E não é por isso que passam todos os irmãos mais novos?

Eu não escolhi tê-lo na minha vida e se tivesse escolhido não o ter provavelmente não escreveria. Mas por trás disso há muito mais, eu provavelmente também não leria tão bem como leio hoje e isso digo na plenitude da minha humildade, reconheço que sou uma ótima leitora e oradora (é importante elogiarmos a nós mesmos), mas, com isso também não digo que os meios que me fizeram a ler bem, foram por si convencionais. Tentativas e mais tentativas de se igualar a Ele, para mim, nunca o suficiente, eu com 7 anos queria equiparar a minha oratória à dele, que tinha 29 na ápoca. Difícil, não? Mas posso dizer, foi ele que me ensinou a recitar poemas.
O primeiro poema me lembro até hoje, ele pegou um livro que já tinha a muito tempo e abriu na sua parte favorita. O livro? Uma coleção de poemas de Fernando Pessoa.

Todas as cartas de amor…

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

– Fernando Pessoa

Sei este poema de cor desde os 7 anos.

Ele era meu espelho, se falasse um “A” eu o repetiria no mesmo tom. Eu andava como Ele, falava igual, imitava seus gestos, imitava tudo, mas por mais que eu tentasse, a infância me fazia muito diferente dele.

Então eu fui crescendo e percebi que não era a infância que nos fazia tão diferentes. Havíamos perdido no ano anterior aos meus 7 anos alguém que significava o mundo para nós, (até hoje acho que é tudo o que temos em comum) e ficamos então apenas nós dois a cuidar um do outro. Não me ocorreu naquela época que essa perda havia me feito adquirir personalidade própria.

– Rejane Leopoldino

O tal do telefone sem fio ou diz-que-me-disse.

Manoel, meu irmão, preste muita atenção.- Dizia José.- Vá até seu Domingos e peça-lhe 2 jarras de leite, diga que pagará fiado e bote a conta no nome do desgraçado do Francisco, aquele lá me deve um dinheiro, se eu o vejo na minha frente, ah… o pego de jeito! Depois, vá até a casa da nossa avó e entregue os leites, diga a ela que são para as tortas de amanhã. Em seguida, passe na casa de Madalena, ah… Madalena. Tome, pegue estas flores e entregue-a, peça para ela se arrumar e me encontrar no lago do pescador Josué às 19:00 horas! Depois, pegue o comboio até a fazenda Botucatu e faça uma encomenda de 3 queijos Gouda de 1 quilo cada para serem entregues na casa de nossa mãe na sexta-feira ao meio dia e por último, passe na casa do nosso vizinho Olindo e diga que o estarei esperando para jogar sinuca no bar do Vicente antes de sair com Madalena, agora vá, menino, vá!

Manoel foi até seu Domingos e pegou os leites, os pendurou na conta de Olindo. Depois foi até a casa de sua avó e entregou-lhe as flores, despediu-se e foi até a casa de Madalena e entregou-lhe as duas garrafas de leite. –O que é isso, menino? – perguntou Madalena. -Sei não, moça. Vai ver ele quer que a senhorita tome banho de leite, me pediu para você encontrá-lo na casa da nossa mãe sexta feira ao meio dia.- disse. -Na casa da mãe de vocês? Eita, que o bicho pensa em me pedir em casamento é? -Sei não, moça.- Depois, pegou o comboio até a fazenda Botucatu e pediu 1 queijo Gouda de 3 quilos para ser entregue no lago do pescador Josué às 19:00 horas. Por último, passou na casa de Francisco e disse que José estava pedindo para encontrá-lo no bar do Vicente onde estaria a jogar baralho.

Agora, Olindo tem a dívida de 2 leites, a Avó não está a fazer as tortas, Madalena está a banhar-se desde já com leite achando que será desposada, o lago do pescador Josué receberá 1 queijo Gouda de 3 quilos e José e Francisco estão a arrancar os couros um do outro no bar do Vicente.
Manoel? Tem sete anos.

