Covardia – Sim, mana, ele é ridículo.

Eu esperava o elevador quando ouvi saindo de dentro dele a voz de um casal discutindo –Você está com ciúme por nada! Para com isso! – a moça dizia para ele já com a voz desgastada. O elevador chegou no andar, eles não sabiam que eu estava lá. -Quer que eu pare? Beleza então, eu vou parar. – disse com uma voz agressiva. Ele empurrou a porta do elevador com muita força e eu que estava do outro lado a segurei rapidamente por reflexo antes que me atingisse e fiquei a encará-lo como quem pergunta da onde vinha tanta agressividade com uma mulher, eu o vi apertando o braço da companheira como se fosse arrastá-la. Ele fez uma cara de espanto quando me viu. Eu não dava espaço para ele sair do elevador, segurava a porta enquanto meu corpo o impedia de passar. Minha expressão exigia uma explicação a respeito da atitude dele, com certeza dentro daquele transporte férreo ele tinha a ousadia, a coragem de ser altamente repugnante com a mulher que ele achava que tinha como propriedade, mas ao ser confrontado do lado de fora pela minha presença ele ficou miúdo, soltou o braço da moça, encolheu os ombros, a ousadia dele durou até a página dois quando viu que sua companheira não estava sozinha. Ele que antes gritava com ela no elevador, abaixou o tom de voz, abaixou a cabeça olhando para o chão e me pediu “com licença” quase aos sussurros para eu deixá-lo passar. Não me movi. Continuei a encara-lo por mais alguns segundos, primeiro porque ali eu iria ensiná-lo que ele não é o dono de ninguém, segundo que para passar por mim ele teria que abaixar MUITO a bola e ser trinta vezes mais educado do que estava sendo com sua companheira, e terceiro porquê fiquei parada na sua frente sem dizer uma palavra tempo o suficiente para mostrar a ele quem tem de verdade o controle daquela situação. Ele passaria se eu quisesse, não quando ele tivesse vontade, com a minha atitude de não deixá-lo passar eu quis tirar dele (sem dizer uma palavra sequer) a ilusão de controle que ele achava que tinha sobre a companheira, tirei dele a falsa sensação de poder. Quando cansei-me de ensinar bons modos para aquele ser humano ele já parecia um pênis que perdera a ereção, morto, pequeno e sem masculinidade. Dei um passo para trás quando ele entendeu o quão miserável era aos meus olhos e o deixei passar. A moça demorou um pouco mais para sair do elevador. –Desculpa por isso.- Ela disse -Ele é ridículo.– eu apenas concordei.


O nome disso é covardia. Vejam que foi só o meu vizinho ser encurralado por outra mulher (eu) que a masculinidade dele ficou do tamanho de um grão de bico. Talvez menor. Falo a verdade, a melhor expressão que o define naquele momento é a de um pênis sem ereção, pênis sem ereção e encolhido.

Juntem-se, manas. Coragem, não tenham medo, a violência doméstica é pura covardia.

– Rejane Leopoldino

 

 

A Boca Chama – já devem ter ouvido isso dos seus avós.

Quando digo que sinto medo da escrita ou que ela me apavora não me refiro apenas à imersão em si mesmo que torna-se consequência deste ato, me refiro ao medo do carma como uma causalidade que não pode ser evitada.

Escrever sobre relacionamentos abusivos – e quem sabe um dia me encontrar em um novamente.

Escrever sobre assédio – e ser assediada novamente.

Escrever sobre abandono paternal – e meu futuro marido acabar por fazer o mesmo que meu pai.

Escrever sobre violência doméstica – e meu futuro marido me agredir.

Escrever sobre abuso sexual – e quem sabe, no futuro, eu acabe por ser estuprada, mais uma, na longa lista de vítimas.

“A boca chama” e não consigo calar-me pois silenciar esses temas é omitir a história, não apenas minha, mas de muitas pessoas que passaram por isso ou outras situações, quem sabe, ainda piores. Não me considero uma pessoa corajosa por escrever sobre esses assuntos, na verdade, é com muito medo do carma e do que pode acontecer comigo e com aqueles a minha volta que abro o zíper da boca.

– Rejane Leopoldino

Miriam – Mãe.

