#2 As representações da mulher na sociedade – Discurso físico e moral

[…] As mulheres que pareciam ser mais fracas por conta de suas funções, que exigiam menos força, foram vistas como inferiores aos homens.
– François Poullain de la Barre

Embora muito tenhamos herdado dos gregos e romanos na nossa cultura ocidental, não foram deles que principiou a fonte da misoginia. Ela de alguma forma já estava lá e apenas foi sendo replicada incessantemente em cada geração que construiu nossa civilização durante séculos.

Então, como de fato podemos supor que nos séculos que nos antecederam, a exclusão das mulheres em atividades não relacionadas à vida doméstica, tais como o exercício de vínculos empregatícios, liberdade financeira, direito de posse, exercício da voz, etc, contribuíram para deixá-las em situação de inferioridade em relação aos homens?

Para responder a essa pergunta me debruço em cima dos escritos deixados por François Poullain de la Barre, mais especificamente, sobre seu texto “Da igualdade entre os dois sexos, discurso físico e moral, onde vemos a importância de se desfazer dos preconceitos” escrito em 1679. Texto esse que nos traz um panorama histórico e elabora um cenário muito próximo à realidade da herança que herdamos e não deixamos de cultivar.


Se voltarmos no tempo, ao começo do mundo, nas primeiras civilizações, poderemos imaginar com facilidade que o relacionamento entre homens e mulheres era muito diferente do que a viria a se tornar anos depois. Homens e mulheres se dedicavam igualmente ao plantio e a caça, aquele que trazia mais fartura à família, claro, seria o mais honrado, e os homens sendo naturalmente mais robustos e mais fortes, possuíam lá alguma vantagem corporal sob as mulheres, uma vez que os incômodos temporários da gravidez as faziam precisar se ausentar das tarefas que exigiam delas maior força física, e quando os bebês nasciam, as mesmas precisavam se dedicar à amamentação e aos cuidados dos filhos. As mães então ficavam dependentes por um breve período dos seus maridos – se é que podemos presumir a existência de um laço matrimonial àquela época – os homens, então, com a ausência das mulheres, passaram a puxar apenas para si as tarefas do exterior.

As mulheres precisavam ficar reclusas em seus lares cuidando dos filhos e do interior. O homem -que era mais livre – saía para a caça e para as atividades exteriores, as mulheres cuidavam e educavam os filhos, realizando apenas tarefas mais simples, que não demandavam muito de sua força física, nem estimulavam o intelecto.

Os primeiros filhos e filhas cresceram, e passaram a não precisar tanto da mãe, a mulher então retoma aos poucos as suas atividades exteriores junto à comunidade, mas como em uma época tão remota não haviam métodos anticoncepcionais e para engravidar basta o sexo, é de se imaginar que as mulheres tinham muitos filhos, uns mal cresciam e outros já estavam a caminho, e quanto mais engravidavam, mais atreladas às tarefas domésticas ficavam. A organização doméstica, ainda que fosse crucial para manter a ordem e disciplina, não era tão nobre quando as demais atividades do exterior.

É fácil imaginar que os filhos seguiram os passos dos pais, da mesma forma que quando somos crianças aprendemos a reproduzir o que observamos. Os filhos homens seguiram os passos dos pais para fora do lar, em direção à liberdade. Já as filhas, reproduziram o comportamento recluso da mãe que se via obrigada a permanecer no lar para educar os filhos. As filhas não pensavam em sair, pois viam em seu pai e seus irmãos alguém que era forte para lidar com o mundo exterior por elas, e que seu lugar era em casa, pois em força física pouco podiam competir, visto que a delicadeza da gravidez poderia atingir-las a qualquer momento.

As comunidades se tornaram cada vez maiores e a civilização os atingiu. A contínua reprodução de comportamento recluso das mulheres que foi passada de geração em geração em detrimento de uma futura gravidez que podia ou não vir a existir, mas pela qual elas deviam estar preparadas, as impediram de aprender as tarefas do exterior, visto que pertenciam apenas aos homens, elas então, permaneceram na ignorância de seus lares, ignorando o mundo que havia fora das paredes.

O restante desta discussão continuarei no próximo capítulo dessa saga que busca compreender o passado do lento desenvolvimento do sexo feminino na sociedade.

– Rejane Leopoldino

#1 As representações da mulher na sociedade – o exercício da voz

Não nos esqueçamos de que as mulheres no Ocidente têm muito a celebrar.

