A Luta de Kakenya Ntaiya contra o casamento infantil.

Eu tenho o privilégio de ter acesso à biblioteca virtual da National Geographic através do meu curso de inglês, e hoje eu estava lendo essa matéria incrível sobre Kakenya e sua luta contra o casamento infantil e achei que seria muito interessante compartilhar sua história com pessoas que talvez não a conheçam e não tenham o mesmo privilégio de ter acesso à matérias como essa.

O casamento forçado afeta cerca de 400 milhões de meninas no mundo todo, segundo a UNICEF. Lutando por uma mudança neste cenário está a queniana Kakenya Ntaiya, que inaugurou em sua cidade uma escola diferente. Lá as jovens aprendem inglês, matemática e sobretudo, a sonhar.
Prometida aos cinco anos de idade, Kakenya nunca aceitou sua realidade. Ela sempre acreditou que a educação era o melhor caminho para um futuro diferente para as meninas de seu país.

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“Lyrica.” National Geographic Magazine, Sept. 2011. National Geographic Virtual Library, http://tinyurl.galegroup.com/tinyurl/8MLWq2. Accessed 23 Nov. 2018

Ser “Alguém” – Crescer e aparecer ou pegue um peixe e o force a subir em uma árvore.

Você está inquieta hoje, o que passa? – perguntou Juan cochichando colocando seus cadernos sobre a mesa da biblioteca, sentando-se ao meu lado após observar minhas pernas que não paravam de balançar e meus dedos fazendo malabares com a caneta. –Estou revoltada, Juan. Revoltada com as injustiça da vida, da sociedade, será que só eu as vejo? – Me debrucei na mesa da biblioteca apoiando meu queixo em cima do livro “O Ócio Criativo” de Domênico De Masi, continuei: olhe para nós, Juan. Estamos bem, não? 20 anos, vida sexual ativa, bebemos quando queremos, transamos quando podemos, somos universitários vindo à biblioteca estudar para as provas… -Falando em provas – Juan me interrompeu -Você teria aí algum resumo de finanças? -Xiu! Não me interrompa!- eu disse um pouco alto demais para uma biblioteca, a bibliotecária me olhou com ar de reprovação por cima dos seus óculos de grau retangulares. –Desculpa…- disse Juan abrindo seus livros na mesa -Enfim, como eu estava dizendo, estamos bem, não? Aparentemente está tudo ótimo, mas eu estava conversando com uma amiga, jovem, bonita, criativa, extremamente criativa, 20 anos e ela me disse que por vezes se sentia fracassada. Veja só, fracassada com 20 anos. Tem tanto jovem foda, Juan, jovens fodas que estão deixando seus talentos de lado para poder se encaixar em um cubo pequeno e mal projetado chamado “ser adulto”. É uma pressão tão grande para se encaixar e ser visto como “Alguém” na sociedade que os jovens estão deixando seus sonhos morrerem apenas para se tornarem operários dessa cidade, sentem-se fracassados por não atenderem às expectativas dessa vida urbana. Tanto potencial, Juan, potencial jogado no lixo. Pegue um jovem cheio de sonhos, coloque-o na sociedade, em dois dias ele sofrerá com a pressão de concluir uma faculdade, arrumar um trabalho que seja considerado por todos “decente”, se for mulher será pressionada a ser mãe. Ele sairá de lá retalhado, sonhos picotados, um desperdício! Ninguém nasce querendo ser advogado, sua faculdade e profissão é definida de acordo com sua classe social que determina se você poderá ou não ter estudo o bastante para entrar em uma faculdade pública como eu e você, ou ter dinheiro o bastante para pagar por uma.  Busca incansável pelo “Ser Alguém”. Sabe, não existe faculdade para alguns sonhos. Me diga, Juan, o dia em que eu me rebelar, o dia em que eu sair por aí sem estabilidade e segurança financeira, só com o meu mochilão, um caderno e uma caneta, o dia em que eu não quiser ter filhos e desejar viver no meio do mato, viajando o mundo do jeito que der, fazendo trabalho voluntário ou pedindo hospedagem em vilas caiçaras, só escrevendo sobre os lugares que visitei. Juan, quando esse dia chegar, você ainda irá me considerar “Alguém”? – perguntei por fim. -Você sempre será “Alguém” para mim, minha amiga, aliás, você só precisa ser alguém para as pessoas certas, as outras ainda não te conhecem.- disse ele