Acredito que como filhos olhamos para as nossas Mães com um carinho fodido. E aqui eu não crio regra, Mãe não é só quem dá a luz, em muitas famílias é o pai, os tios, os avós… Na minha família foi assim, depois da morte da minha quem vestiu a saia e me criou desde os 6 anos foi meu irmão mais velho que assumiu todas as responsabilidades de uma Mãe para com uma criança. Então, só porque recebi a visita de uma joaninha, este texto será sobre Mães (em especial a minha porque cara, minha Mãe era foda, no melhor dos sentidos, e é muito difícil para mim escrever sobre ela.)


Meu irmão veio primeiro para esse mundo e eu fui fruto de um segundo casamento de Mamãe, tem uma foto muito bonita dela ainda grávida de mim, barrigão, com o umbigo de fora e atrás dela tinha o terreno onde ela estava construindo com as próprias mãos a nossa casa durante a gestação.

Minha Mãe era aquela mulher que botava todo mundo para correr, vestia as calças, batia no peito e falava “Eu vou fazer esta merda”. Ela trabalhava pra caralho para poder me dar tudo, administrava o próprio salão de beleza, fazia seus artesanatos e ainda arrumava tempo para cuidar do lar e me ajudar com as lições de casa enquanto o meu pai era um encostado ou “embuste” como diriam atualmente, “homem” que nunca colocou um leite na mesa. Cara, minha Mãe era foda, uma Mulher “da porra”.

Ela gostava de uma cerveja e um cigarro, todo mundo tem seus vícios. Eu odiava o cheiro e escondia o cigarro dela pela casa, de baixo do sofá, no quintal, dentro da parede… Tem uma foto ótima onde nós duas estamos sentadas em uma mesa de madeira que ficava no quintal, ela segurando um cigarro em uma mão e na outra um copo de cerveja enquanto ta rindo da minha cara emburrada por ela estar fumando.

Mas minha Mãe também era bruta, pensa em uma Mulher nervosa, cruzes. Eu apanhava para um caralho antes mesmo de aprontar alguma coisa, tudo perto dela virava artilharia, aquela Mulher já me bateu com vassoura, com colher de pau, escumadeira, os clássicos cinto e chinelo, até com cabo de energia eu já apanhei. Ela também não levava desaforo para casa, se peitasse minha Mãe ela brigava no meio da rua mesmo, Mulher bem porra louca.

Mas houve uma noite em que eu estava brincando no quintal e ouvi uma gritaria vindo de dentro da casa, entrei correndo e foi então que eu vi meu pai (e não sei o que o motivou a cometer tal ato) batendo e tentando asfixiar minha Mãe no chão na cozinha, montado em cima dela com as mãos em seu pescoço. Eu desesperada tentava apartar a briga, joguei alguns objetos no chão a fim de chamar sua atenção, acho que eram pratos, não me lembro, mas ele não se afastava. Foi então que me meti entre eles, só quando o puxei pelo pulso (com a ridícula força de uma criança) tentando tirar suas mãos do pescoço dela foi que ele parou. Largou eu e minha Mãe no chão da cozinha, cuspiu algumas palavras que não me lembro e saiu de casa com ódio nos olhos. Foi a última vez em que o vi e a primeira vez que eu soube o que era violência doméstica e abandono paternal.

Minha Mãe se ergueu, limpou o rosto, me pegou no colo e disse que “aquele não homem não entra mais aqui”. Chamou meu irmão mais velho e ele deixou a casa onde morava com a namorada para cuidar de nós duas. Minhã Mãe se livrou de tudo o que pertencia ao meu “pai”, deu fim, jogou no cú do mundo. Ela mudou tudo em volta dela. Com a ajuda do meu irmão ela trocou a fechadura, reformou a casa, começou um tratamento pra parar de fumar, fez tudo o que estava ao seu alcance, mudou radicalmente as nossas vidas. Um mês depois ela foi encontrada morta perto de um córrego. Dessa vez quem me pegou no colo foi meu irmão, me afastou daquele lugar, das pessoas tóxicas que nos cercavam e me deu uma nova vida mesmo cheio de defeitos e sem saber como criar uma criança. A partir daí foi ele quem vestiu a saia de Mãe.