– Mary Beard

Depois de tanto ler e pesquisar a fundo a participação feminina na literatura, filosofia, política e artes plásticas, cheguei a conclusões e me deparei com verdades sobre o passado que me geraram dor física. E como eu escrevo muito melhor do que falo, me parece adequado repassar todo o conhecimento que adquiri sobre a participação feminina na sociedade nestes meses que passei afastada estudando este tema. E eu não poderia deixar vocês sem a recomendação de algum livro, pois, como leitora e como um ser humano que escreve, é mais do que minha obrigação recomendar os livros que muito me abriram os olhos ao longo dessa jornada. Um deles é “Mulheres e Poder” de Mary Beard, um livro enriquecedor que explica o porquê do ódio contra as mulheres que tem voz.

Li diversos livros sobre o desenvolvimento da mulher na sociedade desde antes do nosso Anno domini e sobre como começou a ser moldado e aplicado o movimento de igualdade entre os sexos ainda no século XVI. Mas quanto mais eu leio, mais a história se repete: as mulheres não tinham voz ativa em todas aquelas épocas. Isso me obriga a refletir: quão lento foi o desenvolvimento da voz feminina? E o que motivou essa lentidão?
Bom, visto que muito herdamos dos gregos e romanos, comecemos por eles.

Na Odisseia de Homero, obra escrita a quase 2 milênios, Telêmaco, filho de Ulisses e Penélope, manda sua própria mãe voltar aos aposentos e retomar seu trabalho junto ao tear após Penélope pedir para que o bardo – que tocava as dificuldades vividas pelos heróis gregos ao voltarem para casa – começasse a tocar algo mais alegre. Telêmaco, descontente com o pedido de sua mãe, ordena que ela volte aos seus aposentos e afirma que:

“Discursos são coisas de homens, e meu, mais do que qualquer outro, pois meu é o poder nesta casa”.

Quando Telêmaco manda a própria mãe de volta para seu quarto, a obra de Homero não expressa apenas a soberania masculina sob a mulher, expressa também como os discursos e qualquer atividade relacionada à fala, eram associados apenas aos homens e que o tear e a roca, eram atividades de uma boa dona de casa. Uma forma mais antiga de mandar “calar a boca” e não só, teria partido daí, a antiga crença de que a posse da propriedade pertencia ao homem e somente a ele? “O homem da casa”?

Metamorfoses, obra de Ovídio, poeta romano, datada de aproximadamente 8 d.C, é uma das obras mais famosas e de grande influência da história e da poesia. Ilustres nomes como Shakespeare e até mesmo Picasso se inspiraram em suas obras. É difícil encontrar alguma outra obra que tenha exercido tanta influência nas artes plásticas ou na literatura ao longo de tantos séculos como Metamorfoses de Ovídio.

Contudo, vejam uma das formas em que a presença das mulheres nos contos e poesias eram retratadas. Deixo aqui o mito de Filomela, um dos contos de Ovídio em Metamorfose.
O conto narra o romance de Tereu e Procne, romance esse que acaba quando Tereu apaixona-se por Filomela, irmã de sua esposa. Ao negar entregar-se a Tereu, Filomela é violentada por seu cunhado e ele, para impedir que ela denunciasse o estupro, decide cortar a sua língua, porém, mesmo com a língua cortada, Filomela consegue denunciar a violência vivida para sua irmã Procne, esposa de Tereu, bordando uma mensagem em uma tapeçaria.

Shakespeare retoma essa ideia em Tito Andrônico, obra considerada a mais sangrenta de todas, possui um texto em que a língua da estuprada Lavínia é também cortada.

E Picasso também não fica atrás, esta é sua versão, de 1930, do estupro de Filomela.

Vejam como Ovídio continuou sendo retratado por homens de grande influência séculos depois de sua morte. As obras de Ovídio e Homero eram inspirações, leituras obrigatórias aos pensadores que viriam a seguir. As mensagens subliminares de que mulheres eram seres frágeis, que deveriam ser dominadas e subordinadas, empregadas nos contos destes e de tantos outros livros, reafirmaram através de séculos e gerações que o sexo feminino não possuia os culhões necessários para expressar-se em público e que sua voz estridente deveria permanecer em silêncio. Afirmação essa que foi repetida tantas vezes ao longo dos séculos que passou-se a acreditar que era verdade. Pensem em quantos homens nem tão ilustres que entraram em contato com as obras de Ovídio e Homero, viram em seus textos um comportamento que poderia ser facilmente reproduzido dentro do próprio lar. Comportamento esse que foi repassado ao longo de gerações, fortificando cada vez mais, a ideia de submissão feminina.

