Eles não queriam que eu interferisse…

Ela acordou no meio da madrugada e não sentiu o marido ao seu lado, com um suspiro levantou-se da cama e andou pelo corredor escuro até chegar no escritório de sua casa onde encontrou seu companheiro sentado de pijamas na poltrona com uma xícara de café sobre a mesa enquanto escrevia incessantemente no computador. Todas as luzes do cômodo estavam apagadas, a luz forte do monitor era a única claridade do local. A esposa ficou alguns minutos em pé encostada no batente da porta e quando percebeu que o marido nem dera por sua presença… -“Ele está apenas a me ignorar, criança… não seria a primeira vez.”- Pois bem, depois de perceber que o marido então ignorava sua presença, ela descruzou os braços, desgrudou do batente e amarrou o robe que vestia com mais força na cintura, caminhou escritório a dentro até a janela que se encontrava atrás da poltrona do marido e afastou com os dedos a cortina branca para olhar a chuva que caía do lado de fora. Passaram-se alguns minutos olhando a chuva cair e ouvindo o “tec tec”  dos dedos dele no teclado, quando ela decidiu por tirar satisfações com a ausência emocional do seu marido escritor… -“Criança, deixe-nos em paz, vá escrever outro conto.”- Mas… –“Vá logo, já estou acostumada com a ausência dele.”– Tem certeza? eu posso escrever algo para fazer vocês conversarem entre si, um diálogo que resolva os conflitos no relacionamento de vocês… -“Não queremos que escreva para nos consertar, criança. Nossa história é perfeita na medida certa da indiferença presente no drama.”- Oh, certo. Bom… tudo bem, então… acho que vou indo. –“Adeus”– disseram-me o marido e a esposa em coro, não se dignaram a olhar para mim nem tirar os olhos do monitor ou da chuva que caía pela janela.

– Rejane Leopoldino

 

 

 

 

Um divórcio benéfico

Não sei quem saiu melhor desse divórcio:

Você que finalmente passará um tempo sozinho trabalhando nos seus distúrbios de agressividade ou ela que teve forças e se afastou de você.

Mas no meio disso tudo, eu só consigo pensar nela.


Eu imagino que enquanto ela arruma as próprias malas depois de ter assinado os papéis do divórcio, deve passar por sua cabeça todos os 28 anos de violência doméstica, deve se lembrar de quando as amigas a chamavam para sair durante a juventude e ela recusava pois você era muito ciumento e ela tinha medo de deixá-lo zangado ao vê-la exercer a própria liberdade. Enquanto ela faz essas malas, você pode ter certeza que ela sabe o quanto você tirou dela, o quanto sugou da sua juventude e o quanto sugou dela como mulher. Você tirou dela a possibilidade de se tornar uma mãe, tirou dela a dignidade, a liberdade, o respeito e hoje ela olha para trás e vê apenas anos jogados ao vento. Você a traía, agredia, limitava e impedia, ela sabe que aqueles anos foram um desperdício, com certeza não um desperdício total,  pois apesar de tudo ela evoluiu e aprendeu a ser forte e a se posicionar perante as suas ameaças, mas foi um desperdício emocional, porque agora, na casa dos quarenta e seis anos, ela vai ter que se reerguer e correr atrás da recuperação emocional de um relacionamento abusivo que durou tempo demais.

Ela fecha o zíper da mala e sai da casa que era o seu cárcere desejando que sua juventude volte para poder sonhar com um grande amor que possa, desta vez, ser saudável, que possa recomeçar e reconstruir seus sonhos do passado, porque agora depois de 28 anos de casamento, ela caiu na lábia da sociedade que a fez acreditar que só podemos nos apaixonar na casa dos 18, 20 ou 30 anos e que casamento é só para “gente jovem” e bem resolvida, enquanto divórcios dizem respeito apenas para gente “velha” que deu azar no amor.

O quanto ela perdeu divórcio nenhum restitui, mas agora que está livre, cabe a ela voar. Para onde? Pode ser para algum lugar no mundo, ou para os braços de um outro alguém, um amor não correspondido do passado, talvez, quem sabe. Já pensou? Pois sabe, eu ouvi dizer que ela se apaixonou durante esse casamento de 28 anos por alguém que teria sido um homem melhor para ela, mas ela não teve forças na época para o divórcio e reprimiu um sentimento que poderia ter mudado o rumo de sua vida. Ela tem 46 anos, mas não é tarde para amar de novo. É mais livre e desimpedida do que nunca.

