Curto conto de uma noite em um Prostíbulo.

Ele ficava por perto, rondando, sondando, a observando de longe por semanas dentro do prostíbulo sem emitir nenhuma palavra. Todas aquelas trocas de olhares mudos. Claramente obcecado, enciumava-se quando ela subia para os aposentos com outro. Ganhar seu dinheiro. É a vida dela, nada podia fazer a respeito. Nenhuma outra garota o interessava, tinha o hábito de sentar-se em uma das poltronas de couro escondido entre a luz vermelha do ambiente e cronometrar no seu relógio de pulso o tempo que ela passava com os outros cavaleiros. Obcecado, mas nunca a contratou, nem por 10 minutos que fosse, seu prazer era assisti-la ser cortejada por homens que não pareciam ser tão interessantes e inteligentes quanto ele. Bebia pouco, o bastante para sentir calor e afrouxar a gravata. Uma noite recebeu além da sua bebida um bilhete em papel sem pautas, letra itálica.

Querido,

Ou me fode ou sai de cima. 

Esses impasses não combinam comigo, se agregue à mim, resquícios seus não me satisfazem e pequenos sinais da sua presença não são o bastante. Não se engane, não estou pedindo para ser sua amante, apenas se decida. 

Ou me fode ou sai de cima. (Por favor, me fode)

– Rejane Leopoldino

Chaos de la modernité e o amor líquido de Zygmunt Bauman, duas revelações em uma semana conturbada pelas relações sociais.

Refletindo sobre os acontecimentos dessa semana me dei conta de como a internet provoca um mal entendido nas relações sociais.

Comecei a me corresponder com uma colega francesa a pouco tempo pelo Instagram e conversamos frequentemente, porém houve um episódio essa semana que estamos chamando de “Chaos de la modernité ” (caos da modernidade).

Como eu disse, estamos nos correspondendo com frequência e alguns dos amigos dela apareceram para mim como sugestão de “Seguidores”. Inocentemente, eu entrei em um desses perfis do Instagram a fim de ver quem era essa pessoa que participava da vida social da minha colega francesa. Perfil público, olhei fotos, “Stories” e me dei conta de que era o namorado dela. Um belo casal, mas não curti nenhuma foto nem comecei a segui-lo pois seria muito deselegante da minha parte, principalmente por nem sequer conhecê-lo, sai do seu perfil e fui viver minha vida. Pois bem, no dia seguinte, enquanto conversava com essa minha colega ela me perguntou da onde eu conhecia o namorado dela. E eu fiquei intrigada com a pergunta: ora, não o conheço de lugar algum. Então ela me disse que enquanto estava mexendo no celular do seu companheiro observou que eu havia visualizado o Stories dele. Devo dizer que o clima de -essa brasileira está me seguindo e stalkeando todos da minha vida- foi bem tenso e desagradável. Eu não estava “stalkeando” foi uma coincidência moderna uma pessoa muito ligada a ela ter aparecido como sugestão de seguidor no meu perfil e eu olhado as suas fotos na inocência.

Após eu explicar toda a situação e deixá-la segura de que eu NÃO SOU nenhum tipo de psicopata que quer saber de toda a vida dela incluindo a do namorado e do papagaio, começamos a discutir sobre como essa situação moderna é frágil.

Zygmunt Bauman, autor do livro (e aqui deixo uma indicação de leitura) Amor Líquido, investiga de que forma nossas relações tornam-se cada vez mais “flexíveis”, gerando níveis de insegurança sempre maiores. Uma vez que damos prioridade a relacionamentos em “redes”, as quais podem ser tecidas ou desmanchadas com igual facilidade e frequentemente sem que isso envolva nenhum contato além do virtual, não sabemos mais manter laços a longo prazo.

Para Zygmunt, a modernidade líquida em que vivemos traz consigo uma fragilidade dos laços humanos a qual ele chama de “amor líquido”. A insegurança que estimula desejos conflitantes de estreitar e afrouxar laços. Esse livro busca esclarecer de que forma o homem “sem vínculos” se conecta com outros seres humanos.

