eu não crio regra, Mãe não é só quem dá a luz, em muitas famílias é o pai, os tios, os avós… Na minha família foi assim, depois da morte da minha quem vestiu a saia e me criou desde os 6 anos foi meu irmão mais velho que assumiu todas as responsabilidades de uma Mãe para com uma criança. Então, só porque recebi a visita de uma joaninha, este texto será sobre Mães (em especial a minha porque cara, minha Mãe era foda, no melhor dos sentidos, e é muito difícil para mim escrever sobre ela.)


Meu irmão veio primeiro para esse mundo e eu fui fruto de um segundo casamento de Mamãe, tem uma foto muito bonita dela ainda grávida de mim, barrigão, com o umbigo de fora e atrás dela tinha o terreno onde ela estava construindo com as próprias mãos a nossa casa durante a gestação.

Minha Mãe era aquela mulher que botava todo mundo para correr, vestia as calças, batia no peito e falava “Eu vou fazer esta merda”. Ela trabalhava pra caralho para poder me dar tudo, administrava o próprio salão de beleza, fazia seus artesanatos e ainda arrumava tempo para cuidar do lar e me ajudar com as lições de casa enquanto o meu pai era um encostado ou “embuste” como diriam atualmente, “homem” que nunca colocou um leite na mesa. Cara, minha Mãe era foda, uma Mulher “da porra”.

Ela gostava de uma cerveja e um cigarro, todo mundo tem seus vícios. Eu odiava o cheiro e escondia o cigarro dela pela casa, de baixo do sofá, no quintal, dentro da parede… Tem uma foto ótima onde nós duas estamos sentadas em uma mesa de madeira que ficava no quintal, ela segurando um cigarro em uma mão e na outra um copo de cerveja enquanto ta rindo da minha cara emburrada por ela estar fumando.

Mas minha Mãe também era bruta, pensa em uma Mulher nervosa, cruzes. Eu apanhava para um caralho antes mesmo de aprontar alguma coisa, tudo perto dela virava artilharia, aquela Mulher já me bateu com vassoura, com colher de pau, escumadeira, os clássicos cinto e chinelo, até com cabo de energia eu já apanhei. Ela também não levava desaforo para casa, se peitasse minha Mãe ela brigava no meio da rua mesmo, Mulher bem porra louca.

Mas houve uma noite em que eu estava brincando no quintal e ouvi uma gritaria vindo de dentro da casa, entrei correndo e foi então que eu vi meu pai (e não sei o que o motivou a cometer tal ato) batendo e tentando asfixiar minha Mãe no chão na cozinha, montado em cima dela com as mãos em seu pescoço. Eu desesperada tentava apartar a briga, joguei alguns objetos no chão a fim de chamar sua atenção, acho que eram pratos, não me lembro, mas ele não se afastava. Foi então que me meti entre eles, só quando o puxei pelo pulso (com a ridícula força de uma criança) tentando tirar suas mãos do pescoço dela foi que ele parou. Largou eu e minha Mãe no chão da cozinha, cuspiu algumas palavras que não me lembro e saiu de casa com ódio nos olhos. Foi a última vez em que o vi e a primeira vez que eu soube o que era violência doméstica e abandono paternal.

Minha Mãe se ergueu, limpou o rosto, me pegou no colo e disse que “aquele não homem não entra mais aqui”. Chamou meu irmão mais velho e ele deixou a casa onde morava com a namorada para cuidar de nós duas. Minhã Mãe se livrou de tudo o que pertencia ao meu “pai”, deu fim, jogou no cú do mundo. Ela mudou tudo em volta dela. Com a ajuda do meu irmão ela trocou a fechadura, reformou a casa, começou um tratamento pra parar de fumar, fez tudo o que estava ao seu alcance, mudou radicalmente as nossas vidas. Um mês depois ela foi encontrada morta perto de um córrego. Dessa vez quem me pegou no colo foi meu irmão, me afastou daquele lugar, das pessoas tóxicas que nos cercavam e me deu uma nova vida mesmo cheio de defeitos e sem saber como criar uma criança. A partir daí foi ele quem vestiu a saia de Mãe.

A palavra Mãe diz muita coisa e para mim não há palavra mais bonita do que essa. Mãe é quem cuida, é quem bate no peito, quem enfrenta o mundo quando você não pode fazer isso por você mesmo. Mãe é mandar todo mundo para a casa do caralho quando precisa pensar no pequeno(a) em primeiro lugar. Eu tenho certeza que vocês também tem uma pessoa muito foda e guerreira na vida a quem podem chamar de Mãe. Seja o pai, os tios, os avós, os irmãos ou ainda alguém que não tem laço sanguíneo nenhum, mas te acolheu e te criou com muito amor e carinho e fez tudo por você.

Ah sim, estava me esquecendo de explicar a relação da joaninha com esse texto. Pois é, recebi a visita de uma joaninha o que é bem raro tendo em vista que estou no centro de São Paulo e não há muita natureza por aqui. A lembrança mais feliz que eu tenho da minha Mãe é de um dia de manhã quando fomos até o quintal e ele era cheio de plantas, tínhamos até uma horta de alface e em um cantinho havia um ninho cheio de joaninhas, a gente sentou na grama e ficamos brincando com elas, ela pegava as joaninhas e colocava na minha mão, eu ainda com muito medo ficava apavorada com aquelas bolinhas vermelhas andando em mim e ela se divertia muito com o meu pavor, até que eu peguei carinho por elas e não queria sair mais de lá. As memórias de uma criança são muito bagunçadas, mas acredito que essa lembrança tenha sido de poucos dias antes da sua morte.

– Rejane Leopoldino

 

Joaquim

Joaquim era filho da minha vizinha, criança de apenas 5 anos de idade. Ele costumava brincar na calçada da sua casa com os carrinhos de brinquedo enquanto a babá/empregada se distraía estendendo as roupas no varal.  Eu que sempre fiz da minha casa um escritório o via brincando da janela do meu quarto. Neste dia enquanto a babá estendia as roupas, um carro preto parou em frente à calçada onde Joaquim brincava e pela janela do meu quarto eu vi que se tratava de um homem grisalho usando óculos escuros, ele estendeu uma mão cheia de doces para Joaquim que estava sentado com seus carrinhos. Joaquim levantou, abandonou seus brinquedos e foi em direção ao homem. Lembro de ter conseguido ler os lábios do homem no carro, ele disse algo como “há mais doces aqui dentro”, Joaquim olhou com interesse para o banco de trás. “Pode entrar e pegar mais doces se quiser“. Joaquim entrou e o carro deu uma partida violenta queimando pneus. Tudo foi muito rápido, não tive tempo de reagir. De Joaquim sobrou apenas os carrinhos na calçada e a sensação de que sua infância havia sido violada.

– Rejane Leopoldino