Cartas secretas

Querido,
você não me viu florescer. Quando me encontrou eu já estava adubada, com as pragas controladas e vários botões esperando a próxima primavera e eu não poderia deixar meu jardim por nada. Ainda que seu céu seja mais azul, o brilho das minhas flores são o reflexo de anos de paixão e dedicação à um campo onde antes não nascia nem uma trepadeira.
Mas espero ver seu céu um dia, de modo que eu não precise abandonar o meu campo. Então quero que saiba que embora toda essa estação esteja sendo muito agradável, eu não a passarei com você.

Talvez uma próxima.

– Rejane Leopoldino

 

Sangue do meu sangue mas não somos parecidos.  

Você queria controle, mas controle sobre mim eu nunca dei e até hoje quer submissão quando eu só lhe dou provas de “rebeldia”. É por isso que surtava em agressividade? Porque eu era a “rebelde” e não obedecia suas ameaças? Não leve a mal, mas com o tempo sua agressividade me calejou, hoje em dia há pouca violência que me surpreenda e nenhuma ameaça tira mais meu sono. Suas amarras tornam-se cada vez mais frouxas para mim, não são capazes de me prender e acredito que a ideia de me ver voar sozinha faz com que você se sinta abandonado, deixado para trás. Ora, se suas asas já caíram não cobice as minhas que estão nascendo, pois eu não vim a este mundo para permanecer amarrada ao seu ninho.

– Rejane Leopoldino

Bem-vindo ao meu pesadelo

É um castelo de madeira marrom na subida da antiga rua onde eu morava quando criança, não tem portas, apenas janelas que ficam muito altas. Eu paro em frente ao castelo e em uma das janelas um homem que julgo ser meu pai me observa. Então o castelo começa a pegar fogo, um fogo que se alastra rapidamente por toda a superfície de madeira, pessoas descem a rua desesperadas. Eu a assisto queimar, meu pai some da janela. Não emito um único som nem movimento, não pisco, expressão facial neutra, o incêndio não me causa nenhum incômodo, não possuo empatia pelo homem que está lá dentro. O irmão mais velho chega, põe a mão em meu ombro e com a mesma neutralidade no rosto que eu, me ajuda a dar às costas e me leva para longe do castelo em chamas. Enquanto me afasto, não me digno a olhar para trás.

O mesmo sonho desde os seis anos.

– Rejane Leopoldino

Soturnos

Notei que tenho apetite por escrever sobre alguns assuntos pouco confortáveis de se ler. Assédio, abuso, violência doméstica… Não nego que a escrita desses temas me satisfaçam, para mim, dar voz a situações que são parte da realidade em que vivemos e que muitas vezes são omitidas por medo, falta de palavras, ou por temer a crítica sobre assuntos tão delicados como estes é um ato não apenas de visibilidade mas de apoio às pessoas (homens ou mulheres, crianças ou jovens) que passaram por humilhação e violação da sua integridade.

Me perguntaram há cerca de um mês e meio de onde vinha essa “névoa obscura” que cobre meus textos, e foi durante o período em que me afastei para escrever algo muito mais pessoal (agora concluído, reunindo apenas força mental para reler, sonhei inclusive que escondia aquele curto livro dentro da parede e ele havia amaldiçoado a casa toda) que descobri não apenas a razão da existência dessa “névoa” ou o porquê de tais textos me agradarem tanto, como também algumas respostas que feriram a mim mesma mas ao mesmo tempo abriram-me os olhos para verdades sobre a minha existência que eu ocultava a fim de não precisar lidar. A verdade é que a obscuridade que se referem aos meus textos nada mais são do que relatos reais, vivenciados por mim ou ao meu redor. Filmes de terror assustam muito mais quando no rodapé aparece a frase “baseado em fatos reais”, o mesmo vale aqui, em tudo o que escrevo.

Me sugeriram de forma muito educada que eu deveria “parar de escrever textos como aqueles”. Posso responder somente que não tenho a intenção de permanecer omissa enquanto temas tão profundos ainda são de grande valor (pessoal) para mim e ainda servirem de retrato para outras pessoas que não possuem sua própria voz ou que, por algum motivo, são coagidas e sentem medo em se expor.