– Rejane Leopoldino

 

Para pais ou figuras paternas

Foi quando me movi que percebi que eu havia absorvido e me tornado 70% do que você me criou para ser. Eu ocultei – sem me dar conta – minha própria porcentagem e me tornei a versão feminina da sua imagem. Não me leve a mal, eu não odeio isso, você como figura paterna me criou com as referências que acreditava serem as melhores para mim. E acredite, eu absorvi bem todas as melhores referências que me deu. Mas há uma pequena parte dos (seus) 70% em mim que eu gostaria de mudar. E a cada dia o faço. Os 30% meus que você não tocou, hoje são 40%, e a cada dia volto a ser mais minha. Mas sempre haverá seu reflexo em mim, com todos os melhores ensinamentos que você fez questão de compartilhar.

– Rejane Leopoldino


Como absorvemos as referências de nossos pais ( figuras paternas ).

Este fratricídio não me interessa.

Eu estava sentada com Carla, ela me perguntou sobre meu irmão e eu disse a ela que estava tudo bem, porém a verdade é que nosso relacionamento é bélico e não nos falamos de forma decente há muito tempo. Difícil dizer qual foi o estopim para nossa guerra, talvez tenha sido a agressividade dele ou a minha inconsequência adolescente, ou os dois juntos formando uma arma letal para atirar no peito de cada um. Mas a minha inconsequência adolescente do passado nunca possuiu poder bélico, não o feria da mesma forma que a agressividade dele. Tsc. Tola arma fraca, tão inútil e temporária. A adolescência foi embora e com ela a inconsequência e quando dei por mim compreendi que acreditar que se ama alguém que na realidade se teme, é uma péssima combinação. E eu que já não tinha mais armas fiquei indefesa no meio do campo de batalha, utilizando apenas a resiliência como um colete e me escondendo em trincheiras emocionais. A arma dele nunca me matou, mas eu sentia a dor das balas no colete e quando ele cansou de atirar sem matar limitou sua agressão à violência psicológica. Nunca consegui construir para mim mesma um capacete que me protegesse contra isso, até hoje não possuo defesa mental. Mas hoje eu já não deveria precisar destas defesas pois não há mais nenhum motivo para confrontos, contudo, mantivemos os velhos hábitos de guerra, ao menos ele manteve, desferir munições tornou-se uma prática habitual, tão frequente quanto o despertar, e eu já me rendi tantas vezes que acabaram as bandeiras brancas. É exaustivo, experimentarei a catarse no dia em que tirar o peso do colete e não houver mais munições que me obriguem a isolar-me em trincheiras.

– Rejane Leopoldino

Quem escreve está sempre se delatando

Sempre fico surpresa com o efeito que as ditas “férias” causam em mim. Fico menos ressabiada, menos introspectiva, saio com os amigos, viajo, ponho a cara no sol para enfim substituir a coloração pálida-de-escritório-em-São-Paulo por uma bronzeada-com-marquinhas-de-biquíni. Em resumo, minha inadequação ao mundo se torna um distante pesadelo. Converso mais, ando mais, sorrio mais, leio mais, porém, escrevo menos, seria a minha felicidade um bloqueio para a minha escrita? Porque confesso, não sei escrever sobre a felicidade, minto, até sei, mas não soa como eu mesma quando escrevo sobre ela, é como forçar a construção de uma identidade que não me pertence. A problemática, a solidão, a psicose e as melancolias me agradam muito mais, talvez por serem mais difíceis de se aceitar sentir. Ah, sim, garanto que possuo munição suficiente para escrever sobre elas.

Delícias das férias:

  • Viajar com os amigos
  • Usar pouca roupa (ou nenhuma)
  • Passar a maior parte do tempo descalça
  • Ler ( Ler muito)
  • Ficar com os músculos do rosto cansados de tanto rir/sorrir
  • Me conectar, de fato, com amigos que apenas havia me “conectado” através da internet.

– Rejane Leopoldino

Desafio Literário | O CHEIRO

Desafio Literário | O CHEIRO

O mesmo perfume, apenas mais mórbido do que antes.

De fato, devo estar a ficar muito velha e minha mente já começou a me pregar peças pela casa, pois é curioso como eu acordo e ainda sinto o aroma do café que você costumava coar todas as manhãs, mesmo que o bule já não esteja mais a ferver. É curioso como eu entro no nosso banheiro e sinto o perfume do seu banho quente, é curioso como eu ainda não tive coragem o suficiente para lavar sua roupa suja, porque sou fraca demais para aceitar tirar de mim esta fragrância que você me deixou.