– Rejane Leopoldino

Custou-lhe muito admitir.

Clarice, sente-se amada?– perguntou uma amiga que a acompanhava no caminho de casa, já era tarde, passava das 23:00 horas. Hesitou. –Amada por quem?– respondeu. Sua amiga deu um riso curto e baixo com uma pitada de tristeza no olhar e na voz. -É disso que estou falando, veja, Clarice, se eu fizer a mesma pergunta à algumas de nossas amigas em comum elas rapidamente responderão que sim, se sentem muito amadas pela  família, amigos, companheiro, mas você… você hesita e me pergunta “por quem”, não associa a pergunta à uma pessoa ou um grupo de pessoas, é como se esperasse que eu desse um nome e você pudesse dizer apenas “sim” ou “não” de uma forma tão prática que chega a ser insensível. Me preocupo com você, te conheço há tempos, fala pouco sobre sua vida pessoal e quando fala é sempre muito vaga. Tenho medo que você esteja a remoer suas dores e guardá-las para si.- Remoer o passado, tomar as dores a goladas e quando mal digeridas, regurgitar e tentar digeri-las novamente. Assemelhava-se à um hábito que repetido tantas vezes já tornava-se inconsciente sua manifestação. Algo compulsório, quando dava-se conta da atividade já era tarde demais. –Sim, sinto-me amada.- Clarice respondeu apenas. –Sente-se amada por Ele?– Por Ele. Clarice novamente hesitou, pensou por um momento, regurgitou um pouco. -Ele me criou, não o teria feito se não houvesse amor.- Respondeu dando um sorriso que não convenceu nem a si mesma. –Certo, mas essa não foi minha pergunta.- disse a amiga por fim. –Sentir-me amada por Ele é algo muito forte para afirmar. O que posso dizer é que sei que Ele me ama embora possua uma forma muito psicológica e fisicamente agressiva de demonstrar.- A amiga suspirou. –Logo você, minha amiga, que tanto luta contra a alienação emocional foi deixar-se cegar desta forma?- Cegar? Não era cegueira. –Não me cego nem um pouco, mantive os olhos tão abertos que agora não se fecham por medo. Mastigo os traumas gerados por Ele, bebo as dores que Ele me ofereceu, regurgito e me engasgo no processo. Ao menos agora, plenamente consciente. 

– Rejane Leopoldino

Isso que chamamos de egoísmo – amizades que se tornam tóxicas.

É do fundo do coração que digo isso: não culpe seus amigos por suas frustrações, não despeje palavras de ódio em cima de quem te quer bem. Todos ficamos mal de vez em quando, não seja egoísta de achar que só você tem problemas, dê valor aos amigos que sempre te escutaram quando você estava mal e quando um outro precisar do seu ombro engula suas angústias e vá oferecer sua presença, saiba reconhecer a vez do outro. Converse, dialogue, precisamos nos comunicar, ter nosso próprio psicólogo particular e poder chamá-lo de amigo é sim um privilégio. Mas de verdade, não seja desagradável, alguém que sempre esteve ao seu lado como amigo e confidente não merece ser tratado com ingratidão.

Ninguém é responsável pelo desenvolvimento individual do outro, isso apenas se cobra de nós mesmos, então, não me jogue nas costas a responsabilidade de lidar com os seus demônios quando você não está disposto a lidar com os meus. Amizade é uma via de mão dupla, eu estou por você e você por mim, se esse equilíbrio não se mantiver, sinto muito, não conte comigo.

Eu repito: todos ficamos mal de vez em quando, sobrepor os seus problemas aos dos outros é um grande ato de egoísmo, saiba a hora de sair dos holofotes.

– Rejane Leopoldino

Curto conto de uma noite em um Prostíbulo.