– Rejane Leopoldino

Conscience

Sentei com Conscience no 89º Coffee Station. Eu pedi um café, ela nada. Ela me observava despejar um sachê de açúcar no café. Levei a xícara à boca. Não estava doce o suficiente e despejei outro sachê de açúcar na bebida. –Tem ido ao psiquiatra?- ela perguntou, evitei a pergunta e comecei a rasgar em pedacinhos os papéis dos sachês, dei outra golada no café e ela me viu levantando a mão para alcançar mais um pouco de açúcar. Segurou minha mão no ar. -Acho que já está bom de açúcar.- ela disse –O café não adoça.– Eu rebati -Você que está muito amarga.– ela respondeu. Soltou minha mão e apoiou os cotovelos na mesa. Eu me inclinei para frente. -Sabe, Conscience, na semana passada me disseram que sou uma pessoa calma, livre de agitações…- eu disse -Bom, lamento informá-la mas quem te disse isso tirou uma conclusão muito precipitada. Você não é nem um pouco calma, pelo contrário, aí dentro...- apontou com o dedo indicador para a minha cabeça batendo na minha têmpora três vezes –Ah… aí dentro há um circo pegando fogo. Você é apenas contida e nenhuma palavra te definiria melhor: Contida.- Suspirei e me reclinei na cadeira da cafeteria. -Há algo que está te incomodando, querida?- Ela perguntou. -E por que então sou tão “contida”?- perguntei temendo a resposta. –Que pergunta mais retórica, criança. Você cresceu tendo como base o silêncio feminino induzido, quieta e muda como foi criada para ser, apenas agora está aprendendo a falar.- Olhei para Conscience. -Não acha que estou aprendendo a falar de uma forma muito violenta?– perguntei -Acho que você deveria aprender a falar mais com seus amigos e menos comigo.- ela disse. Fechei meus olhos e respirei bem fundo dando um outro gole no café. -Já está me expulsando? É melhor assim, criança, mas antes me responda: como andam suas alucinações?- Quando abri os olhos, Conscience já não estava mais lá.

– Rejane Leopoldino

Carne quente e pele vermelha

Você não devia ter me batido no nosso próprio quarto
Passei a não sentir-me segura na cama onde dormíamos.
Passei a temer entrar em casa
E quando entrava sentia-me reprimida e sufocada
O casamento tornou-se um ar denso
Difícil de se respirar

Relutei em deitar-me contigo
Adquiri horror daquele colchão
Eu fugia para a sala
Deitava no sofá
Sentia-me segura longe de você
E com o cachorro ao meu lado

Mas você sentiu minha falta na cama
E foi buscar-me na sala
Me pegou pelos pulsos
Me arrastou para o quarto
Enquanto eu chorando pedia que não fizesse isso
Pedia que me deixasse sozinha
Você dizia que eu era sua mulher
E que aquela cama era o meu lugar
Eu freava com os pés enquanto você me arrastava
Eu tentava me soltar das suas mãos

Segurava nas quinas das paredes e no corrimão da escada
Nosso cachorro começava a rosnar para você
O pobre cão tentou me defender da sua violência
Mas você o via como uma criatura inferior e fraca
Assim como via a mim
Quando ele avançou para te morder
Você o chutou com força para longe
O cachorro encolheu-se em um canto
Chorando de dor
E logo eu seria a próxima

Você conseguia me arrastar para o quarto
Entre tapas que me humilhavam
Me jogou para dentro e trancou a porta
Eu fugia da cama, me escorava na parede
Pedindo para que por favor você não me deitasse lá
Que eu não queria
E que me deixasse sozinha

Mas para você eu era sua “mulher”
E te devia presença
Você me pegou do chão e jogou na cama
Dizia que acabaria logo se eu parasse de chorar
E que eu iria até gostar de ser “mulher” novamente

Se jogou em cima de mim
Mesmo eu pedindo para você parar
Usava sua força para me segurar
E a essa altura eu já estava muito fraca
exausta de tentar lutar contra quem devia ser meu marido

Eu chorava com força enquanto você me virava de costas
Levantava minha saia e afastava minha calcinha
O bastante para ter acesso a mim
Me prendia com suas pernas embaixo de ti
Desisti de lutar quando ouvi seu zíper abrir

Você passou a mão pela minha vagina
Eu não estava molhada para você
Disse que eu era inútil desse jeito
Então cuspiu na minha intimidade
Me violou como mulher e como esposa