A palavra Mãe diz muita coisa e para mim não há palavra mais bonita do que essa. Mãe é quem cuida, é quem bate no peito, quem enfrenta o mundo quando você não pode fazer isso por você mesmo. Mãe é mandar todo mundo para a casa do caralho quando precisa pensar no pequeno(a) em primeiro lugar. Eu tenho certeza que vocês também tem uma pessoa muito foda e guerreira na vida a quem podem chamar de Mãe. Seja o pai, os tios, os avós, os irmãos ou ainda alguém que não tem laço sanguíneo nenhum, mas te acolheu e te criou com muito amor e carinho e fez tudo por você.

Ah sim, estava me esquecendo de explicar a relação da joaninha com esse texto. Pois é, recebi a visita de uma joaninha o que é bem raro tendo em vista que estou no centro de São Paulo e não há muita natureza por aqui. A lembrança mais feliz que eu tenho da minha Mãe é de um dia de manhã quando fomos até o quintal e ele era cheio de plantas, tínhamos até uma horta de alface e em um cantinho havia um ninho cheio de joaninhas, a gente sentou na grama e ficamos brincando com elas, ela pegava as joaninhas e colocava na minha mão, eu ainda com muito medo ficava apavorada com aquelas bolinhas vermelhas andando em mim e ela se divertia muito com o meu pavor, até que eu peguei carinho por elas e não queria sair mais de lá. As memórias de uma criança são muito bagunçadas, mas acredito que essa lembrança tenha sido de poucos dias antes da sua morte.

– Rejane Leopoldino

 

Joaquim

Joaquim era filho da minha vizinha, criança de apenas 5 anos de idade. Ele costumava brincar na calçada da sua casa com os carrinhos de brinquedo enquanto a babá/empregada se distraía estendendo as roupas no varal.  Eu que sempre fiz da minha casa um escritório o via brincando da janela do meu quarto. Neste dia enquanto a babá estendia as roupas, um carro preto parou em frente à calçada onde Joaquim brincava e pela janela do meu quarto eu vi que se tratava de um homem grisalho usando óculos escuros, ele estendeu uma mão cheia de doces para Joaquim que estava sentado com seus carrinhos. Joaquim levantou, abandonou seus brinquedos e foi em direção ao homem. Lembro de ter conseguido ler os lábios do homem no carro, ele disse algo como “há mais doces aqui dentro”, Joaquim olhou com interesse para o banco de trás. “Pode entrar e pegar mais doces se quiser“. Joaquim entrou e o carro deu uma partida violenta queimando pneus. Tudo foi muito rápido, não tive tempo de reagir. De Joaquim sobrou apenas os carrinhos na calçada e a sensação de que sua infância havia sido violada.

– Rejane Leopoldino

Família de Mãe valente

Mãe valente foi Dona Amália, que teve seu marido morto em 1962 enquanto voltava para casa com quatro cabras que serviriam para a caprinocultura da humilde fazenda de sua família, durante o trajeto foi abordado por bandoleiros que o mataram e levaram os animais deixando sua família sem pai, marido e sem sustento.

Dona Amália encontrou o corpo do marido em decomposição três dias depois em meio a mata sendo sobrevoado por aves de rapina que pousavam e comiam seus restos mortais debaixo do sol quente. Com lágrimas nos olhos, afastou as aves de seu marido e sozinha o enrolou em uma manta e, com muito esforço, colocou seu corpo em cima do cavalo.

Quando trouxe o corpo do falecido marido de volta para a fazenda em Coroatá, encontrou o mais velho dos seus doze filhos que tinha apenas dezesseis anos sendo pressionado pela família do seu finado marido a vingar seu nome. -É o homem da família agora, pegue o cavalo e vá vingar o nome de seu pai- dizia o cunhado.

Dona Amália enterrou o marido nos fundos da propriedade, vendeu o gado e sua fazenda, juntou o dinheiro e meteu-se com os doze filhos dentro de um comboio caindo aos pedaços até Olinda em Pernambuco para reconstruir sua vida, deixou para trás o corpo do marido e Coroatá, sob a prece de que seus filhos não se tornariam assassinos como os de seu marido.