Ele ficava por perto, rondando, sondando, a observando de longe por semanas dentro do prostíbulo sem emitir nenhuma palavra. Todas aquelas trocas de olhares mudos. Claramente obcecado, enciumava-se quando ela subia para os aposentos com outro. Ganhar seu dinheiro. É a vida dela, nada podia fazer a respeito. Nenhuma outra garota o interessava, tinha o hábito de sentar-se em uma das poltronas de couro escondido entre a luz vermelha do ambiente e cronometrar no seu relógio de pulso o tempo que ela passava com os outros cavaleiros. Obcecado, mas nunca a contratou, nem por 10 minutos que fosse, seu prazer era assisti-la ser cortejada por homens que não pareciam ser tão interessantes e inteligentes quanto ele. Bebia pouco, o bastante para sentir calor e afrouxar a gravata. Uma noite recebeu além da sua bebida um bilhete em papel sem pautas, letra itálica.

Querido,

Ou me fode ou sai de cima. 

Esses impasses não combinam comigo, se agregue à mim, resquícios seus não me satisfazem e pequenos sinais da sua presença não são o bastante. Não se engane, não estou pedindo para ser sua amante, apenas se decida. 

Ou me fode ou sai de cima. (Por favor, me fode)

– Rejane Leopoldino

Chaos de la modernité e o amor líquido de Zygmunt Bauman, duas revelações em uma semana conturbada pelas relações sociais.

Refletindo sobre os acontecimentos dessa semana me dei conta de como a internet provoca um mal entendido nas relações sociais.

Comecei a me corresponder com uma colega francesa a pouco tempo pelo Instagram e conversamos frequentemente, porém houve um episódio essa semana que estamos chamando de “Chaos de la modernité ” (caos da modernidade).

Como eu disse, estamos nos correspondendo com frequência e alguns dos amigos dela apareceram para mim como sugestão de “Seguidores”. Inocentemente, eu entrei em um desses perfis do Instagram a fim de ver quem era essa pessoa que participava da vida social da minha colega francesa. Perfil público, olhei fotos, “Stories” e me dei conta de que era o namorado dela. Um belo casal, mas não curti nenhuma foto nem comecei a segui-lo pois seria muito deselegante da minha parte, principalmente por nem sequer conhecê-lo, sai do seu perfil e fui viver minha vida. Pois bem, no dia seguinte, enquanto conversava com essa minha colega ela me perguntou da onde eu conhecia o namorado dela. E eu fiquei intrigada com a pergunta: ora, não o conheço de lugar algum. Então ela me disse que enquanto estava mexendo no celular do seu companheiro observou que eu havia visualizado o Stories dele. Devo dizer que o clima de -essa brasileira está me seguindo e stalkeando todos da minha vida- foi bem tenso e desagradável. Eu não estava “stalkeando” foi uma coincidência moderna uma pessoa muito ligada a ela ter aparecido como sugestão de seguidor no meu perfil e eu olhado as suas fotos na inocência.

Após eu explicar toda a situação e deixá-la segura de que eu NÃO SOU nenhum tipo de psicopata que quer saber de toda a vida dela incluindo a do namorado e do papagaio, começamos a discutir sobre como essa situação moderna é frágil.

Zygmunt Bauman, autor do livro (e aqui deixo uma indicação de leitura) Amor Líquido, investiga de que forma nossas relações tornam-se cada vez mais “flexíveis”, gerando níveis de insegurança sempre maiores. Uma vez que damos prioridade a relacionamentos em “redes”, as quais podem ser tecidas ou desmanchadas com igual facilidade e frequentemente sem que isso envolva nenhum contato além do virtual, não sabemos mais manter laços a longo prazo.

Para Zygmunt, a modernidade líquida em que vivemos traz consigo uma fragilidade dos laços humanos a qual ele chama de “amor líquido”. A insegurança que estimula desejos conflitantes de estreitar e afrouxar laços. Esse livro busca esclarecer de que forma o homem “sem vínculos” se conecta com outros seres humanos.