O ser humano que recomendou que eu parasse de escrever utilizou uma ótima palavra para descrever os meus textos, segundo ele, meus textos são “Soturnos”.

Sinto muito que minhas palavras te provoquem horror, mas eu vou continuar escrevendo.

– Rejane Leopoldino

Samantha

Os gritos da mãe da minha vizinha já haviam se tornado frequentes desde o fim do inverno quando sabe-se lá porquê ela casou-se com um homem mal encarado que cheirava sempre a muita bebida após ficar viúva do seu último marido. Eu estava na sala de estar com meu pai quando a ouvi gritar naquela noite, nos assustamos, ele lia o jornal e eu assistia a televisão, ele abaixou o jornal rapidamente quando o primeiro grito de dor ecoou e eu dei um salto do sofá, trocamos alguns olhares entre nós como quem pergunta em silêncio se iríamos fazer algo a respeito. Quando ameacei levantar-me para bater na porta do vizinho meu pai me dirigiu um -Senta!– como se eu fosse um cachorro que lhe devesse obediência. –Não vamos interferir na vida alheia. Não é da nossa conta- ele disse e voltou a ler seu o jornal. Suspirei e fui até a varanda a fim de poder ver o que se passava naquela casa. Olhei discretamente pela janela do quarto de casal dos meus vizinhos. Me arrependi no mesmo instante, aquele homem apertava os braços de sua mulher e a chacoalhava com força enquanto gritava -Vagabunda!- em seus ouvidos e ela com medo juntava as mãos em frente ao corpo se encolhendo em si mesma. Um outro barulho chamou minha atenção, o som de um molho de chaves. Olhei para o portão da casa ao lado e vi a filha da minha vizinha -Samantha- entrando. Antes de fechar o portão a vi soltando um suspiro pesado, suspiro de quem sabia o que estava acontecendo com sua mãe dentro de casa. Ela ergueu a cabeça olhando para as estrelas no céu como quem buscava alguma fuga, e não achando nenhuma, fechou os olhos e bateu a porta com força fazendo um barulho proposital para anunciar sua chegada. Samantha e eu nos conhecíamos do bairro, era minha amiga, passeávamos de bicicleta junto aos nossos colegas aos fins de semana. Jovem muito quieta, acanhada, riso fácil porém fraco. Eu que estava na varanda da minha residência a assisti se dirigindo para dentro de sua casa em meio a toda aquela gritaria. Será que ela não estava ouvindo o mesmo que eu? Tentei chamar sua atenção. –Samantha! – gritei da varanda com uma voz abafada tentando não fazer escândalo. Ela parou no meio do caminho e olhou para cima em minha direção. –Não entre!- supliquei. Ela se esforçou para esboçar-me um sorriso, levantou sua mão e colocou o dedo indicador nos lábios pedindo silêncio ou que eu guardasse segredo sobre o que estava acontecendo e com uma expressão cansada deu-me as costas e entrou.

– Rejane Leopoldino

Chaos de la modernité e o amor líquido de Zygmunt Bauman, duas revelações em uma semana conturbada pelas relações sociais.

Refletindo sobre os acontecimentos dessa semana me dei conta de como a internet provoca um mal entendido nas relações sociais.

Comecei a me corresponder com uma colega francesa a pouco tempo pelo Instagram e conversamos frequentemente, porém houve um episódio essa semana que estamos chamando de “Chaos de la modernité ” (caos da modernidade).

Como eu disse, estamos nos correspondendo com frequência e alguns dos amigos dela apareceram para mim como sugestão de “Seguidores”. Inocentemente, eu entrei em um desses perfis do Instagram a fim de ver quem era essa pessoa que participava da vida social da minha colega francesa. Perfil público, olhei fotos, “Stories” e me dei conta de que era o namorado dela. Um belo casal, mas não curti nenhuma foto nem comecei a segui-lo pois seria muito deselegante da minha parte, principalmente por nem sequer conhecê-lo, sai do seu perfil e fui viver minha vida. Pois bem, no dia seguinte, enquanto conversava com essa minha colega ela me perguntou da onde eu conhecia o namorado dela. E eu fiquei intrigada com a pergunta: ora, não o conheço de lugar algum. Então ela me disse que enquanto estava mexendo no celular do seu companheiro observou que eu havia visualizado o Stories dele. Devo dizer que o clima de -essa brasileira está me seguindo e stalkeando todos da minha vida- foi bem tenso e desagradável. Eu não estava “stalkeando” foi uma coincidência moderna uma pessoa muito ligada a ela ter aparecido como sugestão de seguidor no meu perfil e eu olhado as suas fotos na inocência.