Simbolizar o silêncio com o corte da língua, não poderia ser mais apropriado. O discurso e a voz são os símbolos da liberdade de expressão, nossa voz é capaz de exercer influência sob outros, disseminar ideias, propagar conhecimento, quem fala, e acima de tudo quem se expressa bem, conquista um lugar na sociedade, passa a ser reconhecido pela oratória, é visto como um líder, pois líderes precisam ter boa oratória para poder expressar-se e conquistar seguidores.

Cortar a língua de Filomela e Lavínia é tirar delas a liberdade de expressão. Uma mulher muda não chamaria atenção, não seria sequer ouvida. E o que era um indivíduo que não se expressava naquela época, senão um animal? Emudecer um indivíduo é o mesmo que deixá-lo à margem da sociedade, ele perde participação civil pois não pode se expressar, e não foi isso que aconteceu por séculos com as mulheres? Dizer que hoje, as mulheres são capazes de se expressar e serem legitimamente ouvidas é reafirmar a conquista de um direito básico que por muito tempo nos foi negado. E ainda há quem diga, hoje, em tempos modernos do século XXI, que as mulheres falam demais. Falamos mesmo? Ou será que muitos estão apenas acostumados com a ideia do silêncio de Filomela?

-Rejane Leopoldino




Participação feminina no mercado de trabalho após a maternidade

Metade das mulheres grávidas são demitidas na volta da licença maternidade. Esse é apenas um dos vários resultados obtidos na pesquisa feita por Cecília Machado e Valdemar Pinho Neto, pesquisadores da FGV – Fundação Getúlio Vargas sobre as Consequências do mercado de trabalho na licença maternidade no cenário brasileiro.

Honestamente, eu não estou surpresa com o resultado principal da pesquisa, ela apenas comprovou o que nós mulheres já sabíamos: se quisermos ter filhos, precisaremos lidar com a incerteza de continuar ou não tendo nossos postos de trabalho para sustentar financeiramente a criança que colocamos no mundo – e tenham certeza que não colocamos sozinhas.

Um breve resumo da pesquisa:

Após 24 meses, quase metade das mulheres que tiram licença-maternidade está fora do mercado de trabalho, este padrão se mantém até 47 meses após a licença. Fora isso, a maioria das saídas do mercado de trabalho se dá sem justa causa e por iniciativa do empregador.

O grau de instrução e educação da mãe também influencia na porcentagem da queda de empregabilidade após a licença maternidade: trabalhadoras com maior escolaridade apresentam queda de emprego de 35% 12 meses após o início da licença, enquanto a queda é de 51% para as mulheres com nível educacional mais baixo. 
Basicamente o raciocínio por trás da diferença entre essas duas porcentagens é de que é mais difícil (ainda que possível) o empregador substituir uma funcionária que em razão de seu nível educacional superior está em cargos mais elevados e de tomada de decisões, do que substituir uma funcionária que ocupa uma posição mais baixa dentro da empresa devido sua pouca instrução, pois é possível encontrar com mais facilidade pessoas que desempenhem as mesmas funções que ela e que possuam o mesmo baixo nível educacional, tornando-a substituível dentro da empresa.

O estudo indica que, no Brasil, a licença-maternidade de 120 dias não é capaz de reter as mães no mercado de trabalho, mostrando que outras políticas (como expansão de creches e pré-escola) podem ser mais eficazes para atingir tal objetivo, especialmente para proteger as mulheres com menor nível educacional.

Pela lei, as trabalhadoras com registro em carteira têm estabilidade no emprego até cinco meses após o parto. Depois desse período, a estabilidade acaba e as mães podem ser demitidas a qualquer momento.

“Em muitos casos, as mulheres não retornam às suas atividades porque não têm com quem deixar os filhos pequenos”

diz Cecilia Machado, professora da FGV

Para o homem, ter um filho não reduz sua participação no mercado de trabalho. Na mesma faixa etária, 92% dos homens com filhos de até 1 ano continuavam trabalhando. Para os homens, a licença paternidade varia de cinco a vinte dias.

– Rejane Leopoldino