Em seu primeiro capítulo ele discorre sobre o “apaixonar-se e desapaixonar-se” em meio a tanta fragilidade com que nos conectamos. E assim como Zygmunt fala sobre um trecho que Charles Baudelaire apresentou a seus leitores o Le spleen de Paris, eu o parafraseio:
Que pena. Não fosse por isso, eu gostaria de escrever esse mesmo preâmbulo, ou um parecido, sobre o texto que segue. Mas ele o escreveu e só me resta citá-lo.

O amor pode ser, e frequentemente é, tão atemorizante quanto a morte. Só que ele encobre essa verdade com a comoção do desejo e do excitamento. Faz sentido pensar na diferença entre amor e morte como na que existe entre atração e repulsa. Pensando bem, contudo, não se pode ter tanta certeza disso. As promessas do amor são, via de regra, menos ambíguas do que suas dádivas. Assim, a tentação de apaixonar-se é grande e poderosa, mas também o é a atração de escapar. E o fascínio da procura de uma rosa sem espinhos que nunca está muito longe, e é sempre difícil de resistir. – Zygmunt Bauman

Ele descreveu em poucas palavras como atualmente somos atraídos pelo desejo do que podemos ter sem a responsabilidade de manter. Sentimentos que corremos atrás para nos desfazer com facilidade quando convém ou o “cativar por divertimento”, como descrevemos eu e minha colega francesa na nossa conversa anterior.

Chegamos ao conceito de “cativar por divertimento” quando olhamos para as relações que são construídas por essa fina “Rede Social”. Nós temos a tendência de passar a melhor impressão de nós mesmos pois nossos defeitos estão resguardados por muros como distância, idioma, falta de familiarização, etc. Então acabamos por cativar naturalmente e sem esforço algumas pessoas com quem nos comunicamos, mas a falta da necessidade de manter a pessoa cativada após um período de tempo transforma essa relação em algo descartável, como se a facilidade de cativar alguém e se desapegar da mesma pessoa estivessem em pé de igualdade na mesma balança, como atitudes fáceis e sem valor emocional. O que uma vez estando na qualidade de cativar pessoalmente, não seria tão simples assim. Estar cara a cara com alguém, fisicamente, fora do mundo virtual é expor seus defeitos sem precisar dizer uma palavra sobre eles, o outro percebe, através da observação do comportamento tudo o que pode ser considerado um defeito. E é daí que surgem as inseguranças, e é por conta das inseguranças que acabamos preferindo nos relacionar através dessas “Redes Sociais” pois essas redes nos dão o anonymat des imperfections (anonimato das imperfeições como descreveu minha colega).

E não apenas isso, ao longo do livro são abordados outros tantos temas como a diferença do parentesco e a afinidade, dificuldade de socialização física e presencial, e relação de amar o próximo e o amor próprio e como nos é negada a dignidade de ser amado.

Amor Líquido é um livro atualizadíssimo e o melhor que li até agora neste ano.

Mas deixando um pouco o amor líquido de lado, eu e minha colega começamos a discutir sobre o anonimato moderno. Comentei com ela sobre a existência de algo na minha faculdade chamado “Spotted”. Spotted, caros leitores é o cúmulo do anonimato universitário. Trata-se de uma página no Facebook da minha faculdade onde, através de um formulário do Google Forms podemos mandar mensagens anônimas para qualquer aluno da Instituição. Qualquer. Aluno. O que mais sai são paqueras, “Fulana do bloco H do curso X, está solteira?” esse é o tipo de mensagem que mais se vê naquela página. Mas sempre tem mensagens carregadas de ódio e a faculdade inteira lê. Quantos casos houveram de pessoas que sofreram críticas e xingamentos anônimos pesados, pessoas que tiveram sua vida pessoal exposta e humilhada de forma agressiva e tiveram a sua vida social dentro do Campus prejudicada? Spoiler: várias. Todos os dias alguém é vítima do ódio anônimo virtual.

