“Mulher é multitarefas”

Sim, de fato somos, não tô aqui para negar a nossa habilidade, mas isso vem com um custo alto e pouco glamouroso. Vamos falar sobre os assuntos que caem com mais força nos ombros das mulheres do que nos dos homens?

#1– Admito que sinto uma pontinha de satisfação quando me dizem que sou multitarefas, que por isso dou conta de tudo, mas eu estava refletindo esses dias sobre como essas frases são uma armadilha para nós mulheres. Elas parecem um elogio mas estão carregadas com uma sobrecarga de trabalho enorme.

#2– Já falei sobre isso por aqui: As cobranças que envolvem o dia a dia da mulher moderna são cansativas! A gente tem uma cobrança tão grande girando em torno da nossa aparência, maternidade e não para por aí!
Por ser multitarefas as pessoas esperam que você consiga dar conta da sua carreira, da estética, dos filhos e do casamento se houver, do cara mexendo com você na rua de novo, das tarefas do lar que talvez sejam mal distribuídas e caiam todas em cima de você e ainda estar super bem e com bom humor para desenvolver a sua vida social além de ter tempo para si mesma.
No fim do dia 24 horas são pouco, isso vale principalmente para as mamães que se tornam as principais responsáveis pelo trabalho de cuidado dentro do lar, e esse trabalho invisível e não remunerado muitas vezes as afasta do mercado de trabalho, dificultando ao seu retorno. Falo mais sobre a Participação feminina no mercado de trabalho após a maternidade neste post.

#3– Arrumar, limpar a casa, cozinhar, é um trabalho cansativo, se você mora com um(a) companheiro(a) que acaba deixando tudo nas suas mãos mesmo você tendo uma rotina atribuladíssima no trabalho e no fim do dia você se encontra exausta, está na hora de (re)distribuir as responsabilidades do lar.

Falei falei e falei, tudo isso para ilustrar mais uma vez que às vezes a gente tá cansada, sabe? Cansada de sair na rua com medo e preocupada de um cara mexer com a gente, cansada de piadas sexistas no local de trabalho, cansada de tarefas mal distribuídas em casa, Ufa!

-Rejane Leopoldino

Já lucraram muito com a nossa insegurança

A frase é quase clichê, mas não nega o óbvio: os estereótipos de beleza são usados contra as mulheres que não se encaixam nessa caixinha quadrada.
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Existe um hábito de nomear as mulheres como uma com beleza, mas sem inteligência, ou com inteligência, mas sem beleza, nos faz acreditar que é difícil possuir os dois. Ou a mente ou o corpo. E a busca por ambos nos tortura. Mas já possuímos ambos, não tem o que procurar. (por vezes nós mulheres fazemos isso entre nós mesmas)
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Já sentiram como se pudessem ser definidas como um fracasso ou um sucesso de acordo com a sua aparência? Como se o sucesso pertencesse ao estereótipo de mulher magra, branca, com cabelo liso e skin care em dia?
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Esse estereótipo já perturbou e ainda perturba o psicológico de muitas mulheres (pessoas no geral, mas a indústria da beleza consegue ser ainda mais cruel com as mulheres) que não conseguem se sentir bonitas com o corpo que possuem, às vezes por um detalhe tão mínimo que passa batido.

Relato pessoal: Sou muito magra, mas quantas vezes já quis atingir o corpo fotoshopado de modelos do Instagram e ficava fitando uma pequena gordurinha no espelho por minutos, imaginando todas as dietas e intervenções cirurgicas loucas que poderia fazer pra zerar aquela barriguinha. Plmdds
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Não dá para viver às custas de um ideal que não é saudável pisicológicamente.
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📖Post inspirado no Livro “O mito da beleza” de Naomi Wolf.

Te convido a conferir esse conteúdo no instagram 🙂

-Rejane Leopoldino

Por que a “Mulher Guerreira” está cansada?