Em seu primeiro capítulo ele discorre sobre o “apaixonar-se e desapaixonar-se” em meio a tanta fragilidade com que nos conectamos. E assim como Zygmunt fala sobre um trecho que Charles Baudelaire apresentou a seus leitores o Le spleen de Paris, eu o parafraseio:
Que pena. Não fosse por isso, eu gostaria de escrever esse mesmo preâmbulo, ou um parecido, sobre o texto que segue. Mas ele o escreveu e só me resta citá-lo.

O amor pode ser, e frequentemente é, tão atemorizante quanto a morte. Só que ele encobre essa verdade com a comoção do desejo e do excitamento. Faz sentido pensar na diferença entre amor e morte como na que existe entre atração e repulsa. Pensando bem, contudo, não se pode ter tanta certeza disso. As promessas do amor são, via de regra, menos ambíguas do que suas dádivas. Assim, a tentação de apaixonar-se é grande e poderosa, mas também o é a atração de escapar. E o fascínio da procura de uma rosa sem espinhos que nunca está muito longe, e é sempre difícil de resistir. – Zygmunt Bauman

Ele descreveu em poucas palavras como atualmente somos atraídos pelo desejo do que podemos ter sem a responsabilidade de manter. Sentimentos que corremos atrás para nos desfazer com facilidade quando convém ou o “cativar por divertimento”, como descrevemos eu e minha colega francesa na nossa conversa anterior.

Chegamos ao conceito de “cativar por divertimento” quando olhamos para as relações que são construídas por essa fina “Rede Social”. Nós temos a tendência de passar a melhor impressão de nós mesmos pois nossos defeitos estão resguardados por muros como distância, idioma, falta de familiarização, etc. Então acabamos por cativar naturalmente e sem esforço algumas pessoas com quem nos comunicamos, mas a falta da necessidade de manter a pessoa cativada após um período de tempo transforma essa relação em algo descartável, como se a facilidade de cativar alguém e se desapegar da mesma pessoa estivessem em pé de igualdade na mesma balança, como atitudes fáceis e sem valor emocional. O que uma vez estando na qualidade de cativar pessoalmente, não seria tão simples assim. Estar cara a cara com alguém, fisicamente, fora do mundo virtual é expor seus defeitos sem precisar dizer uma palavra sobre eles, o outro percebe, através da observação do comportamento tudo o que pode ser considerado um defeito. E é daí que surgem as inseguranças, e é por conta das inseguranças que acabamos preferindo nos relacionar através dessas “Redes Sociais” pois essas redes nos dão o anonymat des imperfections (anonimato das imperfeições como descreveu minha colega).

E não apenas isso, ao longo do livro são abordados outros tantos temas como a diferença do parentesco e a afinidade, dificuldade de socialização física e presencial, e relação de amar o próximo e o amor próprio e como nos é negada a dignidade de ser amado.

Amor Líquido é um livro atualizadíssimo e o melhor que li até agora neste ano.

Mas deixando um pouco o amor líquido de lado, eu e minha colega começamos a discutir sobre o anonimato moderno. Comentei com ela sobre a existência de algo na minha faculdade chamado “Spotted”. Spotted, caros leitores é o cúmulo do anonimato universitário. Trata-se de uma página no Facebook da minha faculdade onde, através de um formulário do Google Forms podemos mandar mensagens anônimas para qualquer aluno da Instituição. Qualquer. Aluno. O que mais sai são paqueras, “Fulana do bloco H do curso X, está solteira?” esse é o tipo de mensagem que mais se vê naquela página. Mas sempre tem mensagens carregadas de ódio e a faculdade inteira lê. Quantos casos houveram de pessoas que sofreram críticas e xingamentos anônimos pesados, pessoas que tiveram sua vida pessoal exposta e humilhada de forma agressiva e tiveram a sua vida social dentro do Campus prejudicada? Spoiler: várias. Todos os dias alguém é vítima do ódio anônimo virtual.

Algo similar a isso podemos encontrar no livro e filme “Com amor, Simon.” Onde a escola de um jovem adolescente adota o mesmo tipo de mecanismo de mensagens anônimas que a minha Instituição e a orientação sexual do protagonista é exposta contra a sua vontade.