Algo similar a isso podemos encontrar no livro e filme “Com amor, Simon.” Onde a escola de um jovem adolescente adota o mesmo tipo de mecanismo de mensagens anônimas que a minha Instituição e a orientação sexual do protagonista é exposta contra a sua vontade.

Essa rede online anônima faz com que o seu usuário transforme a sua covardia em  uma falsa coragem e isso é o que mais temos experimentado nos últimos tempos, como eu disse acima, nossas inseguranças nos fazem perder a capacidade de se relacionar pessoalmente. Pois sejamos honestos, é preciso muita fibra hoje em dia para falar sobre o íntimo e pessoal ou então para tratar das desavenças um com o outro através do diálogo. Sentar frente a frente, falar abertamente, expor as cartas na mesa? É algo muito profundo e nos aconchegamos na segurança do anonimato para fazer críticas. Temos que sair dessa bolha mau inflada onde ficamos socados reprimindo nossas vozes por medo do que o outro tem a dizer. Quantas vezes você deixou algo mal resolvido com alguém por medo de expor seus sentimentos ou opiniões, por receio de expor seu lado da história ou ser mal compreendido? Imaginem só, se a minha colega francesa não tivesse me dado a oportunidade de explicar o mal entendido que ocorreu envolvendo o perfil do Instagram do seu namorado. Ela provavelmente teria parado de se corresponder comigo o que seria algo terrível, desconstruir uma boa relação por banalidades modernas e virtuais.

Algo mal interpretado, ouvido pela metade, fora de contexto, são inúmeras as situações que nos levam a uma interpretação equivocada. Temos o costume de nem dar a chance da réplica da outra parte. Aconteceu uma situação X. Eu entendi isso e ponto final. Não estou interessado em ouvir o que o outro tem a dizer pois formei a minha opinião com base em uma única versão da história. A minha versão. Mas isso não quer dizer que seja a versão certa.

A convicção de que nossas opiniões são toda a verdade, nada além da verdade e sobretudo a única verdade existente, assim como nossa crença de que as verdades dos outros, se diferentes da nossa, são “meras opiniões” é um obstáculo. – Zygmunt Bauman.

Por isso, defendo tanto a necessidade do diálogo claro e limpo. Tudo é muito subentendido quando falamos virtualmente o que nos causa frustrações e muitas vezes é comum resistirmos à conciliação para chegarmos a um acordo. Se não houver confronto, a verdade se esquece e paira no ar. É necessário debater a verdade.

– Rejane Leopoldino

Não se limite por outra pessoa, isso sim é sacanagem.

Eu não pretendo ser a mulher da vida de alguém. Percebam como esse mundo é grande, eu tenho coisas para ver e aprender, lugares para ir, experiências para viver. Eu não gosto do que me cobra presença e a ideia de “ser de alguém” para mim é muito limitada, como se isso se resumisse a entrar em um quadrado onde não me encaixo. Essa de deixar de fazer algo ou de ir a algum lugar porque está em um relacionamento não me cabe. Eu já percebi que as pessoas alheias que vem falar comigo sempre fazem as mesmas perguntas:

“Mas você pode viajar sozinha?”
“Seu namorado deixa você ir no bar sem ele?”
“Seu namorado deixa você postar essa foto?”
“O que o seu namorado acha disso?”

Ele não tem que deixar nada, não tem que achar nada e eu não preciso da permissão  dele para viajar ou ir à algum lugar. Não nascemos colados no outro. Sempre fui minha muito antes dele. Se eu quero ir sozinha, eu vou, se eu quiser companhia, convido. Sou individual, o que eu compartilho com outra pessoa é consciente e emocional, não é imposto, não me limita.

A necessidade de colocarem limitações no que o outro pode ou não fazer dentro de um relacionamento me exaure.