– Rejane Leopoldino

Samantha

Os gritos da mãe da minha vizinha já haviam se tornado frequentes desde o fim do inverno quando sabe-se lá porquê ela casou-se com um homem mal encarado que cheirava sempre a muita bebida após ficar viúva do seu último marido. Eu estava na sala de estar com meu pai quando a ouvi gritar naquela noite, nos assustamos, ele lia o jornal e eu assistia a televisão, ele abaixou o jornal rapidamente quando o primeiro grito de dor ecoou e eu dei um salto do sofá, trocamos alguns olhares entre nós como quem pergunta em silêncio se iríamos fazer algo a respeito. Quando ameacei levantar-me para bater na porta do vizinho meu pai me dirigiu um -Senta!– como se eu fosse um cachorro que lhe devesse obediência. –Não vamos interferir na vida alheia. Não é da nossa conta- ele disse e voltou a ler seu o jornal. Suspirei e fui até a varanda a fim de poder ver o que se passava naquela casa. Olhei discretamente pela janela do quarto de casal dos meus vizinhos. Me arrependi no mesmo instante, aquele homem apertava os braços de sua mulher e a chacoalhava com força enquanto gritava -Vagabunda!- em seus ouvidos e ela com medo juntava as mãos em frente ao corpo se encolhendo em si mesma. Um outro barulho chamou minha atenção, o som de um molho de chaves. Olhei para o portão da casa ao lado e vi a filha da minha vizinha -Samantha- entrando. Antes de fechar o portão a vi soltando um suspiro pesado, suspiro de quem sabia o que estava acontecendo com sua mãe dentro de casa. Ela ergueu a cabeça olhando para as estrelas no céu como quem buscava alguma fuga, e não achando nenhuma, fechou os olhos e bateu a porta com força fazendo um barulho proposital para anunciar sua chegada. Samantha e eu nos conhecíamos do bairro, era minha amiga, passeávamos de bicicleta junto aos nossos colegas aos fins de semana. Jovem muito quieta, acanhada, riso fácil porém fraco. Eu que estava na varanda da minha residência a assisti se dirigindo para dentro de sua casa em meio a toda aquela gritaria. Será que ela não estava ouvindo o mesmo que eu? Tentei chamar sua atenção. –Samantha! – gritei da varanda com uma voz abafada tentando não fazer escândalo. Ela parou no meio do caminho e olhou para cima em minha direção. –Não entre!- supliquei. Ela se esforçou para esboçar-me um sorriso, levantou sua mão e colocou o dedo indicador nos lábios pedindo silêncio ou que eu guardasse segredo sobre o que estava acontecendo e com uma expressão cansada deu-me as costas e entrou.

– Rejane Leopoldino

E pensar que não é apenas com Clarice.

Clarice saía do trabalho, sabem? Dia normal, vestes normais, vestido azul escuro na altura do joelho, recatado até, formal, como se diz, necessário vestir-se bem onde trabalha.

Pois então, saía do trabalho, ia à faculdade e não teve tempo de passar em casa para trocar de roupa, reunião do grupo de pesquisa logo cedo, não poderia se atrasar.

Chegava no metrô, estação próxima à sua casa, estação essa sendo uma das mais movimentadas do Centro de São Paulo. É necessário dizer que deve-se tomar muito cuidado no centro, principalmente na região da Sé, embora haja belos patrimônios histórico culturais, grandes arquiteturas e estabelecimentos de respeito, também há muita marginalidade.

Clarice chegava no metrô, havia chovido à alguns minutos atrás, descia a escadaria, muitos bêbados aglomerados dentro da estação para não pegarem chuva, gente mal encarada, gente essa que se aglomerava nos cantos e observava a todos no ambiente como quem procura uma vítima, gente a deitar no chão, a usar drogas. Clarice viu um grupo dividindo o que parecia ser uma seringa. Ambiente fedia a mijo, sensação de insegurança. Apertou um pouco mais a bolsa quando viu uma mulher aparentemente bêbada e desordenada olhar para ela de uma forma ameaçadora. Clarice apertou o passo e seguiu seu caminho, sabia que assim que passasse as catracas estaria mais segura, ou o que pode se chamar de segurança.