E enquanto metia-se em mim
Perguntava se eu estava gostando
Meu choro e lágrimas não te davam a resposta
Não a que você queria ouvir

Você gozou em cinco minutos
Porque gostou da submissão
Da humilhação
Me abandonou na cama
E ofegante se afastou de mim

Porque Mulher para você é isso
Carne quente e pele vermelha


 Infelizmente eu tenho uma mente cruel demais, muito soturna que não me deixa em paz  e me atormenta até que eu escreva sobre o que me causa angústia e medo. Eu tenho medo que uma cena como essa ocorra comigo, com você, com ela, com quem seja da mesma forma que ocorre com milhares de mulheres. 

– Rejane Leopoldino

 

 

 

Cartas secretas

Querido,
você não me viu florescer. Quando me encontrou eu já estava adubada, com as pragas controladas e vários botões esperando a próxima primavera e eu não poderia deixar meu jardim por nada. Ainda que seu céu seja mais azul, o brilho das minhas flores são o reflexo de anos de paixão e dedicação à um campo onde antes não nascia nem uma trepadeira.
Mas espero ver seu céu um dia, de modo que eu não precise abandonar o meu campo. Então quero que saiba que embora toda essa estação esteja sendo muito agradável, eu não a passarei com você.

Talvez uma próxima.

– Rejane Leopoldino

 

Sangue do meu sangue mas não somos parecidos.  

Você queria controle, mas controle sobre mim eu nunca dei e até hoje quer submissão quando eu só lhe dou provas de “rebeldia”. É por isso que surtava em agressividade? Porque eu era a “rebelde” e não obedecia suas ameaças? Não leve a mal, mas com o tempo sua agressividade me calejou, hoje em dia há pouca violência que me surpreenda e nenhuma ameaça tira mais meu sono. Suas amarras tornam-se cada vez mais frouxas para mim, não são capazes de me prender e acredito que a ideia de me ver voar sozinha faz com que você se sinta abandonado, deixado para trás. Ora, se suas asas já caíram não cobice as minhas que estão nascendo, pois eu não vim a este mundo para permanecer amarrada ao seu ninho.

– Rejane Leopoldino

Covardia – Sim, mana, ele é ridículo.

Eu esperava o elevador quando ouvi saindo de dentro dele a voz de um casal discutindo –Você está com ciúme por nada! Para com isso! – a moça dizia para ele já com a voz desgastada. O elevador chegou no andar, eles não sabiam que eu estava lá. -Quer que eu pare? Beleza então, eu vou parar. – disse com uma voz agressiva. Ele empurrou a porta do elevador com muita força e eu que estava do outro lado a segurei rapidamente por reflexo antes que me atingisse e fiquei a encará-lo como quem pergunta da onde vinha tanta agressividade com uma mulher, eu o vi apertando o braço da companheira como se fosse arrastá-la. Ele fez uma cara de espanto quando me viu. Eu não dava espaço para ele sair do elevador, segurava a porta enquanto meu corpo o impedia de passar. Minha expressão exigia uma explicação a respeito da atitude dele, com certeza dentro daquele transporte férreo ele tinha a ousadia, a coragem de ser altamente repugnante com a mulher que ele achava que tinha como propriedade, mas ao ser confrontado do lado de fora pela minha presença ele ficou miúdo, soltou o braço da moça, encolheu os ombros, a ousadia dele durou até a página dois quando viu que sua companheira não estava sozinha. Ele que antes gritava com ela no elevador, abaixou o tom de voz, abaixou a cabeça olhando para o chão e me pediu “com licença” quase aos sussurros para eu deixá-lo passar. Não me movi. Continuei a encara-lo por mais alguns segundos, primeiro porque ali eu iria ensiná-lo que ele não é o dono de ninguém, segundo que para passar por mim ele teria que abaixar MUITO a bola e ser trinta vezes mais educado do que estava sendo com sua companheira, e terceiro porquê fiquei parada na sua frente sem dizer uma palavra tempo o suficiente para mostrar a ele quem tem de verdade o controle daquela situação. Ele passaria se eu quisesse, não quando ele tivesse vontade, com a minha atitude de não deixá-lo passar eu quis tirar dele (sem dizer uma palavra sequer) a ilusão de controle que ele achava que tinha sobre a companheira, tirei dele a falsa sensação de poder. Quando cansei-me de ensinar bons modos para aquele ser humano ele já parecia um pênis que perdera a ereção, morto, pequeno e sem masculinidade. Dei um passo para trás quando ele entendeu o quão miserável era aos meus olhos e o deixei passar. A moça demorou um pouco mais para sair do elevador. –Desculpa por isso.- Ela disse -Ele é ridículo.– eu apenas concordei.