Você também se sente cansada? 😪

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Todas as pessoas levam uma vida agitada, mas parece que nós mulheres temos ainda mais trabalho no nosso dia a dia em comparação aos nossos colegas homens. Por que? Por que as tarefas do lar costumam recair com mais peso nos ombros das mulheres? Todos concordamos que depois de um longo dia de trabalho, voltar para casa e precisar limpar o chão, cozinhar, ser responsável pelo trabalho de cuidado, é cansativo, então por que não paramos um minuto para refletir em como algumas mulheres estão cansadas de serem as únicas responsáveis por esse trabalho dentro do lar? Já reparou que quando não somos nós que realizamos essas tarefas, somos nós que as delegamos aos outros?
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#1 – Existe uma socialização histórica por trás das tarefas do lar serem associadas ao sexo feminino, era um costume em tempos mais antigos que as mulheres se dedicassem ao lar, filhos e marido. Esse comportamento recluso foi replicado por gerações, se desconstruindo de forma lenta. (Eu falo mais sobre isso neste post aqui no blog) Acontece que essa socialização já não se aplica hoje, em pleno século XXI as mulheres trabalham, escolhem se vão ou não se casar, possuem acesso à educação e a liberdade sexual e também já não são mais as únicas responsáveis pelo trabalho de cuidado do lar, ainda sim, são as principais responsáveis por esse trabalho.
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#2– Arrumar, limpar a casa, cozinhar, é um trabalho cansativo, se você mora com um companheiro que acaba deixando tudo nas suas mãos mesmo você tendo uma rotina atribuladíssima no trabalho e no fim do dia você se encontra exausta, está na hora de (re)distribuir as responsabilidades das tarefas do lar ao invés de fazer tudo sozinha.
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#3 Uma vez o meu namorado me disse que não sabia como cortar o alho e eu fiquei chocada, pois ele realmente não sabia e os pedaços ficaram enormes. Isso (e diversas outras coisas como a falta de preocupação com a limpeza da casa) me fez perceber que ele não havia sido preparado para assumir responsabilidades básicas do lar da mesma maneira como eu fui ensinada.
📌(Exemplo bobo, mas real. Hoje ele sabe cortar)

Diz pra mim nos comentários: como é a divisão de tarefas na sua casa? A maioria das tarefas do lar cai em cima de você?
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*Post com reflexões sobre relacionamentos heterossexuais*
Te convido a conferir esse conteúdo no instagram 🙂

– Rejane Leopoldino

Mini manual anti assébio verbal nas ruas: o seu assobio não é um elogio

Isso já aconteceu com você?

Você está andando na rua e de repente um cara que passa do seu lado diz: “Gostosa” enquanto entorta o pescoço para trás. Você anda mais alguns quarteirões e outro diz: “delícia”, chegando tão perto que quase te toca.
Não sei vocês mas eu já estou cansada dessa socialização masculina que normaliza essas “cantadas” invasivas e o assédio verbal.

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#1 – Queridos colegas homens, se vocês presenciarem um amigo de vocês assediando verbalmente mulheres na rua, repreendam o seu brother, saibam que não é legal, nem engraçado e nós não gostamos desse tipo de atenção sem fundamento.

#2 – “Nossa, agora não pode nem mais elogiar”
Claro que pode! Existe uma diferença gigantesca entre fazer um elogio e ser desagradável. Honestamente, o que faz alguns caras pensarem que vamos gostar que um total desconhecido se aproxime de nós DO NADA e nos chame de “gostosa”???
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#3 – Não é só uma Cantada. Tememos que essa desagradável abordagem verbal se torne física, frequentemente os noticiários relatam casos de estupro e sequestro, e muitas de nós ou já fomos vítimas de algum tipo de assédio sexual ou conhecemos alguma mulher que foi. É uma realidade assustadora que só será combatida com uma reeducação da socialização entre homens e mulheres.
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#4 – Sim, homens também sofrem assédio na rua, mas não dá para usar a mesma medida nesta balança. Uma mulher assediar verbalmente um homem chega a ser um evento de tão raro que é presenciar. Fiz uma mini pesquisa só para efeitos de curiosidade enquanto desenvolvia esse conteúdo e perguntei para 5 dos meus amigos homens se já haviam sido assediados verbalmente por mulheres nas ruas, todos responderam que não, fiz a mesma pergunta para 5 amigas mulheres e todas disseram que sim. Acho que dá para ver a diferença.

E aí, você se identifica? Já te assediaram ou te assediam muito verbalmente nas ruas? Me conta aqui nos comentários sobre as suas experiências 🙂
Aproveito para te convidar a conferir esse conteúdo no meu instagram!