Clarice foi em direção às escadas rolantes, infelizmente havia um grupo de homens mal encarados ao lado das duas escadas, como se estivessem a cobrar pedágio pelo uso. Homens sujos, roupas rasgadas, desgranhados. Clarice pensou em contornar e ir pela escada fixa, mas a aglomeração de pessoas no horário de pico a empurrava para a escada rolante. Viu um dos homens que estava na escada rolante a observar, o temeu. Não quis ficar no lado direito da escada, do lado esquerdo poderia andar logo e fugir dos marginais, mas uma senhora de idade, coitada, parou do lado esquerdo um pouco mais à frente impossibilitando as pessoas de andarem. Ela com certeza não fez por mal.

Clarice percebeu assim que entrou na escada rolante um dos homens mal encarados se posicionar logo atrás dela. Sentiu um cheiro horrível, de sujeira, de mijo, álcool, imundice. Todos muito apertados na escada rolante, Clarice inclinava o máximo que podia para frente tentando não encostar nem um fio do seu cabelo no homem que estava atrás dela. Sentiu uma mão levantar a saia do seu vestido e tocar na sua coxa em meio a toda aquela aglomeração, olhou assustada para trás e viu aquele homem marginalizado a olhando com malícia, mostrando dentes podres e soltando um hálito morto em sua direção. Clarice empurrou a mão do homem e abriu caminho entre as pessoas paradas na escada rolante, desceu correndo, empurrando a todos, ouviu alguns xingamentos pela sua atitude.

Correu até as catracas, correu até a plataforma, quando entrou no vagão ficou inquieta, segurando um choro, sentia nojo, sentia-se suja, violada, agoniada, apodrecida, desvirtuada. Encolhia-se encostada nas portas em meio à multidão do vagão. Quando desceu da estação correu até sua faculdade, só conseguia correr para sair de toda aquela zona, desconforto, sufoco. Quando chegou, correu para o banheiro do prédio mais isolado do campus, não havia ninguém, fechou a porta e desabou no choro. Agoniada e desesperada subiu na pia do banheiro, levantou a saia do seu vestido e usou o sabão e a água para lavar sua coxa e suas pernas, sentia-se suja, imunda. Esfregava com força até a pele clara ficar vermelha, queria arrancar aquele pedaço de pele que fazia parte do seu corpo, tinha ódio do local que foi tocado sem consentimento. Odiava aquele pedaço de pele, odiava seu corpo. Ainda chorando desesperada lavava os pés, os braços, o pescoço, o rosto, lavava por inteira com força e não sentia-se limpa, nunca. Tinha raiva do vestido, queria rasgá-lo, incinerá-lo, apertava sua saia com ódio, infelizmente não poderia arrancá-lo do corpo. Tinha ódio do homem, queria cortar a mão dele, arrancá-la, desmembrá-la, dar aos cães mas sentia-se vulnerável, indefesa, pequena, minúscula e fraca.

– Rejane Leopoldino

Helena.

Helena, mulher esbelta que chorava todos os dia desejando um filho, decidiu pedir ao marido. -Não quero um filho agora– ele respondia. -Já tenho 37 anos…– suplicava. –Não quero um filho agora.- Ela tentou por diversas vezes seduzir o marido. Sem sucesso.

Helena adotou uma cadela a fim de preencher o coração materno vazio. Cuidava dela como se fosse sua filha.
A cadela ficou prenha, cruzou com o cão do vizinho.– disse ao marido.
Helena cuidou de toda a gestação da cadela, cuidaria dos filhotes como se fossem seus netos.

04:57 da manhã. A cadela estava para dar à luz no banheiro do quarto do casal.

A cadela rejeitou os filhotes. A cadela comeu os filhotes ainda envoltos pela placenta. Helena tentou impedi-la de cometer tal barbaridade mas ela tornou-se agressiva, rosnava, mordia e continuava comendo os filhotes. Helena assistia a tudo aterrorizada ajoelhada no chão frio do banheiro de frente para a cadela. O marido dormindo na cama. A cadela deixou apenas a cabeça do último filhote inteira. Helena assistiu a cadela tentar enterrar a cabeça do filhote em meio às cobertas onde estava a dar à luz, empurrando com o focinho a cabeça do filhote por baixo dos panos.

Dois meses depois a cadela dava sinais de estar deprimida, sempre triste e amuada, a cadela lambia as mamas desesperada, mamas que pingavam um leite jamais bebido. Helena descobriu um câncer agressivo no colo do útero. –Necessário operar, sinto muito.- dizia o médico.

