É por esse motivo que não escrevo mais poemas desde 2016.

Um amigo me perguntou após ler o meu blogue de cabo a rabo, o por que de desde o fim de 2016 eu não ter mais escrito poemas. Bom, aqui escrevo a minha perturbadora resposta mascarada de desabafo.


Pode ser uma novidade para vocês, mas o blogue existe desde dezembro de 2014. vejamos em 2014 eu tinha… 16 anos, estou com 21 agora, é faz tempo. Eu comecei escrevendo poesias, a única categoria do site era: “poemas”, não haviam outras categorias. Eu estaria mentindo se dissesse que as poesias eram boas, mas elas também não eram ruins, eram poesias adolescentes dedicadas aos meus namoradinhos. Vá… eu tinha 16 anos.

Eu continuei por mais dois anos escrevendo minhas poesias no blogue, elas foram melhorando e eu estava orgulhosa do meu progresso, já não eram sobre os namoradinhos, eram muito mais maduras. Até que em 2016, poucos dias depois de eu completar 18 anos, conheci uma jovem moça, que felizmente não me lembro do nome, metida a intelectual, com um ar de superioridade e a falsa maturidade dos seus 22 anos. A conheci dentro de um shopping na livraria da Saraiva onde eu estava sentada em uma das mesas escrevendo alguns versos, esta moça procurava um lugar para sentar pois todas as outras mesas estavam cheias, ela perguntou se poderia se sentar comigo, eu disse que sim e começamos a conversar, ela viu que eu estava escrevendo poesias, perguntou se eu gostaria de ler as poesias dela, eu disse que sim e ela tirou um caderno da sua bolsa e as mostrou para mim. Os poemas de fato eram ótimos, muito bem escritos, lembro de me sentir o patinho feio dos poetas quando ela pediu que eu mostrasse a ela os meus versos.

Quando ela leu o meu caderninho de poemas, não fez comentários sobre o conteúdo do que eu havia escrito, apenas arqueou uma sobrancelha e perguntou quais os tipos de “formas poéticas” que eu mais gostava de utilizar e eu perguntei com muita ingenuidade: “como assim?”. Ela riu da minha cara. Achou ridículo (e ela realmente utilizou esta palavra) eu não saber o que era um poema Dístico, Décima, ou que Sonetos são compostos por exatamente 14 versos. Eu me senti realmente humilhada com a risada dela. Eu só tinha 18 anos, era uma garota sensível que não estava preparada para sofrer deboche e ridicularização de uma pessoa desconhecida e metida a intelectual. Ela disse que os meus poemas seriam melhores se eu escrevesse como ela e começou a reescrever sem nenhum pedido meu ou autorização os meus poemas em uma folha avulsa de seu caderno, corrigindo a forma poética se esnobando para mim, eu me senti humilhada pela crítica negativa aos meus poemas juvenis, tão humilhada que eu não tinha forças na voz para argumentar, só queria sair dali e ir chorar em uma cabine do banheiro feminino.  Ficar sentada naquela mesa enquanto eu a assistia debochar dos meus poemas e “corrigi-los” sem nenhuma autorização, foi uma tortura. Primeiro porque eu permaneci em silêncio, chocada demais com o atrevimento da atitude dela, segundo porque o meu silêncio deu a certeza que ela precisava de que podia me esnobar o quanto quisesse que eu não seria capaz de contra atacar.

Depois de alguns minutos sob aquela tortura, eu tive um lampejo de amor próprio, peguei minhas coisas, me levantei da mesa sem olhar para a cara daquela moça e fui chorar no banheiro. Pelo menos eu saí da mesa com classe e elegância.

Eu estava trancada na cabine do banheiro chorando horrores e com muita raiva, joguei o caderno onde escrevia meus poemas na lixeira e em cima do caderno rasguei vários pedaços de papel higiênico até acabar com o rolo de papel da cabine e lotar a lixeira. Foi uma cena deprimente.