Essa rede online anônima faz com que o seu usuário transforme a sua covardia em  uma falsa coragem e isso é o que mais temos experimentado nos últimos tempos, como eu disse acima, nossas inseguranças nos fazem perder a capacidade de se relacionar pessoalmente. Pois sejamos honestos, é preciso muita fibra hoje em dia para falar sobre o íntimo e pessoal ou então para tratar das desavenças um com o outro através do diálogo. Sentar frente a frente, falar abertamente, expor as cartas na mesa? É algo muito profundo e nos aconchegamos na segurança do anonimato para fazer críticas. Temos que sair dessa bolha mau inflada onde ficamos socados reprimindo nossas vozes por medo do que o outro tem a dizer. Quantas vezes você deixou algo mal resolvido com alguém por medo de expor seus sentimentos ou opiniões, por receio de expor seu lado da história ou ser mal compreendido? Imaginem só, se a minha colega francesa não tivesse me dado a oportunidade de explicar o mal entendido que ocorreu envolvendo o perfil do Instagram do seu namorado. Ela provavelmente teria parado de se corresponder comigo o que seria algo terrível, desconstruir uma boa relação por banalidades modernas e virtuais.

Algo mal interpretado, ouvido pela metade, fora de contexto, são inúmeras as situações que nos levam a uma interpretação equivocada. Temos o costume de nem dar a chance da réplica da outra parte. Aconteceu uma situação X. Eu entendi isso e ponto final. Não estou interessado em ouvir o que o outro tem a dizer pois formei a minha opinião com base em uma única versão da história. A minha versão. Mas isso não quer dizer que seja a versão certa.

A convicção de que nossas opiniões são toda a verdade, nada além da verdade e sobretudo a única verdade existente, assim como nossa crença de que as verdades dos outros, se diferentes da nossa, são “meras opiniões” é um obstáculo. – Zygmunt Bauman.

Por isso, defendo tanto a necessidade do diálogo claro e limpo. Tudo é muito subentendido quando falamos virtualmente o que nos causa frustrações e muitas vezes é comum resistirmos à conciliação para chegarmos a um acordo. Se não houver confronto, a verdade se esquece e paira no ar. É necessário debater a verdade.

– Rejane Leopoldino

Não se limite por outra pessoa, isso sim é sacanagem.

Eu não pretendo ser a mulher da vida de alguém. Percebam como esse mundo é grande, eu tenho coisas para ver e aprender, lugares para ir, experiências para viver. Eu não gosto do que me cobra presença e a ideia de “ser de alguém” para mim é muito limitada, como se isso se resumisse a entrar em um quadrado onde não me encaixo. Essa de deixar de fazer algo ou de ir a algum lugar porque está em um relacionamento não me cabe. Eu já percebi que as pessoas alheias que vem falar comigo sempre fazem as mesmas perguntas:

“Mas você pode viajar sozinha?”
“Seu namorado deixa você ir no bar sem ele?”
“Seu namorado deixa você postar essa foto?”
“O que o seu namorado acha disso?”

Ele não tem que deixar nada, não tem que achar nada e eu não preciso da permissão  dele para viajar ou ir à algum lugar. Não nascemos colados no outro. Sempre fui minha muito antes dele. Se eu quero ir sozinha, eu vou, se eu quiser companhia, convido. Sou individual, o que eu compartilho com outra pessoa é consciente e emocional, não é imposto, não me limita.

A necessidade de colocarem limitações no que o outro pode ou não fazer dentro de um relacionamento me exaure.

A mudança é inevitável, de tanto compartilhar hábitos você absorve e agrega uma parte do seu companheiro a você. Mas agrega, e não desagrega. Estar com alguém é somar e compartilhar o individual, o íntimo, não é se limitar ou limitar o outro.

Algumas amigas vem conversar comigo sobre as coisas que elas estão deixando de fazer, viagens que não estão indo sozinhas por medo do companheiro ou companheira não gostar e eu sempre digo a mesma coisa: não deixe de fazer algo que você quer. Se isso vai incomodá-lo sente e converse, o diálogo existe há muito tempo.