O marido pediu divórcio, ele queria um filho agora, um filho que Helena já não poderia mais gerar.

A cadela foi castrada. Helena também.

– Rejane Leopoldino

 

E não é por isso que passam todos os irmãos mais novos?

Eu não escolhi tê-lo na minha vida e se tivesse escolhido não o ter provavelmente não escreveria. Mas por trás disso há muito mais, eu provavelmente também não leria tão bem como leio hoje e isso digo na plenitude da minha humildade, reconheço que sou uma ótima leitora e oradora (é importante elogiarmos a nós mesmos), mas, com isso também não digo que os meios que me fizeram a ler bem, foram por si convencionais. Tentativas e mais tentativas de se igualar a Ele, para mim, nunca o suficiente, eu com 7 anos queria equiparar a minha oratória à dele, que tinha 29 na ápoca. Difícil, não? Mas posso dizer, foi ele que me ensinou a recitar poemas.
O primeiro poema me lembro até hoje, ele pegou um livro que já tinha a muito tempo e abriu na sua parte favorita. O livro? Uma coleção de poemas de Fernando Pessoa.

Todas as cartas de amor…

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

– Fernando Pessoa

Sei este poema de cor desde os 7 anos.

Ele era meu espelho, se falasse um “A” eu o repetiria no mesmo tom. Eu andava como Ele, falava igual, imitava seus gestos, imitava tudo, mas por mais que eu tentasse, a infância me fazia muito diferente dele.

Então eu fui crescendo e percebi que não era a infância que nos fazia tão diferentes. Havíamos perdido no ano anterior aos meus 7 anos alguém que significava o mundo para nós, (até hoje acho que é tudo o que temos em comum) e ficamos então apenas nós dois a cuidar um do outro. Não me ocorreu naquela época que essa perda havia me feito adquirir personalidade própria.

– Rejane Leopoldino

O tal do telefone sem fio ou diz-que-me-disse.

Manoel, meu irmão, preste muita atenção.- Dizia José.- Vá até seu Domingos e peça-lhe 2 jarras de leite, diga que pagará fiado e bote a conta no nome do desgraçado do Francisco, aquele lá me deve um dinheiro, se eu o vejo na minha frente, ah… o pego de jeito! Depois, vá até a casa da nossa avó e entregue os leites, diga a ela que são para as tortas de amanhã. Em seguida, passe na casa de Madalena, ah… Madalena. Tome, pegue estas flores e entregue-a, peça para ela se arrumar e me encontrar no lago do pescador Josué às 19:00 horas! Depois, pegue o comboio até a fazenda Botucatu e faça uma encomenda de 3 queijos Gouda de 1 quilo cada para serem entregues na casa de nossa mãe na sexta-feira ao meio dia e por último, passe na casa do nosso vizinho Olindo e diga que o estarei esperando para jogar sinuca no bar do Vicente antes de sair com Madalena, agora vá, menino, vá!

Manoel foi até seu Domingos e pegou os leites, os pendurou na conta de Olindo. Depois foi até a casa de sua avó e entregou-lhe as flores, despediu-se e foi até a casa de Madalena e entregou-lhe as duas garrafas de leite. –O que é isso, menino? – perguntou Madalena. -Sei não, moça. Vai ver ele quer que a senhorita tome banho de leite, me pediu para você encontrá-lo na casa da nossa mãe sexta feira ao meio dia.- disse. -Na casa da mãe de vocês? Eita, que o bicho pensa em me pedir em casamento é? -Sei não, moça.- Depois, pegou o comboio até a fazenda Botucatu e pediu 1 queijo Gouda de 3 quilos para ser entregue no lago do pescador Josué às 19:00 horas. Por último, passou na casa de Francisco e disse que José estava pedindo para encontrá-lo no bar do Vicente onde estaria a jogar baralho.

Agora, Olindo tem a dívida de 2 leites, a Avó não está a fazer as tortas, Madalena está a banhar-se desde já com leite achando que será desposada, o lago do pescador Josué receberá 1 queijo Gouda de 3 quilos e José e Francisco estão a arrancar os couros um do outro no bar do Vicente.
Manoel? Tem sete anos.

– Rejane Leopoldino