Passei um ano inteiro sem ler poemas, voltei a ler no início de 2018 mas nunca mais consegui escrever nem um versinho que seja. E olha que já tentei diversas vezes. Até hoje me sinto acuada e constrangida em sequer tentar escrever um poema, me parece uma escrita inalcançável, me sinto indigna, envergonhada, ridicularizada como se eles fossem reservados apenas aos seres humanos que sabem aos 18 anos o que é um poema “dístico”, ah, por favor… Não demorou muito para eu sentir vergonha de todos os poemas que eu já havia publicado no blogue, a humilhação que aquele ser humano me submeteu realmente me impactou negativamente e me fez acreditar que eles eram poemas horríveis, capazes de gerar asco, então, a primeira coisa que fiz depois de jogar meu caderno fora, foi ir para casa e deletar quase todos os meus poemas (salvo um ou dois), não queria que ninguém mais visse o que eu havia escrito. Hoje, os meus arquivos de publicações daquele ano no WordPress estão assim:

Capturar

“Desconhecido ou excluído” – frase repetida mais de 30 vezes, um embaixo do outro se referindo a todos os poemas que excluí do blogue.

Para mim, poemas nunca se prenderam às regras gramaticais e a licença poética sempre me pareceu ser muito mais do que apenas uma incorreção da linguagem permitida na poesia. Poesia é liberdade de expressão, o escritor se desprende da normatividade das regras gramaticais em busca de atingir seus objetivos de expressar o que sente. A poesia não é e nem deve ser engessada, dura, construída com cimento sob normas que poucos seres humanos obedecem. Se eu soubesse em 2016 o que sei hoje sobre poesia, com certeza não teria ficado em silêncio enquanto aquele ser humano debochava da minha ingenuidade. Mas não tem jeito, a praga foi jogada. Não consigo mais escrever poemas, sinto pavor em receber uma crítica. A categoria de “poemas” do blogue já não tem nenhuma poesia, apenas textos aleatórios.

– Rejane Leopoldino

 

Arqueofeminismo de Maxime Rovere

 “Tudo o que os homens escreveram sobre as mulheres deve ser suspeito, pois eles são, a um tempo, juiz e parte”.
François Poullain de la Barre (1647-1725)

Há um livro que indico imenso a leitura, ele chama-se “Arqueofeminismo” organizado por Maxime Rovere, livro este que me inspirou a escrever esse texto e com certeza, a escrever outros tantos e que reúne em um volume textos escritos por duas mulheres fabulosas, Marie de Gournay e Olympe de Gouges e que estão entre as maiores intelectuais dos séculos XVII e XVIII, assim como três textos escritos por homens, François Poullain de la Barre, Choderlos de Laclos e Nicolas de Condorcet, que defenderam a presença das mulheres nos campos políticos, intelectuais e da vida pública. Leiam, de verdade.


A história das mulheres na filosofia foi acobertada. Da antiguidade ao início do século XX a sociedade patriarcal européia reservou o estudo das letras e da filosofia aos homens. Esse monopólio da educação esforçou-se muito em manter as mulheres longe dos campos filosóficos, da literatura e até mesmo da política.
O  monopólio patriarcal não obteve sucesso. Ao longo da história, é possível encontrar vestígios de mulheres que contribuíram imenso para os marcos de sua época. São algumas delas: na Grécia, Temista e Hipátia, famosa neoplatônica; no mundo cristão há também Hildegarda de Bingen (1098 – 1179) e Cristina de Pisano (1364 – 1430); no mundo islâmico, Fatima bint al- Muthanna, (século XII) entre tantas outras mulheres, e se essas mulheres (que são exceções na história por terem conseguido se educar), não conseguiram dar uma voz maior aos seus pensamentos, é em parte porque na história da filosofia, a Grande Narrativa, entoa aos nomes de Sócrates, Platão, Descartes, Tomás de Aquino, Kant… como diria Maxime Rovere, ao criticar o patriarcado no campo da filosofia, “continua a ser uma história de homens, feita por homens e para sua própria glória”.

É tentar tapar o sol com a peneira achar que a história da filosofia se desenvolveu durante alguns milênios sem a presença das mulheres. Para ir contra a narrativa que esconde as mulheres que contribuíram no campo da filosofia, é preciso um ardo trabalho arqueológico para que seja possível reequilibrar a maneira como contamos a história da filosofia que recobriu as importantes contribuições trazidas ao pensamento pelas mulheres e pelas questões levantadas por elas.