Me revolto quando dizem para o meu namorado “ficar esperto” ou “abrir o olho”.
Como se eu viajar, sair sem ele ou dedicar um tempo para mim mesma fosse sinônimo de traição. A realidade é que as pessoas estão tão focadas na imagem (que para mim não é nada romântica) de duas pessoas como um só indivíduo que se esquecem da imagem delas mesmas como seres independentes. Essas pessoas inferem algo por ele, tentam fazê-lo absorver uma realidade que não se aplica a nós, não conseguem enxergar nada além dessa imagem pré determinada do que um relacionamento supostamente “deve ser”.

Martha Medeiros pontua bem essa questão.

Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. Se estivermos em boa companhia, é só mais rápido.
Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada “dois em um”, duas pessoas pensando igual, agindo igual, que isso era que funcionava. Não nos contaram que isso tem nome: anulação. Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável. – Martha Medeiros

O mais frustrante talvez seja ouvir que eu deveria impor algo, impor limite, impor isso, aquilo. Não tenho que impor nada. Cada um carrega algo chamado respeito e é isso que mantem o trem no trilho. Respeitar o outro não apenas como um amigo, um companheiro, um amante, mas também como um ser humano ou o que gosto de chamar  (desde que li um quadrinho da Owlturd) de “Coisinha molenga e sentimental”.


Quem me conhece sabe que eu tenho um jeitinho bem peculiar de brincar com os meus amigos. Eu dou uma paquerada neles, desliso um pouquinho na brincadeira… Já tive problemas com isso, pessoas que não souberam interpretar direito e ficavam nos julgando como “liberais”. Não somos liberais, apenas confiamos um no outro o bastante para saber que o espaço para uma brincadeira dessas nada interfere no nosso relacionamento. E quando me perguntam se meu namorado não se importa que eu paquere um amigo ou outro a resposta é a mesma: Não. Até porque ele bem sabe quem eu paquero e nada passa de uma descontração. Ele mesmo brinca dizendo que tem outros 3 “namorados” além de mim! Não é traição, é um divertimento a parte. Ou pelo menos é para mim, já aconteceu  a alguns anos atrás de um amigo acabar se envolvendo demais na brincadeira e se afastar de mim por ter aflorado sentimentos que eu não poderia corresponder. Me sinto péssima até hoje por isso ter acontecido pois não foi a minha intenção brincar com os sentimentos de alguém e sim me divertir junto e a dois.
E é claro que “fulanos” alheios conseguem apontar defeitos e novamente tentar impor suas opiniões a respeito.
“Não deveria brincar com isso enquanto namora”
Ora, quem sabe o que eu devo ou não fazer dentro do meu relacionamento somos nós dois. Estabelecemos isso com liberdade e autonomia de cada um para não nos privarmos de nada. Mas essa visão é profunda demais para alguns.

Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que poderíamos tentar outras alternativas menos convencionais.
Sexo não é sacanagem. Sexo é uma coisa natural, simples – só é ruim quando feito sem vontade. Sacanagem é outra coisa. É nos condicionarem a um amor cheio de regras e princípios, sem ter o direito à leveza e ao prazer que nos proporcionam as coisas escolhidas por nós mesmos. – Martha Medeiros.

– Rejane Leopoldino

 

 

 

 

Sobre o que essa vida em meio a tantas letras se tornou.

Eu sei que você não gosta que eu escreva sobre isso, e eu realmente sinto muito que minhas letras façam você se sentir pesado. Mas eu vou continuar escrevendo.

Não se engane, esse não é um ato de rebeldia. Sabe que nunca fui de me rebelar, sempre fui contida e recatada. Mas eu ocultava sem perceber parte de mim ao seu lado. E isso só fui me dar conta depois que nós dois nos movemos em direções opostas. Eu percebi que havia absorvido e me tornado 70% do que você me criou para ser. Não me leve a mal, eu não odeio isso, você me criou com as referências que acreditava serem as melhores para mim. E acredite, eu absorvi bem todas as melhores referências que me deu e sou sim, grata. Mesmo que você duvide da minha gratidão. Mas há uma pequena parte dos (seus) 70% em mim que eu gostaria de mudar. E a cada dia o faço. Os 30% meus que você não tocou, hoje são 35%, e a cada dia volto a ser mais minha. Mas sempre haverá seu reflexo em mim, com todos os melhores ensinamentos que você fez questão de compartilhar.