-Rejane Leopoldino

#3 O desenvolvimento da mulher na sociedade – A Bíblia cristã

Não sou teóloga, tão pouco religiosa, mas para escrever esse texto abri a bíblia cristã e folheei suas páginas dando a devida atenção a maneira como o sexo feminino é abordado. Estaria eu mentindo se dissesse que a Bíblia, escrita por 40 autores, não possui histórias magníficas no seu velho e novo testamento, de mulheres fortes que lutaram por suas famílias e seus filhos, mas também não podemos fechar nossos olhos para as passagens do mesmo livro cristão que corroboraram por mais de 1600 anos com a submissão feminina. O fato é que as passagens e histórias contadas na Bíblia foram lidas por todo o mundo, e seus ensinamentos ainda em tempos modernos foram tomados como verdades absolutas, muitas vezes sem serem devidamente reinterpretados, disseminando pontos de vistas que hoje são mais do que arcaicos. Negar isso é tentar tapar o sol com a peneira.

Marie de Gournay (1565 – 1645), foi uma filósofa e escritora que aprendeu sozinha o grego e o latim. Em 1622 escreveu “A igualdade entre os homens e as mulheres” e neste texto ressaltou que nenhuma lei natural, civil ou religiosa justificavam a inferioridade em que as mulheres eram tratadas.

Os pais da Igreja (santos padres, teólogos, bispos cristão influentes dos primeiros séculos do cristianismo) que formaram através da sua interpretação as bases das doutrinas das vertentes cristãs acabaram por se apoiar na imagem de um Deus masculino. Eles estavam longe de dizer que uma mulher poderia ocupar os mesmos ofícios de um homem quanto dizer que os homens não eram os representantes de Deus. Os mesmos homens que pretendiam elevar o espírito e aproximá-lo de Deus, o enfraqueciam ao desprezar as mulheres por meio da própria arrogância ao se colocarem no pedestal de serem os únicos representantes da Luz divina.

Criou Deus o homem à sua imagem,
à imagem de Deus o criou;
homem e mulher os criou.
Gênesis 1:27

Adão veio primeiro, e isso já bastou para engrandecer anos depois o ego daqueles que acreditavam que a terra pertencia aos homens não apenas por ordem de chegada, mas pela dita semelhança à imagem de Deus. Os pais da Igreja parecem ter fechado os olhos no que diz respeito a criação divina, pois, homem E mulher foram feitos à sua imagem, e não a mulher à imagem do homem que foi feito à imagem de Deus.

22 Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a levou até ele.
23 Disse então o homem:
“Esta, sim, é osso dos meus ossos
e carne da minha carne!
Ela será chamada mulher,
porque do homem foi tirada.
24 Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne”.
Gênesis 2:22-24

Quando lemos essa passagem “Esta sim é osso dos meus ossos e carne da minha carne!” vemos mais uma vez a afirmativa manifestar a ligação e apoderamento de Eva à Adão, como se fosse ele seu criador, e não Deus.

Quero propor um questionamento: nossa magnífica língua portuguesa, como tantas outras, está sujeita às variantes linguísticas temporais para reinterpretar com outras palavras, sejam elas mais ou menos sutis, as passagens bíblicas. Embora a história contada no livro sagrado permaneça sempre a mesma, teria ela, através dos anos, tido a escolha de palavras mais suavizada conforme os movimentos pelos direitos da mulher ganharam força? Acredito que sim, pois tenho uma bíblia com edição de 1969 que possui passagens com uma escolha de palavras tão duras, que se empregadas hoje, seriam consideradas uma ofensa à todo o sexo feminino, mas não só! teriam versões anteriores a de 1969 (das quais não tenho em mãos) sido ainda mais condescendentes com a inferiorização da mulher? (Isso com certeza vale outro capítulo de estudo). Posso dizer que em tempos modernos, as traduções deste livro ainda o são:

Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, como ao Senhor, pois o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da igreja, que é o seu corpo, do qual ele é o Salvador. Assim como a igreja está sujeita a Cristo, também as mulheres estejam em tudo sujeitas a seus maridos.
Efésios 5:22-24

Do mesmo modo, mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, a fim de que, se ele não obedece à palavra, seja ganho sem palavras, pelo procedimento de sua mulher, observando a conduta honesta e respeitosa de vocês.
1 Pedro 3:1-6

A persuasão utilizada para manter as mulheres submissas aos homens se apega exclusivamente ao divino, e na minha particular opinião, não poderia ser esta uma atitude mais covarde. Usar da crença e fé da mulher para justificar a submissão dela ao homem, e romantizar esta barbaridade como sendo equiparável ao elo de ligação da Igreja -vista como um templo de extrema divindade- com Cristo, é nada menos do que apelativo e um uso da má fé para manter um sexo sempre a mercê do outro.