O nome disso é covardia. Vejam que foi só o meu vizinho ser encurralado por outra mulher (eu) que a masculinidade dele ficou do tamanho de um grão de bico. Talvez menor. Falo a verdade, a melhor expressão que o define naquele momento é a de um pênis sem ereção, pênis sem ereção e encolhido.

Juntem-se, manas. Coragem, não tenham medo, a violência doméstica é pura covardia.

– Rejane Leopoldino

 

 

A Boca Chama – já devem ter ouvido isso dos seus avós.

Quando digo que sinto medo da escrita ou que ela me apavora não me refiro apenas à imersão em si mesmo que torna-se consequência deste ato, me refiro ao medo do carma como uma causalidade que não pode ser evitada.

Escrever sobre relacionamentos abusivos – e quem sabe um dia me encontrar em um novamente.

Escrever sobre assédio – e ser assediada novamente.

Escrever sobre abandono paternal – e meu futuro marido acabar por fazer o mesmo que meu pai.

Escrever sobre violência doméstica – e meu futuro marido me agredir.

Escrever sobre abuso sexual – e quem sabe, no futuro, eu acabe por ser estuprada, mais uma, na longa lista de vítimas.

“A boca chama” e não consigo calar-me pois silenciar esses temas é omitir a história, não apenas minha, mas de muitas pessoas que passaram por isso ou outras situações, quem sabe, ainda piores. Não me considero uma pessoa corajosa por escrever sobre esses assuntos, na verdade, é com muito medo do carma e do que pode acontecer comigo e com aqueles a minha volta que abro o zíper da boca.

– Rejane Leopoldino

Bem-vindo ao meu pesadelo

É um castelo de madeira marrom na subida da antiga rua onde eu morava quando criança, não tem portas, apenas janelas que ficam muito altas. Eu paro em frente ao castelo e em uma das janelas um homem que julgo ser meu pai me observa. Então o castelo começa a pegar fogo, um fogo que se alastra rapidamente por toda a superfície de madeira, pessoas descem a rua desesperadas. Eu a assisto queimar, meu pai some da janela. Não emito um único som nem movimento, não pisco, expressão facial neutra, o incêndio não me causa nenhum incômodo, não possuo empatia pelo homem que está lá dentro. O irmão mais velho chega, põe a mão em meu ombro e com a mesma neutralidade no rosto que eu, me ajuda a dar às costas e me leva para longe do castelo em chamas. Enquanto me afasto, não me digno a olhar para trás.

O mesmo sonho desde os seis anos.

– Rejane Leopoldino

Miriam – Mãe.

Acredito que como filhos olhamos para as nossas Mães com um carinho fodido. E aqui eu não crio regra, Mãe não é só quem dá a luz, em muitas famílias é o pai, os tios, os avós… Na minha família foi assim, depois da morte da minha quem vestiu a saia e me criou desde os 6 anos foi meu irmão mais velho que assumiu todas as responsabilidades de uma Mãe para com uma criança. Então, só porque recebi a visita de uma joaninha, este texto será sobre Mães (em especial a minha porque cara, minha Mãe era foda, no melhor dos sentidos, e é muito difícil para mim escrever sobre ela.)


Meu irmão veio primeiro para esse mundo e eu fui fruto de um segundo casamento de Mamãe, tem uma foto muito bonita dela ainda grávida de mim, barrigão, com o umbigo de fora e atrás dela tinha o terreno onde ela estava construindo com as próprias mãos a nossa casa durante a gestação.

Minha Mãe era aquela mulher que botava todo mundo para correr, vestia as calças, batia no peito e falava “Eu vou fazer esta merda”. Ela trabalhava pra caralho para poder me dar tudo, administrava o próprio salão de beleza, fazia seus artesanatos e ainda arrumava tempo para cuidar do lar e me ajudar com as lições de casa enquanto o meu pai era um encostado ou “embuste” como diriam atualmente, “homem” que nunca colocou um leite na mesa. Cara, minha Mãe era foda, uma Mulher “da porra”.

