#1 As representações da mulher na sociedade – o exercício da voz

Não nos esqueçamos de que as mulheres no Ocidente têm muito a celebrar.

– Mary Beard

Depois de tanto ler e pesquisar a fundo a participação feminina na literatura, filosofia, política e artes plásticas, cheguei a conclusões e me deparei com verdades sobre o passado que me geraram dor física. E como eu escrevo muito melhor do que falo, me parece adequado repassar todo o conhecimento que adquiri sobre a participação feminina na sociedade nestes meses que passei afastada estudando este tema. E eu não poderia deixar vocês sem a recomendação de algum livro, pois, como leitora e como um ser humano que escreve, é mais do que minha obrigação recomendar os livros que muito me abriram os olhos ao longo dessa jornada. Um deles é “Mulheres e Poder” de Mary Beard, um livro enriquecedor que explica o porquê do ódio contra as mulheres que tem voz.

Li diversos livros sobre o desenvolvimento da mulher na sociedade desde antes do nosso Anno domini e sobre como começou a ser moldado e aplicado o movimento de igualdade entre os sexos ainda no século XVI. Mas quanto mais eu leio, mais a história se repete: as mulheres não tinham voz ativa em todas aquelas épocas. Isso me obriga a refletir: quão lento foi o desenvolvimento da voz feminina? E o que motivou essa lentidão?
Bom, visto que muito herdamos dos gregos e romanos, comecemos por eles.

Na Odisseia de Homero, obra escrita a quase 2 milênios, Telêmaco, filho de Ulisses e Penélope, manda sua própria mãe voltar aos aposentos e retomar seu trabalho junto ao tear após Penélope pedir para que o bardo – que tocava as dificuldades vividas pelos heróis gregos ao voltarem para casa – começasse a tocar algo mais alegre. Telêmaco, descontente com o pedido de sua mãe, ordena que ela volte aos seus aposentos e afirma que:

“Discursos são coisas de homens, e meu, mais do que qualquer outro, pois meu é o poder nesta casa”.

Quando Telêmaco manda a própria mãe de volta para seu quarto, a obra de Homero não expressa apenas a soberania masculina sob a mulher, expressa também como os discursos e qualquer atividade relacionada à fala, eram associados apenas aos homens e que o tear e a roca, eram atividades de uma boa dona de casa. Uma forma mais antiga de mandar “calar a boca” e não só, teria partido daí, a antiga crença de que a posse da propriedade pertencia ao homem e somente a ele? “O homem da casa”?

Metamorfoses, obra de Ovídio, poeta romano, datada de aproximadamente 8 d.C, é uma das obras mais famosas e de grande influência da história e da poesia. Ilustres nomes como Shakespeare e até mesmo Picasso se inspiraram em suas obras. É difícil encontrar alguma outra obra que tenha exercido tanta influência nas artes plásticas ou na literatura ao longo de tantos séculos como Metamorfoses de Ovídio.

Contudo, vejam uma das formas em que a presença das mulheres nos contos e poesias eram retratadas. Deixo aqui o mito de Filomela, um dos contos de Ovídio em Metamorfose.
O conto narra o romance de Tereu e Procne, romance esse que acaba quando Tereu apaixona-se por Filomela, irmã de sua esposa. Ao negar entregar-se a Tereu, Filomela é violentada por seu cunhado e ele, para impedir que ela denunciasse o estupro, decide cortar a sua língua, porém, mesmo com a língua cortada, Filomela consegue denunciar a violência vivida para sua irmã Procne, esposa de Tereu, bordando uma mensagem em uma tapeçaria.

Shakespeare retoma essa ideia em Tito Andrônico, obra considerada a mais sangrenta de todas, possui um texto em que a língua da estuprada Lavínia é também cortada.

E Picasso também não fica atrás, esta é sua versão, de 1930, do estupro de Filomela.

Vejam como Ovídio continuou sendo retratado por homens de grande influência séculos depois de sua morte. As obras de Ovídio e Homero eram inspirações, leituras obrigatórias aos pensadores que viriam a seguir. As mensagens subliminares de que mulheres eram seres frágeis, que deveriam ser dominadas e subordinadas, empregadas nos contos destes e de tantos outros livros, reafirmaram através de séculos e gerações que o sexo feminino não possuia os culhões necessários para expressar-se em público e que sua voz estridente deveria permanecer em silêncio. Afirmação essa que foi repetida tantas vezes ao longo dos séculos que passou-se a acreditar que era verdade. Pensem em quantos homens nem tão ilustres que entraram em contato com as obras de Ovídio e Homero, viram em seus textos um comportamento que poderia ser facilmente reproduzido dentro do próprio lar. Comportamento esse que foi repassado ao longo de gerações, fortificando cada vez mais, a ideia de submissão feminina.

Simbolizar o silêncio com o corte da língua, não poderia ser mais apropriado. O discurso e a voz são os símbolos da liberdade de expressão, nossa voz é capaz de exercer influência sob outros, disseminar ideias, propagar conhecimento, quem fala, e acima de tudo quem se expressa bem, conquista um lugar na sociedade, passa a ser reconhecido pela oratória, é visto como um líder, pois líderes precisam ter boa oratória para poder expressar-se e conquistar seguidores.

Cortar a língua de Filomela e Lavínia é tirar delas a liberdade de expressão. Uma mulher muda não chamaria atenção, não seria sequer ouvida. E o que era um indivíduo que não se expressava naquela época, senão um animal? Emudecer um indivíduo é o mesmo que deixá-lo à margem da sociedade, ele perde participação civil pois não pode se expressar, e não foi isso que aconteceu por séculos com as mulheres? Dizer que hoje, as mulheres são capazes de se expressar e serem legitimamente ouvidas é reafirmar a conquista de um direito básico que por muito tempo nos foi negado. E ainda há quem diga, hoje, em tempos modernos do século XXI, que as mulheres falam demais. Falamos mesmo? Ou será que muitos estão apenas acostumados com a ideia do silêncio de Filomela?

-Rejane Leopoldino