#3 O desenvolvimento da mulher na sociedade – A Bíblia cristã

Não sou teóloga, tão pouco religiosa, mas para escrever esse texto abri a bíblia cristã e folheei suas páginas dando a devida atenção a maneira como o sexo feminino é abordado. Estaria eu mentindo se dissesse que a Bíblia, escrita por 40 autores, não possui histórias magníficas no seu velho e novo testamento, de mulheres fortes que lutaram por suas famílias e seus filhos, mas também não podemos fechar nossos olhos para as passagens do mesmo livro cristão que corroboraram por mais de 1600 anos com a submissão feminina. O fato é que as passagens e histórias contadas na Bíblia foram lidas por todo o mundo, e seus ensinamentos ainda em tempos modernos foram tomados como verdades absolutas, muitas vezes sem serem devidamente reinterpretados, disseminando pontos de vistas que hoje são mais do que arcaicos. Negar isso é tentar tapar o sol com a peneira.

Marie de Gournay (1565 – 1645), foi uma filósofa e escritora que aprendeu sozinha o grego e o latim. Em 1622 escreveu “A igualdade entre os homens e as mulheres” e neste texto ressaltou que nenhuma lei natural, civil ou religiosa justificavam a inferioridade em que as mulheres eram tratadas.

Os pais da Igreja (santos padres, teólogos, bispos cristão influentes dos primeiros séculos do cristianismo) que formaram através da sua interpretação as bases das doutrinas das vertentes cristãs acabaram por se apoiar na imagem de um Deus masculino. Eles estavam longe de dizer que uma mulher poderia ocupar os mesmos ofícios de um homem quanto dizer que os homens não eram os representantes de Deus. Os mesmos homens que pretendiam elevar o espírito e aproximá-lo de Deus, o enfraqueciam ao desprezar as mulheres por meio da própria arrogância ao se colocarem no pedestal de serem os únicos representantes da Luz divina.

Criou Deus o homem à sua imagem,
à imagem de Deus o criou;
homem e mulher os criou.
Gênesis 1:27

Adão veio primeiro, e isso já bastou para engrandecer anos depois o ego daqueles que acreditavam que a terra pertencia aos homens não apenas por ordem de chegada, mas pela dita semelhança à imagem de Deus. Os pais da Igreja parecem ter fechado os olhos no que diz respeito a criação divina, pois, homem E mulher foram feitos à sua imagem, e não a mulher à imagem do homem que foi feito à imagem de Deus.

22 Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a levou até ele.
23 Disse então o homem:
“Esta, sim, é osso dos meus ossos
e carne da minha carne!
Ela será chamada mulher,
porque do homem foi tirada.
24 Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne”.
Gênesis 2:22-24

Quando lemos essa passagem “Esta sim é osso dos meus ossos e carne da minha carne!” vemos mais uma vez a afirmativa manifestar a ligação e apoderamento de Eva à Adão, como se fosse ele seu criador, e não Deus.

Quero propor um questionamento: nossa magnífica língua portuguesa, como tantas outras, está sujeita às variantes linguísticas temporais para reinterpretar com outras palavras, sejam elas mais ou menos sutis, as passagens bíblicas. Embora a história contada no livro sagrado permaneça sempre a mesma, teria ela, através dos anos, tido a escolha de palavras mais suavizada conforme os movimentos pelos direitos da mulher ganharam força? Acredito que sim, pois tenho uma bíblia com edição de 1969 que possui passagens com uma escolha de palavras tão duras, que se empregadas hoje, seriam consideradas uma ofensa à todo o sexo feminino, mas não só! teriam versões anteriores a de 1969 (das quais não tenho em mãos) sido ainda mais condescendentes com a inferiorização da mulher? (Isso com certeza vale outro capítulo de estudo). Posso dizer que em tempos modernos, as traduções deste livro ainda o são:

Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, como ao Senhor, pois o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual ele é o Salvador. Assim como a igreja está sujeita a Cristo, também as mulheres estejam em tudo sujeitas a seus maridos.
Efésios 5:22-24

Do mesmo modo, mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, a fim de que, se ele não obedece à palavra, seja ganho sem palavras, pelo procedimento de sua mulher, observando a conduta honesta e respeitosa de vocês.
1 Pedro 3:1-6

A persuasão utilizada para manter as mulheres submissas aos homens se apega exclusivamente ao divino, e na minha particular opinião, não poderia ser esta uma atitude mais covarde. Usar da crença e fé da mulher para justificar a submissão dela ao homem, e romantizar esta barbaridade como sendo equiparável ao elo de ligação da Igreja -vista como um templo de extrema divindade- com Cristo, é nada menos do que apelativo e um uso da má fé para manter um sexo sempre a mercê do outro.

Não vou me prender em demasia sobre todas as passagens que sabotaram a mulheres como indivíduos e ajudaram os homens que já se sentiam superiores, a acreditar que as mulheres eram e assim deveriam continua sendo, a parte mais frágil dentre os sexos. Contudo, vale ressaltar a sujeição das mulheres ao lar, ao tear e a roca e as tarefas domésticas que a Bíblia aborda como tarefas femininas:

Ela faz vestes de linho e as vende,
e fornece cintos aos comerciantes. Reveste-se de força e dignidade;
sorri diante do futuro. Fala com sabedoria
e ensina com amor. Cuida dos negócios de sua casa
e não dá lugar à preguiça.
Provérbios 31:24-27

A bíblia contribuiu e muito para manter a crença de que as mulheres eram a parte mais frágil e que deveriam permanecer reclusas às tarefas manuais e ao lar. Quando se atribui à um sexo determinadas tarefas, outras pessoas passam a replicá-los como tarefas que pertencem só e exclusivamente àquele sexo.

Escolhe a lã e o linho
e com prazer trabalha com as mãos. Como os navios mercantes,
ela traz de longe as suas provisões. Antes de clarear o dia ela se levanta,
prepara comida para todos os de casa
e dá tarefas às suas servas. […]
Nas mãos segura o fuso
e com os dedos pega a roca. Acolhe os necessitados
e estende as mãos aos pobres.
Provérbios 31:13-20

Certa vez, não muito tempo atrás fui em uma missa e o pastor falava sobre os papéis da mulher no lar. Que o papel da mulher era edificá-la e apoiar seus maridos em suas tomadas de decisões. Que elas como boas esposas deveriam incentivá-los a tornarem-se bons pastores, para que elas se tornassem “mulheres de pastores”. Vejam que ainda hoje o máximo que uma mulher é permitida ascender dentro de alguns cultos é sob a sombra de um homem, que não é seu pai, mas marido. Não poderia ela exercer a atividade pastoral? Ao menos naquele culto, não. Reservavam-se às atividades femininas o canto das canções e o cuidado das crianças menores bem como a organização das missas.

É muito triste para mim ainda me deparar com ideais tão retrógrados sobre o papel da mulher na sociedade e como o cristianismo ajudou (e ainda ajuda) a disseminar ideias de submissão feminina e inferioridade em que as mulheres são tratadas. Mais sobre isso vamos discutir no próximo capítulo deste estudo que sai amanhã à noite. Vejo vocês lá.

– Rejane Leopoldino