Custou-lhe muito admitir.

Clarice, sente-se amada?– perguntou uma amiga que a acompanhava no caminho de casa, já era tarde, passava das 23:00 horas. Hesitou. –Amada por quem?– respondeu. Sua amiga deu um riso curto e baixo com uma pitada de tristeza no olhar e na voz. -É disso que estou falando, veja, Clarice, se eu fizer a mesma pergunta à algumas de nossas amigas em comum elas rapidamente responderão que sim, se sentem muito amadas pela  família, amigos, companheiro, mas você… você hesita e me pergunta “por quem”, não associa a pergunta à uma pessoa ou um grupo de pessoas, é como se esperasse que eu desse um nome e você pudesse dizer apenas “sim” ou “não” de uma forma tão prática que chega a ser insensível. Me preocupo com você, te conheço há tempos, fala pouco sobre sua vida pessoal e quando fala é sempre muito vaga. Tenho medo que você esteja a remoer suas dores e guardá-las para si.- Remoer o passado, tomar as dores a goladas e quando mal digeridas, regurgitar e tentar digeri-las novamente. Assemelhava-se à um hábito que repetido tantas vezes já tornava-se inconsciente sua manifestação. Algo compulsório, quando dava-se conta da atividade já era tarde demais. –Sim, sinto-me amada.- Clarice respondeu apenas. –Sente-se amada por Ele?– Por Ele. Clarice novamente hesitou, pensou por um momento, regurgitou um pouco. -Ele me criou, não o teria feito se não houvesse amor.- Respondeu dando um sorriso que não convenceu nem a si mesma. –Certo, mas essa não foi minha pergunta.- disse a amiga por fim. –Sentir-me amada por Ele é algo muito forte para afirmar. O que posso dizer é que sei que Ele me ama embora possua uma forma muito psicológica e fisicamente agressiva de demonstrar.- A amiga suspirou. –Logo você, minha amiga, que tanto luta contra a alienação emocional foi deixar-se cegar desta forma?- Cegar? Não era cegueira. –Não me cego nem um pouco, mantive os olhos tão abertos que agora não se fecham por medo. Mastigo os traumas gerados por Ele, bebo as dores que Ele me ofereceu, regurgito e me engasgo no processo. Ao menos agora, plenamente consciente. 

– Rejane Leopoldino

Curto conto de uma noite em um Prostíbulo.

Ele ficava por perto, rondando, sondando, a observando de longe por semanas dentro do prostíbulo sem emitir nenhuma palavra. Todas aquelas trocas de olhares mudos. Claramente obcecado, enciumava-se quando ela subia para os aposentos com outro. Ganhar seu dinheiro. É a vida dela, nada podia fazer a respeito. Nenhuma outra garota o interessava, tinha o hábito de sentar-se em uma das poltronas de couro escondido entre a luz vermelha do ambiente e cronometrar no seu relógio de pulso o tempo que ela passava com os outros cavaleiros. Obcecado, mas nunca a contratou, nem por 10 minutos que fosse, seu prazer era assisti-la ser cortejada por homens que não pareciam ser tão interessantes e inteligentes quanto ele. Bebia pouco, o bastante para sentir calor e afrouxar a gravata. Uma noite recebeu além da sua bebida um bilhete em papel sem pautas, letra itálica.

Querido,

Ou me fode ou sai de cima. 

Esses impasses não combinam comigo, se agregue à mim, resquícios seus não me satisfazem e pequenos sinais da sua presença não são o bastante. Não se engane, não estou pedindo para ser sua amante, apenas se decida. 

Ou me fode ou sai de cima. (Por favor, me fode)

– Rejane Leopoldino