Não vou me prender em demasia sobre todas as passagens que sabotaram a mulheres como indivíduos e ajudaram os homens que já se sentiam superiores, a acreditar que as mulheres eram e assim deveriam continua sendo, a parte mais frágil dentre os sexos. Contudo, vale ressaltar a sujeição das mulheres ao lar, ao tear e a roca e as tarefas domésticas que a Bíblia aborda como tarefas femininas:

Ela faz vestes de linho e as vende,
e fornece cintos aos comerciantes. Reveste-se de força e dignidade;
sorri diante do futuro. Fala com sabedoria
e ensina com amor. Cuida dos negócios de sua casa
e não dá lugar à preguiça.
Provérbios 31:24-27

A bíblia contribuiu e muito para manter a crença de que as mulheres eram a parte mais frágil e que deveriam permanecer reclusas às tarefas manuais e ao lar. Quando se atribui à um sexo determinadas tarefas, outras pessoas passam a replicá-los como tarefas que pertencem só e exclusivamente àquele sexo.

Escolhe a lã e o linho
e com prazer trabalha com as mãos. Como os navios mercantes,
ela traz de longe as suas provisões. Antes de clarear o dia ela se levanta,
prepara comida para todos os de casa
e dá tarefas às suas servas. […]
Nas mãos segura o fuso
e com os dedos pega a roca. Acolhe os necessitados
e estende as mãos aos pobres.
Provérbios 31:13-20

Certa vez, não muito tempo atrás fui em uma missa e o pastor falava sobre os papéis da mulher no lar. Que o papel da mulher era edificá-la e apoiar seus maridos em suas tomadas de decisões. Que elas como boas esposas deveriam incentivá-los a tornarem-se bons pastores, para que elas se tornassem “mulheres de pastores”. Vejam que ainda hoje o máximo que uma mulher é permitida ascender dentro de alguns cultos é sob a sombra de um homem, que não é seu pai, mas marido. Não poderia ela exercer a atividade pastoral? Ao menos naquele culto, não. Reservavam-se às atividades femininas o canto das canções e o cuidado das crianças menores bem como a organização das missas.

É muito triste para mim ainda me deparar com ideais tão retrógrados sobre o papel da mulher na sociedade e como o cristianismo ajudou (e ainda ajuda) a disseminar ideias de submissão feminina e inferioridade em que as mulheres são tratadas. Mais sobre isso vamos discutir no próximo capítulo deste estudo que sai amanhã à noite. Vejo vocês lá.

– Rejane Leopoldino

#2 O desenvolvimento da mulher na sociedade – Discurso físico e moral

[…] As mulheres que pareciam ser mais fracas por conta de suas funções, que exigiam menos força, foram vistas como inferiores aos homens.
– François Poullain de la Barre

Embora muito tenhamos herdado dos gregos e romanos na nossa cultura ocidental, não foram deles que principiou a fonte da misoginia. Ela de alguma forma já estava lá e apenas foi sendo replicada incessantemente em cada geração que construiu nossa civilização durante séculos.

Então, como de fato podemos supor que nos séculos que nos antecederam, a exclusão das mulheres em atividades não relacionadas à vida doméstica, tais como o exercício de vínculos empregatícios, liberdade financeira, direito de posse, exercício da voz, etc, contribuíram para deixá-las em situação de inferioridade em relação aos homens?

Para responder a essa pergunta me debruço em cima dos escritos deixados por François Poullain de la Barre, mais especificamente, sobre seu texto “Da igualdade entre os dois sexos, discurso físico e moral, onde vemos a importância de se desfazer dos preconceitos” escrito em 1679. Texto esse que nos traz um panorama histórico e elabora um cenário muito próximo à realidade da herança que herdamos e não deixamos de cultivar.