A mudança é inevitável, de tanto compartilhar hábitos você absorve e agrega uma parte do seu companheiro a você. Mas agrega, e não desagrega. Estar com alguém é somar e compartilhar o individual, o íntimo, não é se limitar ou limitar o outro.

Algumas amigas vem conversar comigo sobre as coisas que elas estão deixando de fazer, viagens que não estão indo sozinhas por medo do companheiro ou companheira não gostar e eu sempre digo a mesma coisa: não deixe de fazer algo que você quer. Se isso vai incomodá-lo sente e converse, o diálogo existe há muito tempo.

Me revolto quando dizem para o meu namorado “ficar esperto” ou “abrir o olho”.
Como se eu viajar, sair sem ele ou dedicar um tempo para mim mesma fosse sinônimo de traição. A realidade é que as pessoas estão tão focadas na imagem (que para mim não é nada romântica) de duas pessoas como um só indivíduo que se esquecem da imagem delas mesmas como seres independentes. Essas pessoas inferem algo por ele, tentam fazê-lo absorver uma realidade que não se aplica a nós, não conseguem enxergar nada além dessa imagem pré determinada do que um relacionamento supostamente “deve ser”.

Martha Medeiros pontua bem essa questão.

Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. Se estivermos em boa companhia, é só mais rápido.
Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada “dois em um”, duas pessoas pensando igual, agindo igual, que isso era que funcionava. Não nos contaram que isso tem nome: anulação. Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável. – Martha Medeiros

O mais frustrante talvez seja ouvir que eu deveria impor algo, impor limite, impor isso, aquilo. Não tenho que impor nada. Cada um carrega algo chamado respeito e é isso que mantem o trem no trilho. Respeitar o outro não apenas como um amigo, um companheiro, um amante, mas também como um ser humano ou o que gosto de chamar  (desde que li um quadrinho da Owlturd) de “Coisinha molenga e sentimental”.


Quem me conhece sabe que eu tenho um jeitinho bem peculiar de brincar com os meus amigos. Eu dou uma paquerada neles, desliso um pouquinho na brincadeira… Já tive problemas com isso, pessoas que não souberam interpretar direito e ficavam nos julgando como “liberais”. Não somos liberais, apenas confiamos um no outro o bastante para saber que o espaço para uma brincadeira dessas nada interfere no nosso relacionamento. E quando me perguntam se meu namorado não se importa que eu paquere um amigo ou outro a resposta é a mesma: Não. Até porque ele bem sabe quem eu paquero e nada passa de uma descontração. Ele mesmo brinca dizendo que tem outros 3 “namorados” além de mim! Não é traição, é um divertimento a parte. Ou pelo menos é para mim, já aconteceu  a alguns anos atrás de um amigo acabar se envolvendo demais na brincadeira e se afastar de mim por ter aflorado sentimentos que eu não poderia corresponder. Me sinto péssima até hoje por isso ter acontecido pois não foi a minha intenção brincar com os sentimentos de alguém e sim me divertir junto e a dois.
E é claro que “fulanos” alheios conseguem apontar defeitos e novamente tentar impor suas opiniões a respeito.
“Não deveria brincar com isso enquanto namora”
Ora, quem sabe o que eu devo ou não fazer dentro do meu relacionamento somos nós dois. Estabelecemos isso com liberdade e autonomia de cada um para não nos privarmos de nada. Mas essa visão é profunda demais para alguns.

Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que poderíamos tentar outras alternativas menos convencionais.
Sexo não é sacanagem. Sexo é uma coisa natural, simples – só é ruim quando feito sem vontade. Sacanagem é outra coisa. É nos condicionarem a um amor cheio de regras e princípios, sem ter o direito à leveza e ao prazer que nos proporcionam as coisas escolhidas por nós mesmos. – Martha Medeiros.

– Rejane Leopoldino