Após eu explicar toda a situação e deixá-la segura de que eu NÃO SOU nenhum tipo de psicopata que quer saber de toda a vida dela incluindo a do namorado e do papagaio, começamos a discutir sobre como essa situação moderna é frágil.

Zygmunt Bauman, autor do livro (e aqui deixo uma indicação de leitura) Amor Líquido, investiga de que forma nossas relações tornam-se cada vez mais “flexíveis”, gerando níveis de insegurança sempre maiores. Uma vez que damos prioridade a relacionamentos em “redes”, as quais podem ser tecidas ou desmanchadas com igual facilidade e frequentemente sem que isso envolva nenhum contato além do virtual, não sabemos mais manter laços a longo prazo.

Para Zygmunt, a modernidade líquida em que vivemos traz consigo uma fragilidade dos laços humanos a qual ele chama de “amor líquido”. A insegurança que estimula desejos conflitantes de estreitar e afrouxar laços. Esse livro busca esclarecer de que forma o homem “sem vínculos” se conecta com outros seres humanos.

Em seu primeiro capítulo ele discorre sobre o “apaixonar-se e desapaixonar-se” em meio a tanta fragilidade com que nos conectamos. E assim como Zygmunt fala sobre um trecho que Charles Baudelaire apresentou a seus leitores o Le spleen de Paris, eu o parafraseio:
Que pena. Não fosse por isso, eu gostaria de escrever esse mesmo preâmbulo, ou um parecido, sobre o texto que segue. Mas ele o escreveu e só me resta citá-lo.

O amor pode ser, e frequentemente é, tão atemorizante quanto a morte. Só que ele encobre essa verdade com a comoção do desejo e do excitamento. Faz sentido pensar na diferença entre amor e morte como na que existe entre atração e repulsa. Pensando bem, contudo, não se pode ter tanta certeza disso. As promessas do amor são, via de regra, menos ambíguas do que suas dádivas. Assim, a tentação de apaixonar-se é grande e poderosa, mas também o é a atração de escapar. E o fascínio da procura de uma rosa sem espinhos que nunca está muito longe, e é sempre difícil de resistir. – Zygmunt Bauman

Ele descreveu em poucas palavras como atualmente somos atraídos pelo desejo do que podemos ter sem a responsabilidade de manter. Sentimentos que corremos atrás para nos desfazer com facilidade quando convém ou o “cativar por divertimento”, como descrevemos eu e minha colega francesa na nossa conversa anterior.

Chegamos ao conceito de “cativar por divertimento” quando olhamos para as relações que são construídas por essa fina “Rede Social”. Nós temos a tendência de passar a melhor impressão de nós mesmos pois nossos defeitos estão resguardados por muros como distância, idioma, falta de familiarização, etc. Então acabamos por cativar naturalmente e sem esforço algumas pessoas com quem nos comunicamos, mas a falta da necessidade de manter a pessoa cativada após um período de tempo transforma essa relação em algo descartável, como se a facilidade de cativar alguém e se desapegar da mesma pessoa estivessem em pé de igualdade na mesma balança, como atitudes fáceis e sem valor emocional. O que uma vez estando na qualidade de cativar pessoalmente, não seria tão simples assim. Estar cara a cara com alguém, fisicamente, fora do mundo virtual é expor seus defeitos sem precisar dizer uma palavra sobre eles, o outro percebe, através da observação do comportamento tudo o que pode ser considerado um defeito. E é daí que surgem as inseguranças, e é por conta das inseguranças que acabamos preferindo nos relacionar através dessas “Redes Sociais” pois essas redes nos dão o anonymat des imperfections (anonimato das imperfeições como descreveu minha colega).