Se voltarmos no tempo, ao começo do mundo, nas primeiras civilizações, poderemos imaginar com facilidade que o relacionamento entre homens e mulheres era muito diferente do que a viria a se tornar anos depois. Homens e mulheres se dedicavam igualmente ao plantio e a caça, aquele que trazia mais fartura à família, claro, seria o mais honrado, e os homens sendo naturalmente mais robustos e mais fortes, possuíam lá alguma vantagem corporal sob as mulheres, uma vez que os incômodos temporários da gravidez as faziam precisar se ausentar das tarefas que exigiam delas maior força física, e quando os bebês nasciam, as mesmas precisavam se dedicar à amamentação e aos cuidados dos filhos. As mães então ficavam dependentes por um breve período dos seus maridos – se é que podemos presumir a existência de um laço matrimonial àquela época – os homens, então, com a ausência das mulheres, passaram a puxar apenas para si as tarefas do exterior.

As mulheres precisavam ficar reclusas em seus lares cuidando dos filhos e do interior. O homem -que era mais livre – saía para a caça e para as atividades exteriores, as mulheres cuidavam e educavam os filhos, realizando apenas tarefas mais simples, que não demandavam muito de sua força física, nem estimulavam o intelecto.

Os primeiros filhos e filhas cresceram, e passaram a não precisar tanto da mãe, a mulher então retoma aos poucos as suas atividades exteriores junto à comunidade, mas como em uma época tão remota não haviam métodos anticoncepcionais e para engravidar basta o sexo, é de se imaginar que as mulheres tinham muitos filhos, uns mal cresciam e outros já estavam a caminho, e quanto mais engravidavam, mais atreladas às tarefas domésticas ficavam. A organização doméstica, ainda que fosse crucial para manter a ordem e disciplina, não era tão nobre quando as demais atividades do exterior.

É fácil imaginar que os filhos seguiram os passos dos pais, da mesma forma que quando somos crianças aprendemos a reproduzir o que observamos. Os filhos homens seguiram os passos dos pais para fora do lar, em direção à liberdade. Já as filhas, reproduziram o comportamento recluso da mãe que se via obrigada a permanecer no lar para educar os filhos. As filhas não pensavam em sair, pois viam em seu pai e seus irmãos alguém que era forte para lidar com o mundo exterior por elas, e que seu lugar era em casa, pois em força física pouco podiam competir, visto que a delicadeza da gravidez poderia atingir-las a qualquer momento.

As comunidades se tornaram cada vez maiores e a civilização os atingiu. A contínua reprodução de comportamento recluso das mulheres que foi passada de geração em geração em detrimento de uma futura gravidez que podia ou não vir a existir, mas pela qual elas deviam estar preparadas, as impediram de aprender as tarefas do exterior, visto que pertenciam apenas aos homens, elas então, permaneceram na ignorância de seus lares, ignorando o mundo que havia fora das paredes.

O restante desta discussão continuarei no próximo capítulo dessa saga que busca compreender o passado do lento desenvolvimento do sexo feminino na sociedade.

– Rejane Leopoldino

#1 O desenvolvimento da mulher na sociedade – o exercício da voz

Não nos esqueçamos de que as mulheres no Ocidente têm muito a celebrar.

– Mary Beard

Depois de tanto ler e pesquisar a fundo a participação feminina na literatura, filosofia, política e artes plásticas, cheguei a conclusões e me deparei com verdades sobre o passado que me geraram dor física. E como eu escrevo muito melhor do que falo, me parece adequado repassar todo o conhecimento que adquiri sobre a participação feminina na sociedade nestes meses que passei afastada estudando este tema. E eu não poderia deixar vocês sem a recomendação de algum livro, pois, como leitora e como um ser humano que escreve, é mais do que minha obrigação recomendar os livros que muito me abriram os olhos ao longo dessa jornada. Um deles é “Mulheres e Poder” de Mary Beard, um livro enriquecedor que explica o porquê do ódio contra as mulheres que tem voz.

Li diversos livros sobre o desenvolvimento da mulher na sociedade desde antes do nosso Anno domini e sobre como começou a ser moldado e aplicado o movimento de igualdade entre os sexos ainda no século XVI. Mas quanto mais eu leio, mais a história se repete: as mulheres não tinham voz ativa em todas aquelas épocas. Isso me obriga a refletir: quão lento foi o desenvolvimento da voz feminina? E o que motivou essa lentidão?
Bom, visto que muito herdamos dos gregos e romanos, comecemos por eles.