É que a dor de saber que você trocou-me por um flerte com a terra necrotizante consome minha alma assim como os vermes que devem estar a te devorar neste momento.

Então eu continuo a usar sua colônia e a deitar-me vestindo suas roupas, para sentir o perfume daquele que dividiu uma vida inteira ao meu lado, e logo agora, em meio a esta velhice deplorável, resolveu partir, deixando-me viva e para trás.

Mas eu hei de sentir o perfume de sua pele novamente, ainda que já necrosada. Talvez eu a sinta ainda esta noite, assim que eu fechar meus olhos, inalando pela última vez o cheiro do seu casaco e expirar em direção à sua eternidade, o perfume mórbido que me deixaste.

-Rejane Leopoldino

via Desafio Literário | O CHEIRO

Muita gratidão por ter participado desse maravilhoso desafio literário promovido pela Maria Vitoria do Blogue Estranhamente ❤

Bizarrices

Pode parecer estranho, mas eu desenvolvi uma certa peculiaridade com as fotografias.

Quando alguém tira uma foto eu imediatamente busco a figura do fotógrafo por trás da imagem. A sombra do fotógrafo, ou o reflexo no vidro, água, janela… Adoro quando fotógrafos tiram fotos de janelas, eu comumente vejo através do vidro o reflexo do fotógrafo que saiu sem querer na foto, a segurar a câmera em frente ao rosto. Como se fosse uma imperfeição na foto, um acidente fruto de desatenção, um erro belíssimo.

E gosto muito, dá mais humanidade à fotografia.

-Rejane Leopoldino

E ela foi essa mulher.

Maria, entenda que como mulheres precisamos assumir uma postura firme, não apenas para sermos devidamente respeitadas e valorizadas nesta terra moribunda, não, definitivamente não apenas, mas para estarmos à frente da família quando os homens fraquejarem diante dos próprios demônios. -disse enquanto trançava o cabelo da filha- Eu como mulher sempre precisei durante toda a minha vida engolir comentários sexistas, reafirmar meus valores, minha inteligência e meus ideais perante a sociedade para conseguir o mínimo de respeito, isso me fez uma mulher forte, independente e que não teme os desaforos dessa vida. Mas veja, seu pai nunca precisou engolir estes desaforos, ele cresceu na sombra do próprio pai e em seu convívio social bastava ter um pênis no meio das pernas para conseguir respeito. Quando eu conheci seu pai, ah… ele era tímido, medroso e acanhado, mas sempre teve bom coração. -terminou a trança e fitou os olhos de sua filha pelo reflexo do espelho- Foi após o casamento que eu percebi que ele precisava de uma presença feminina ao seu lado, uma presença que lhe desse forças e mostrasse como bater de frente com a vida, que lhe mostrasse como se reerguer, ter resiliência e levantar a própria voz. Se hoje seu pai é visto como um grande homem é porquê eu estive ao lado dele desde então.

– Rejane Leopoldino

Era o estranho conforto da solidão

Sabe, Joseph, minha meta quando criança -lá pelos meus 6 anos– era passar despercebida pela vida. A regra era clara, se ninguém sabe quem sou, ninguém sente minha falta. Fazia sentido. Mas eu cresci e sem perceber ou fazer questão disto, começaram a me notar, e quando dei por mim várias pessoas já sabiam meu nome e eu era emocionalmente importante para muitas delas. Isso arruinou meus planos, Joseph, veja que agora, caso eu deseje me despedir desta terra, tenho várias pessoas à quem dizer Adeus. E o mais terrível, Joseph, é que a despedida irá doer em mim também.

– Rejane Leopoldino

A minha indignação é o melhor título.

Ele irritou-se com a filha por telefone, ela deixou de fazer algo ou fez pela metade e quando ela desligou ele disse para mim que devia ter nascido Mulher, eu perguntei –Mas por que?- E ele respondeu -Há muito peso nas costas em ser Homem. Mulheres tem menos comprometimento e responsabilidades.- E ele disse isso para mim, que sou Mulher. Acho que ele não tem em mente que em sua própria empresa, 62% dos seus funcionários são Mulheres e apenas 38% são Homens.

– Rejane Leopoldino