E não apenas isso, ao longo do livro são abordados outros tantos temas como a diferença do parentesco e a afinidade, dificuldade de socialização física e presencial, e relação de amar o próximo e o amor próprio e como nos é negada a dignidade de ser amado.

Amor Líquido é um livro atualizadíssimo e o melhor que li até agora neste ano.

Mas deixando um pouco o amor líquido de lado, eu e minha colega começamos a discutir sobre o anonimato moderno. Comentei com ela sobre a existência de algo na minha faculdade chamado “Spotted”. Spotted, caros leitores é o cúmulo do anonimato universitário. Trata-se de uma página no Facebook da minha faculdade onde, através de um formulário do Google Forms podemos mandar mensagens anônimas para qualquer aluno da Instituição. Qualquer. Aluno. O que mais sai são paqueras, “Fulana do bloco H do curso X, está solteira?” esse é o tipo de mensagem que mais se vê naquela página. Mas sempre tem mensagens carregadas de ódio e a faculdade inteira lê. Quantos casos houveram de pessoas que sofreram críticas e xingamentos anônimos pesados, pessoas que tiveram sua vida pessoal exposta e humilhada de forma agressiva e tiveram a sua vida social dentro do Campus prejudicada? Spoiler: várias. Todos os dias alguém é vítima do ódio anônimo virtual.

Algo similar a isso podemos encontrar no livro e filme “Com amor, Simon.” Onde a escola de um jovem adolescente adota o mesmo tipo de mecanismo de mensagens anônimas que a minha Instituição e a orientação sexual do protagonista é exposta contra a sua vontade.

Essa rede online anônima faz com que o seu usuário transforme a sua covardia em  uma falsa coragem e isso é o que mais temos experimentado nos últimos tempos, como eu disse acima, nossas inseguranças nos fazem perder a capacidade de se relacionar pessoalmente. Pois sejamos honestos, é preciso muita fibra hoje em dia para falar sobre o íntimo e pessoal ou então para tratar das desavenças um com o outro através do diálogo. Sentar frente a frente, falar abertamente, expor as cartas na mesa? É algo muito profundo e nos aconchegamos na segurança do anonimato para fazer críticas. Temos que sair dessa bolha mau inflada onde ficamos socados reprimindo nossas vozes por medo do que o outro tem a dizer. Quantas vezes você deixou algo mal resolvido com alguém por medo de expor seus sentimentos ou opiniões, por receio de expor seu lado da história ou ser mal compreendido? Imaginem só, se a minha colega francesa não tivesse me dado a oportunidade de explicar o mal entendido que ocorreu envolvendo o perfil do Instagram do seu namorado. Ela provavelmente teria parado de se corresponder comigo o que seria algo terrível, desconstruir uma boa relação por banalidades modernas e virtuais.

Algo mal interpretado, ouvido pela metade, fora de contexto, são inúmeras as situações que nos levam a uma interpretação equivocada. Temos o costume de nem dar a chance da réplica da outra parte. Aconteceu uma situação X. Eu entendi isso e ponto final. Não estou interessado em ouvir o que o outro tem a dizer pois formei a minha opinião com base em uma única versão da história. A minha versão. Mas isso não quer dizer que seja a versão certa.

A convicção de que nossas opiniões são toda a verdade, nada além da verdade e sobretudo a única verdade existente, assim como nossa crença de que as verdades dos outros, se diferentes da nossa, são “meras opiniões” é um obstáculo. – Zygmunt Bauman.

Por isso, defendo tanto a necessidade do diálogo claro e limpo. Tudo é muito subentendido quando falamos virtualmente o que nos causa frustrações e muitas vezes é comum resistirmos à conciliação para chegarmos a um acordo. Se não houver confronto, a verdade se esquece e paira no ar. É necessário debater a verdade.

– Rejane Leopoldino

Sobre o que essa vida em meio a tantas letras se tornou.

Eu sei que você não gosta que eu escreva sobre isso, e eu realmente sinto muito que minhas letras façam você se sentir pesado. Mas eu vou continuar escrevendo.

