Bizarrices

Pode parecer estranho, mas eu desenvolvi uma certa peculiaridade com as fotografias.

Quando alguém tira uma foto eu imediatamente busco a figura do fotógrafo por trás da imagem. A sombra do fotógrafo, ou o reflexo no vidro, água, janela… Adoro quando fotógrafos tiram fotos de janelas, eu comumente vejo através do vidro o reflexo do fotógrafo que saiu sem querer na foto, a segurar a câmera em frente ao rosto. Como se fosse uma imperfeição na foto, um acidente fruto de desatenção, um erro belíssimo.

E gosto muito, dá mais humanidade à fotografia.

-Rejane Leopoldino

Era o estranho conforto da solidão

Sabe, Joseph, minha meta quando criança -lá pelos meus 6 anos– era passar despercebida pela vida. A regra era clara, se ninguém sabe quem sou, ninguém sente minha falta. Fazia sentido. Mas eu cresci e sem perceber ou fazer questão disto, começaram a me notar, e quando dei por mim várias pessoas já sabiam meu nome e eu era emocionalmente importante para muitas delas. Isso arruinou meus planos, Joseph, veja que agora, caso eu deseje me despedir desta terra, tenho várias pessoas à quem dizer Adeus. E o mais terrível, Joseph, é que a despedida irá doer em mim também.

– Rejane Leopoldino

Carne quente e pele vermelha

Você não devia ter me batido no nosso próprio quarto
Passei a não sentir-me segura na cama onde dormíamos.
Passei a temer entrar em casa
E quando entrava sentia-me reprimida e sufocada
O casamento tornou-se um ar denso
Difícil de se respirar

Relutei em deitar-me contigo
Adquiri horror daquele colchão
Eu fugia para a sala
Deitava no sofá
Sentia-me segura longe de você
E com o cachorro ao meu lado

Mas você sentiu minha falta na cama
E foi buscar-me na sala
Me pegou pelos pulsos
Me arrastou para o quarto
Enquanto eu chorando pedia que não fizesse isso
Pedia que me deixasse sozinha
Você dizia que eu era sua mulher
E que aquela cama era o meu lugar
Eu freava com os pés enquanto você me arrastava
Eu tentava me soltar das suas mãos

Segurava nas quinas das paredes e no corrimão da escada
Nosso cachorro começava a rosnar para você
O pobre cão tentou me defender da sua violência
Mas você o via como uma criatura inferior e fraca
Assim como via a mim
Quando ele avançou para te morder
Você o chutou com força para longe
O cachorro encolheu-se em um canto
Chorando de dor
E logo eu seria a próxima

Você conseguia me arrastar para o quarto
Entre tapas que me humilhavam
Me jogou para dentro e trancou a porta
Eu fugia da cama, me escorava na parede
Pedindo para que por favor você não me deitasse lá
Que eu não queria
E que me deixasse sozinha

Mas para você eu era sua “mulher”
E te devia presença
Você me pegou do chão e jogou na cama
Dizia que acabaria logo se eu parasse de chorar
E que eu iria até gostar de ser “mulher” novamente

Se jogou em cima de mim
Mesmo eu pedindo para você parar
Usava sua força para me segurar
E a essa altura eu já estava muito fraca
exausta de tentar lutar contra quem devia ser meu marido

Eu chorava com força enquanto você me virava de costas
Levantava minha saia e afastava minha calcinha
O bastante para ter acesso a mim
Me prendia com suas pernas embaixo de ti
Desisti de lutar quando ouvi seu zíper abrir

Você passou a mão pela minha vagina
Eu não estava molhada para você
Disse que eu era inútil desse jeito
Então cuspiu na minha intimidade
Me violou como mulher e como esposa

E enquanto metia-se em mim
Perguntava se eu estava gostando
Meu choro e lágrimas não te davam a resposta
Não a que você queria ouvir

Você gozou em cinco minutos
Porque gostou da submissão
Da humilhação
Me abandonou na cama
E ofegante se afastou de mim

Porque Mulher para você é isso
Carne quente e pele vermelha


 Infelizmente eu tenho uma mente cruel demais, muito soturna que não me deixa em paz  e me atormenta até que eu escreva sobre o que me causa angústia e medo. Eu tenho medo que uma cena como essa ocorra comigo, com você, com ela, com quem seja da mesma forma que ocorre com milhares de mulheres. 