Então, de verdade, apenas aceite que não é um ato de rebeldia. Eu tenho as minhas reflexões e elas sempre divergiram das suas. Isso não é novidade. Você sempre soube. A diferença é que agora eu escrevo sobre o que aconteceu, o que naquela época eu tinha medo de fazer. Não queria decepcioná-lo com as minhas verdades e tinha medo que a forma como eu me sentia (sinto) pudesse te magoar e fazer com que você deixasse de me ver como uma menininha. Mas por falta de diálogo, eu não sei se você temia (teme) que a sua verdade fosse ter (tenha) o mesmo impacto em mim.

De qualquer forma, ainda perco um pouco do ar quando digito cada palavra desse texto, ou qualquer coisa que eu escreva para/sobre você. Como se o ar se tornasse muito mais pesado. Uma sensação semelhante a como me sentia quando estávamos juntos. Eu sentia que devia me ocultar, me retrair, estava acostumada a olhar para baixo e repelir o impulso de suspirar pesado pois isso com certeza te incomodaria e eu sempre buscava tanto a sua aprovação… Tanto…

É quase irônico que eu tenha escolhido essa vida de escritora para mim, logo uma que me daria tanta liberdade para escrever sobre você e parar de me ocultar e ocultar o que aconteceu.

Eu repito. Esse não é um ato de rebeldia. E eu repito que, embora tudo aquilo que aconteceu tenha nos ferido tanto, sou grata, por cada momento vivido e não me arrependo nem dos piores. Achei que deveria saber.

– Rejane Leopoldino

 

 

Se te falta

É preciso ser muito inteiro para dizer: “sinto muito, se você pode me oferecer somente isso, guarde para você”.
É preciso muita honestidade consigo mesmo para compreender que ninguém deve te entregar somente pedaços de alguém e sim a pessoa inteira!
É preciso se amar muito para não aceitar se tornar apenas parte de algo.

É preciso tudo isso e mais um bocado tanto para respeitar a si mesmo como um ser humano, munido de sentimentos, emoções e algumas decepções.

Para minha amiga L.M.

– Rejane Leopoldino

O Projeto mais íntimo e profundo que já participei.

Em julho, participei de um projeto da  incrível Amanda Areias chamado “Goya“. O projeto em si tem como objetivo reunir pessoas desconhecidas para contar histórias que tenham vivenciado, histórias reais, contadas por pessoas reais e ouvidas por outras dezenas de pessoas reais pois ela acredita que a melhor forma de conhecer as pessoas, é ouvindo suas histórias. E o projeto foi tão incrível e surpreendente que eu preciso comentá-lo.

As vagas eram limitadas, limite de 30 pessoas. Fui convidada a ir por duas amigas da faculdade que acreditaram ser uma experiência incrível para mim, e que mandaram meus dados para a Amanda na mesma hora já para garantir minha vaga. Pois bem, minha inscrição estava feita e quando o dia do projeto chegou eu não podia estar mais acanhada. Eram 30 pessoas desconhecidas sentadas em roda em uma sala muito aconchegante de um prédio antigo em cima de uma cafeteria no centro de São Paulo e o clima de timidez mútua falava muito alto, sentei ao lado das minhas duas amigas por questão de zona de conforto, porém, pouco tempo depois, iniciamos uma dinâmica para nos socializarmos com as outras pessoas e a Amanda pediu para que todos trocassem de lugar.

Demos início então a uma apresentação rápida respondendo a perguntas como Nome, idade, uma coisa que gostamos e outra da qual não gostamos. E aqui deixo minhas respostas para registro: Rejane, 20 anos, gosto de escrever, não gosto de injustiças.

Entre todas as apresentações, duas me chamaram atenção, a moça que estava justamente do meu lado direito disse que “não gosta de café”. Pois é, meu sobrenome é Caffé. Sim, isso mesmo, Caffé. Com dois Fs e tudo mais. Minhas amigas e eu logo trocamos olhares pela situação ter sido no mínimo engraçada pela coincidência. A outra apresentação que me chamou muita atenção, foi de uma moça que disse de um jeito muito agitado quase como se estivesse com raiva de algo, que não gostava que a dissessem para “ficar calma”. Achei curioso aquilo, não por ela não gostar, mas porque ela parecia realmente estar nervosa, parecia alguém que você facilmente diria: amiga, fique calma. E eu automaticamente imaginei ela como alguém que eu não suportaria conviver pois a achei muito estressada e além disso, ela parecia aquelas patricinhas de filme americano. “Um nojo” como diria a atual juventude.