Ela gostava de uma cerveja e um cigarro, todo mundo tem seus vícios. Eu odiava o cheiro e escondia o cigarro dela pela casa, de baixo do sofá, no quintal, dentro da parede… Tem uma foto ótima onde nós duas estamos sentadas em uma mesa de madeira que ficava no quintal, ela segurando um cigarro em uma mão e na outra um copo de cerveja enquanto ta rindo da minha cara emburrada por ela estar fumando.

Mas minha Mãe também era bruta, pensa em uma Mulher nervosa, cruzes. Eu apanhava para um caralho antes mesmo de aprontar alguma coisa, tudo perto dela virava artilharia, aquela Mulher já me bateu com vassoura, com colher de pau, escumadeira, os clássicos cinto e chinelo, até com cabo de energia eu já apanhei. Ela também não levava desaforo para casa, se peitasse minha Mãe ela brigava no meio da rua mesmo, Mulher bem porra louca.

Mas houve uma noite em que eu estava brincando no quintal e ouvi uma gritaria vindo de dentro da casa, entrei correndo e foi então que eu vi meu pai (e não sei o que o motivou a cometer tal ato) batendo e tentando asfixiar minha Mãe no chão na cozinha, montado em cima dela com as mãos em seu pescoço. Eu desesperada tentava apartar a briga, joguei alguns objetos no chão a fim de chamar sua atenção, acho que eram pratos, não me lembro, mas ele não se afastava. Foi então que me meti entre eles, só quando o puxei pelo pulso (com a ridícula força de uma criança) tentando tirar suas mãos do pescoço dela foi que ele parou. Largou eu e minha Mãe no chão da cozinha, cuspiu algumas palavras que não me lembro e saiu de casa com ódio nos olhos. Foi a última vez em que o vi e a primeira vez que eu soube o que era violência doméstica e abandono paternal.

Minha Mãe se ergueu, limpou o rosto, me pegou no colo e disse que “aquele não homem não entra mais aqui”. Chamou meu irmão mais velho e ele deixou a casa onde morava com a namorada para cuidar de nós duas. Minhã Mãe se livrou de tudo o que pertencia ao meu “pai”, deu fim, jogou no cú do mundo. Ela mudou tudo em volta dela. Com a ajuda do meu irmão ela trocou a fechadura, reformou a casa, começou um tratamento pra parar de fumar, fez tudo o que estava ao seu alcance, mudou radicalmente as nossas vidas. Um mês depois ela foi encontrada morta perto de um córrego. Dessa vez quem me pegou no colo foi meu irmão, me afastou daquele lugar, das pessoas tóxicas que nos cercavam e me deu uma nova vida mesmo cheio de defeitos e sem saber como criar uma criança. A partir daí foi ele quem vestiu a saia de Mãe.

A palavra Mãe diz muita coisa e para mim não há palavra mais bonita do que essa. Mãe é quem cuida, é quem bate no peito, quem enfrenta o mundo quando você não pode fazer isso por você mesmo. Mãe é mandar todo mundo para a casa do caralho quando precisa pensar no pequeno(a) em primeiro lugar. Eu tenho certeza que vocês também tem uma pessoa muito foda e guerreira na vida a quem podem chamar de Mãe. Seja o pai, os tios, os avós, os irmãos ou ainda alguém que não tem laço sanguíneo nenhum, mas te acolheu e te criou com muito amor e carinho e fez tudo por você.

Ah sim, estava me esquecendo de explicar a relação da joaninha com esse texto. Pois é, recebi a visita de uma joaninha o que é bem raro tendo em vista que estou no centro de São Paulo e não há muita natureza por aqui. A lembrança mais feliz que eu tenho da minha Mãe é de um dia de manhã quando fomos até o quintal e ele era cheio de plantas, tínhamos até uma horta de alface e em um cantinho havia um ninho cheio de joaninhas, a gente sentou na grama e ficamos brincando com elas, ela pegava as joaninhas e colocava na minha mão, eu ainda com muito medo ficava apavorada com aquelas bolinhas vermelhas andando em mim e ela se divertia muito com o meu pavor, até que eu peguei carinho por elas e não queria sair mais de lá. As memórias de uma criança são muito bagunçadas, mas acredito que essa lembrança tenha sido de poucos dias antes da sua morte.

– Rejane Leopoldino