Não se engane, esse não é um ato de rebeldia. Sabe que nunca fui de me rebelar, sempre fui contida e recatada. Mas eu ocultava sem perceber parte de mim ao seu lado. E isso só fui me dar conta depois que nós dois nos movemos em direções opostas. Eu percebi que havia absorvido e me tornado 70% do que você me criou para ser. Não me leve a mal, eu não odeio isso, você me criou com as referências que acreditava serem as melhores para mim. E acredite, eu absorvi bem todas as melhores referências que me deu e sou sim, grata. Mesmo que você duvide da minha gratidão. Mas há uma pequena parte dos (seus) 70% em mim que eu gostaria de mudar. E a cada dia o faço. Os 30% meus que você não tocou, hoje são 35%, e a cada dia volto a ser mais minha. Mas sempre haverá seu reflexo em mim, com todos os melhores ensinamentos que você fez questão de compartilhar.

Então, de verdade, apenas aceite que não é um ato de rebeldia. Eu tenho as minhas reflexões e elas sempre divergiram das suas. Isso não é novidade. Você sempre soube. A diferença é que agora eu escrevo sobre o que aconteceu, o que naquela época eu tinha medo de fazer. Não queria decepcioná-lo com as minhas verdades e tinha medo que a forma como eu me sentia (sinto) pudesse te magoar e fazer com que você deixasse de me ver como uma menininha. Mas por falta de diálogo, eu não sei se você temia (teme) que a sua verdade fosse ter (tenha) o mesmo impacto em mim.

De qualquer forma, ainda perco um pouco do ar quando digito cada palavra desse texto, ou qualquer coisa que eu escreva para/sobre você. Como se o ar se tornasse muito mais pesado. Uma sensação semelhante a como me sentia quando estávamos juntos. Eu sentia que devia me ocultar, me retrair, estava acostumada a olhar para baixo e repelir o impulso de suspirar pesado pois isso com certeza te incomodaria e eu sempre buscava tanto a sua aprovação… Tanto…

É quase irônico que eu tenha escolhido essa vida de escritora para mim, logo uma que me daria tanta liberdade para escrever sobre você e parar de me ocultar e ocultar o que aconteceu.

Eu repito. Esse não é um ato de rebeldia. E eu repito que, embora tudo aquilo que aconteceu tenha nos ferido tanto, sou grata, por cada momento vivido e não me arrependo nem dos piores. Achei que deveria saber.

– Rejane Leopoldino

 

 

Se te falta

É preciso ser muito inteiro para dizer: “sinto muito, se você pode me oferecer somente isso, guarde para você”.
É preciso muita honestidade consigo mesmo para compreender que ninguém deve te entregar somente pedaços de alguém e sim a pessoa inteira!
É preciso se amar muito para não aceitar se tornar apenas parte de algo.

É preciso tudo isso e mais um bocado tanto para respeitar a si mesmo como um ser humano, munido de sentimentos, emoções e algumas decepções.

Para minha amiga L.M.

– Rejane Leopoldino

Regendo minhas próprias estações.

Meu amor,

para mim é muito mais fácil entrar em qualquer imensidão que desconheço. Algumas eu não sei onde vão dar, nem se tem fim, mas anseio por elas como um campo de girassol voltado para o céu. E se alguma imensidão for profunda demais, ah… Eu mergulho com uma pedra amarrada em cada pé, e, confesso que leva um tempo pra sair de lá depois, mas olhe, nunca me arrependi.

É que o fascínio pelo que ainda não conheço é grande demais e talvez seja por isso que paro cada vez menos em casa e busco cada vez mais algo que sustente o meu olhar.
Eu sei que você talvez não goste desse meu jeito e espero que compreenda, pois juro, não faço por mal! Apenas acredito que vivemos de experiências e referências e devemos estar sempre agregando algo às nossas vidas. Você pode fazer parte da minha se quiser (ou voltar a fazer), mas não tente mudar isso em mim. Não tem jeito, viu por si mesmo.

Eu ainda sou aquela menina que você dizia ter “o coração bom até demais” mas hoje tenho malícia para enxergar com clareza. Então não se preocupe, aprendi a me cuidar, embora você não leve fé nisso.

Eu lembro como você esperava me ver diferente na primavera e ficava decepcionado.

– O que eu posso fazer se floresço no outono?

 

– Rejane Leopoldino