Bom, as histórias começaram, teve história que me fez rir, chorar, ficar sem ar, teve gente que foi só para ouvir…

Então, chegou a vez daquela moça que falou que não gostava que dissessem para ela ficar calma. Quando ela começou a contar, eu mordi a minha língua na hora e mordi feio. Ela passou por muita coisa, depressão, tentativa de suicídio, um namorado lunático, problemas na família… enfim, não estou aqui para contar a sua história, mas naquele momento eu percebi que ela não era nada daquilo que eu havia julgado pela primeira impressão. Nada. Daquilo.
Aliás, muito pelo contrário, depois de ter passado por tudo o que passou ela hoje está vivendo uma outra vida, inclusive comecei a segui-la no Instagram e semana passada ela estava viajando pela Europa realmente vivendo uma vida que um dia ela havia tentado dar um fim. 

Ok, Rejane. Mas o que você quer dizer para nós com essas 524 palavras?

Quero dizer que todo mundo tem uma história para contar. Nós somos seres humanos e nos moldamos com base nas nossas experiências de vida, temos nossos demônios particulares e não podemos julgar ninguém pela primeira impressão, a primeira impressão não te apresenta a história de alguém, nem as dores ou alegrias que ela viveu, a sua essência só aparece, quando muito, em um diálogo bem aberto e honesto, com o coração na mão e o peito exposto.

Então, se vocês sentem “ranço” por alguém que não conhecem direito, por favor, deixem isso de lado. O que eu vivi naquela sala, naquele dia, foi intenso, foi como um baque na minha cabeça dizendo: “Agora você vê, Rejane? O que está por fora, não é a verdade ”
A frase é clichê, mas não devemos julgar um livro pela capa. Jamais. Eu poderia escrever aqui o dia todo sobre centenas de experiências que eu tive relacionadas ao julgamento de pessoas que eu mal conhecia, ou sobre todas as outras reflexões que aquele projeto me levou a ter, mas acredito que eu já tenha passado a minha mensagem.

– Rejane Leopoldino

 

Regendo minhas próprias estações.

Meu amor,

para mim é muito mais fácil entrar em qualquer imensidão que desconheço. Algumas eu não sei onde vão dar, nem se tem fim, mas anseio por elas como um campo de girassol voltado para o céu. E se alguma imensidão for profunda demais, ah… Eu mergulho com uma pedra amarrada em cada pé, e, confesso que leva um tempo pra sair de lá depois, mas olhe, nunca me arrependi.

É que o fascínio pelo que ainda não conheço é grande demais e talvez seja por isso que paro cada vez menos em casa e busco cada vez mais algo que sustente o meu olhar.
Eu sei que você talvez não goste desse meu jeito e espero que compreenda, pois juro, não faço por mal! Apenas acredito que vivemos de experiências e referências e devemos estar sempre agregando algo às nossas vidas. Você pode fazer parte da minha se quiser (ou voltar a fazer), mas não tente mudar isso em mim. Não tem jeito, viu por si mesmo.

Eu ainda sou aquela menina que você dizia ter “o coração bom até demais” mas hoje tenho malícia para enxergar com clareza. Então não se preocupe, aprendi a me cuidar, embora você não leve fé nisso.

Eu lembro como você esperava me ver diferente na primavera e ficava decepcionado.

– O que eu posso fazer se floresço no outono?

 

– Rejane Leopoldino

Então, compreendi sua ausência. 

[…] Ela é como chuva de verão, logo mais está indo embora. E eu nunca compreendi como ela podia ser assim, desapegada.
Com ritmo de mulher louca e desenfreada, nunca ficava. Até que a ouvi dizer:
” Meu amor, você tem um ninho pra onde voltar, pode ir, mas eu sou só eu, e minha casa já virou Hotel.”

– Rejane Leopoldino