– Rejane Leopoldino

 

 

 

Cartas secretas

Querido,
você não me viu florescer. Quando me encontrou eu já estava adubada, com as pragas controladas e vários botões esperando a próxima primavera e eu não poderia deixar meu jardim por nada. Ainda que seu céu seja mais azul, o brilho das minhas flores são o reflexo de anos de paixão e dedicação à um campo onde antes não nascia nem uma trepadeira.
Mas espero ver seu céu um dia, de modo que eu não precise abandonar o meu campo. Então quero que saiba que embora toda essa estação esteja sendo muito agradável, eu não a passarei com você.

Talvez uma próxima.

– Rejane Leopoldino

 

Sangue do meu sangue mas não somos parecidos.  

Você queria controle, mas controle sobre mim eu nunca dei e até hoje quer submissão quando eu só lhe dou provas de “rebeldia”. É por isso que surtava em agressividade? Porque eu era a “rebelde” e não obedecia suas ameaças? Não leve a mal, mas com o tempo sua agressividade me calejou, hoje em dia há pouca violência que me surpreenda e nenhuma ameaça tira mais meu sono. Suas amarras tornam-se cada vez mais frouxas para mim, não são capazes de me prender e acredito que a ideia de me ver voar sozinha faz com que você se sinta abandonado, deixado para trás. Ora, se suas asas já caíram não cobice as minhas que estão nascendo, pois eu não vim a este mundo para permanecer amarrada ao seu ninho.

– Rejane Leopoldino

Bem-vindo ao meu pesadelo

É um castelo de madeira marrom na subida da antiga rua onde eu morava quando criança, não tem portas, apenas janelas que ficam muito altas. Eu paro em frente ao castelo e em uma das janelas um homem que julgo ser meu pai me observa. Então o castelo começa a pegar fogo, um fogo que se alastra rapidamente por toda a superfície de madeira, pessoas descem a rua desesperadas. Eu a assisto queimar, meu pai some da janela. Não emito um único som nem movimento, não pisco, expressão facial neutra, o incêndio não me causa nenhum incômodo, não possuo empatia pelo homem que está lá dentro. O irmão mais velho chega, põe a mão em meu ombro e com a mesma neutralidade no rosto que eu, me ajuda a dar às costas e me leva para longe do castelo em chamas. Enquanto me afasto, não me digno a olhar para trás.

O mesmo sonho desde os seis anos.

– Rejane Leopoldino

Soturnos

Notei que tenho apetite por escrever sobre alguns assuntos pouco confortáveis de se ler. Assédio, abuso, violência doméstica… Não nego que a escrita desses temas me satisfaçam, para mim, dar voz a situações que são parte da realidade em que vivemos e que muitas vezes são omitidas por medo, falta de palavras, ou por temer a crítica sobre assuntos tão delicados como estes é um ato não apenas de visibilidade mas de apoio às pessoas (homens ou mulheres, crianças ou jovens) que passaram por humilhação e violação da sua integridade.

Me perguntaram há cerca de um mês e meio de onde vinha essa “névoa obscura” que cobre meus textos, e foi durante o período em que me afastei para escrever algo muito mais pessoal (agora concluído, reunindo apenas força mental para reler, sonhei inclusive que escondia aquele curto livro dentro da parede e ele havia amaldiçoado a casa toda) que descobri não apenas a razão da existência dessa “névoa” ou o porquê de tais textos me agradarem tanto, como também algumas respostas que feriram a mim mesma mas ao mesmo tempo abriram-me os olhos para verdades sobre a minha existência que eu ocultava a fim de não precisar lidar. A verdade é que a obscuridade que se referem aos meus textos nada mais são do que relatos reais, vivenciados por mim ou ao meu redor. Filmes de terror assustam muito mais quando no rodapé aparece a frase “baseado em fatos reais”, o mesmo vale aqui, em tudo o que escrevo.

Me sugeriram de forma muito educada que eu deveria “parar de escrever textos como aqueles”. Posso responder somente que não tenho a intenção de permanecer omissa enquanto temas tão profundos ainda são de grande valor (pessoal) para mim e ainda servirem de retrato para outras pessoas que não possuem sua própria voz ou que, por algum motivo, são coagidas e sentem medo em se expor.

O ser humano que recomendou que eu parasse de escrever utilizou uma ótima palavra para descrever os meus textos, segundo ele, meus textos são “Soturnos”.

Sinto muito que minhas palavras te provoquem horror, mas eu vou continuar escrevendo.

– Rejane Leopoldino