– Rejane Leopoldino

 

Desafio Literário | O CHEIRO

Desafio Literário | O CHEIRO

O mesmo perfume, apenas mais mórbido do que antes.

De fato, devo estar a ficar muito velha e minha mente já começou a me pregar peças pela casa, pois é curioso como eu acordo e ainda sinto o aroma do café que você costumava coar todas as manhãs, mesmo que o bule já não esteja mais a ferver. É curioso como eu entro no nosso banheiro e sinto o perfume do seu banho quente, é curioso como eu ainda não tive coragem o suficiente para lavar sua roupa suja, porque sou fraca demais para aceitar tirar de mim esta fragrância que você me deixou.

É que a dor de saber que você trocou-me por um flerte com a terra necrotizante consome minha alma assim como os vermes que devem estar a te devorar neste momento.

Então eu continuo a usar sua colônia e a deitar-me vestindo suas roupas, para sentir o perfume daquele que dividiu uma vida inteira ao meu lado, e logo agora, em meio a esta velhice deplorável, resolveu partir, deixando-me viva e para trás.

Mas eu hei de sentir o perfume de sua pele novamente, ainda que já necrosada. Talvez eu a sinta ainda esta noite, assim que eu fechar meus olhos, inalando pela última vez o cheiro do seu casaco e expirar em direção à sua eternidade, o perfume mórbido que me deixaste.

-Rejane Leopoldino

via Desafio Literário | O CHEIRO

Muita gratidão por ter participado desse maravilhoso desafio literário promovido pela Maria Vitoria do Blogue Estranhamente ❤

A Luta de Kakenya Ntaiya contra o casamento infantil.

Eu tenho o privilégio de ter acesso à biblioteca virtual da National Geographic através do meu curso de inglês, e hoje eu estava lendo essa matéria incrível sobre Kakenya e sua luta contra o casamento infantil e achei que seria muito interessante compartilhar sua história com pessoas que talvez não a conheçam e não tenham o mesmo privilégio de ter acesso à matérias como essa.

O casamento forçado afeta cerca de 400 milhões de meninas no mundo todo, segundo a UNICEF. Lutando por uma mudança neste cenário está a queniana Kakenya Ntaiya, que inaugurou em sua cidade uma escola diferente. Lá as jovens aprendem inglês, matemática e sobretudo, a sonhar.
Prometida aos cinco anos de idade, Kakenya nunca aceitou sua realidade. Ela sempre acreditou que a educação era o melhor caminho para um futuro diferente para as meninas de seu país.

Capturar

Capturar 2
“Lyrica.” National Geographic Magazine, Sept. 2011. National Geographic Virtual Library, http://tinyurl.galegroup.com/tinyurl/8MLWq2. Accessed 23 Nov. 2018

Família de Mãe valente

Mãe valente foi Dona Amália, que teve seu marido morto em 1962 enquanto voltava para casa com quatro cabras que serviriam para a caprinocultura da humilde fazenda de sua família, durante o trajeto foi abordado por bandoleiros que o mataram e levaram os animais deixando sua família sem pai, marido e sem sustento.

Dona Amália encontrou o corpo do marido em decomposição três dias depois em meio a mata sendo sobrevoado por aves de rapina que pousavam e comiam seus restos mortais debaixo do sol quente. Com lágrimas nos olhos, afastou as aves de seu marido e sozinha o enrolou em uma manta e, com muito esforço, colocou seu corpo em cima do cavalo.

Quando trouxe o corpo do falecido marido de volta para a fazenda em Coroatá, encontrou o mais velho dos seus doze filhos que tinha apenas dezesseis anos sendo pressionado pela família do seu finado marido a vingar seu nome. -É o homem da família agora, pegue o cavalo e vá vingar o nome de seu pai- dizia o cunhado.

Dona Amália enterrou o marido nos fundos da propriedade, vendeu o gado e sua fazenda, juntou o dinheiro e meteu-se com os doze filhos dentro de um comboio caindo aos pedaços até Olinda em Pernambuco para reconstruir sua vida, deixou para trás o corpo do marido e Coroatá, sob a prece de que seus filhos não se tornariam assassinos como os de seu marido.

– Rejane Leopoldino