Na Odisseia de Homero, obra escrita a quase 2 milênios, Telêmaco, filho de Ulisses e Penélope, manda sua própria mãe voltar aos aposentos e retomar seu trabalho junto ao tear após Penélope pedir para que o bardo – que tocava as dificuldades vividas pelos heróis gregos ao voltarem para casa – começasse a tocar algo mais alegre. Telêmaco, descontente com o pedido de sua mãe, ordena que ela volte aos seus aposentos e afirma que:

“Discursos são coisas de homens, e meu, mais do que qualquer outro, pois meu é o poder nesta casa”.

Quando Telêmaco manda a própria mãe de volta para seu quarto, a obra de Homero não expressa apenas a soberania masculina sob a mulher, expressa também como os discursos e qualquer atividade relacionada à fala, eram associados apenas aos homens e que o tear e a roca, eram atividades de uma boa dona de casa. Uma forma mais antiga de mandar “calar a boca” e não só, teria partido daí, a antiga crença de que a posse da propriedade pertencia ao homem e somente a ele? “O homem da casa”?

Metamorfoses, obra de Ovídio, poeta romano, datada de aproximadamente 8 d.C, é uma das obras mais famosas e de grande influência da história e da poesia. Ilustres nomes como Shakespeare e até mesmo Picasso se inspiraram em suas obras. É difícil encontrar alguma outra obra que tenha exercido tanta influência nas artes plásticas ou na literatura ao longo de tantos séculos como Metamorfoses de Ovídio.

Contudo, vejam uma das formas em que a presença das mulheres nos contos e poesias eram retratadas. Deixo aqui o mito de Filomela, um dos contos de Ovídio em Metamorfose.
O conto narra o romance de Tereu e Procne, romance esse que acaba quando Tereu apaixona-se por Filomela, irmã de sua esposa. Ao negar entregar-se a Tereu, Filomela é violentada por seu cunhado e ele, para impedir que ela denunciasse o estupro, decide cortar a sua língua, porém, mesmo com a língua cortada, Filomela consegue denunciar a violência vivida para sua irmã Procne, esposa de Tereu, bordando uma mensagem em uma tapeçaria.

Shakespeare retoma essa ideia em Tito Andrônico, obra considerada a mais sangrenta de todas, possui um texto em que a língua da estuprada Lavínia é também cortada.

E Picasso também não fica atrás, esta é sua versão, de 1930, do estupro de Filomela.

Vejam como Ovídio continuou sendo retratado por homens de grande influência séculos depois de sua morte. As obras de Ovídio e Homero eram inspirações, leituras obrigatórias aos pensadores que viriam a seguir. As mensagens subliminares de que mulheres eram seres frágeis, que deveriam ser dominadas e subordinadas, empregadas nos contos destes e de tantos outros livros, reafirmaram através de séculos e gerações que o sexo feminino não possuia os culhões necessários para expressar-se em público e que sua voz estridente deveria permanecer em silêncio. Afirmação essa que foi repetida tantas vezes ao longo dos séculos que passou-se a acreditar que era verdade. Pensem em quantos homens nem tão ilustres que entraram em contato com as obras de Ovídio e Homero, viram em seus textos um comportamento que poderia ser facilmente reproduzido dentro do próprio lar. Comportamento esse que foi repassado ao longo de gerações, fortificando cada vez mais, a ideia de submissão feminina.

Simbolizar o silêncio com o corte da língua, não poderia ser mais apropriado. O discurso e a voz são os símbolos da liberdade de expressão, nossa voz é capaz de exercer influência sob outros, disseminar ideias, propagar conhecimento, quem fala, e acima de tudo quem se expressa bem, conquista um lugar na sociedade, passa a ser reconhecido pela oratória, é visto como um líder, pois líderes precisam ter boa oratória para poder expressar-se e conquistar seguidores.

Cortar a língua de Filomela e Lavínia é tirar delas a liberdade de expressão. Uma mulher muda não chamaria atenção, não seria sequer ouvida. E o que era um indivíduo que não se expressava naquela época, senão um animal? Emudecer um indivíduo é o mesmo que deixá-lo à margem da sociedade, ele perde participação civil pois não pode se expressar, e não foi isso que aconteceu por séculos com as mulheres? Dizer que hoje, as mulheres são capazes de se expressar e serem legitimamente ouvidas é reafirmar a conquista de um direito básico que por muito tempo nos foi negado. E ainda há quem diga, hoje, em tempos modernos do século XXI, que as mulheres falam demais. Falamos mesmo? Ou será que muitos estão apenas acostumados com a ideia do silêncio de Filomela?

-Rejane Leopoldino